JBRA Assist. Reprod 2006;10(1):22-24
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2006.10.1.05

Análise de Variáveis Envolvidas no Processo de Inseminação Intra-uterina em uma Clínica de Reprodução Humana

Analyses from Variables Involved in the Intrauterine Insemination Process in a Human Reproduction Clinic

Antonio Carlos Costa Franco(1), Michelle Pongiluppi Herbst(2)

(1)Professor da Faculdade de Ciências Médicas de Santos Departamento de Ginecologia Membro da equipe do Centro de Reprodução Humana da Clinimater/ Santos
(2)Acadêmica do 5º ano de Medicina, Faculdade de Ciências Médicas de Santos-UNILUS

Received February 18, 2006
Accepted March 03, 2006

Endereço para correspondência:
Av. Dr. Epitácio Pessoa, 193
CEP 11045-301, Embaré, Santos-SP
Tel.: (13) 32364436
e-mail: franco@clinimater.com

RESUMO
Analisar as variáveis observadas no tratamento de casais inférteis submetidos a IIU que resultaram na positividade do ß-hCG urinário no período de janeiro de 2000 a junho de 2005.

Palavra-chave: infertilidade, inseminação artificial

ABSTRACT
The goal of this paper is to analyse the variebles observed on the treatment of infertility couples submitted at intrauterine insemination that resulted in positivity ß-human chorionic gonadotropin (ß-hCG) in urine, since January 2000 until June 2005.

Keywords: Infertility, Artificial insemination

INTRODUÇÃO
Inseminação Artificial (IA) é a deposição dos gametas masculinos no trato reprodutor feminino. Atualmente, o útero é o principal local onde a suspensão de espermatozóides é depositada, com fins de tratamento da infertilidade conjugal - a Inseminação Intra Uterina (IIU)- mais especificamente, no ambiente endometrial
De acordo com a origem do sêmen, consideramse dois tipos de IA:
Com sêmen do parceiro (homóloga): pode preceder o uso de técnicas de maior complexidade, sendo indicada nos casos de fator cervical, infertilidade sem causa aparente (ISCA), endometriose, fator masculino, fator peritoneal com permeabilidade tubárea preservada, fator ovulatório, fator imunológico entre outras.
Com sêmen de doador (heteróloga): técnica que tem perdido espaço para a Injeção Intracitoplasmatica de Espermatozóide (ICSI), mas ainda utilizada para azoospermia, vasectomia incorrigível cirurgicamente, oligozoospermia grave, alto risco de transmissão de distúrbio hereditário, disfunção ejaculatória e incompatibilidade Rh.
A IIU pode ser realizada em ciclos espontâneos ou em ciclos onde se utilizem indutores da ovulação. Estudos recentes têm demonstrado que as combinações da estimulação ovarianas associadas às técnicas de IIU podem otimizar as taxas de gestação por ciclo, independente do fator causal que motivou a indicação da mesma.
Quanto ao esquema de indução de ovulação, pode-se utilizar o Citrato de Clomifeno (CC), Gonadotrofinas de mulher menopausada (HMG), associação de ambos e do Hormônio Folículo estimulante puro, além do Hormônio Gonadotrofico Coriônico (HCG). Estudos recentes referem que a associação de CC, HMG e HCG apresentam uma resposta folicular mais expressiva, acompanhada de uma maior taxa de gravidez.

OBJETIVO
Em vista desses aspectos, o objetivo deste estudo foi avaliar as variáveis observadas no tratamento de casais inférteis submetidos a IIU que resultaram na positividade do ß-hCG no período de janeiro de 2000 a junho de 2005.

MATERIAL E MÉTODOS
Foram selecionados retrospectivamente 180 casais submetidos à técnica de IIU no Centro de Reprodução Humana da Clinimater - Santos avaliando-se as seguintes variáveis: idade da paciente, o número de folículos maturados e seu diâmetro, a espessura endometrial, o dia do ciclo em que a inseminação foi realizada e a concentração espermática final do ejaculado.
O processamento seminal foi feito através da técnica de Gradiente de Concentração (“swim-up”), utilizando-se o Esperm Grad®.
O protocolo de estímulo ovariano utilizado foi o da administração por via intramuscular de HMG (75 UI) no 3º, 4º, 5º, 7º e 9º dias do ciclo, associados ao Citrato de Clomifeno (100mg) do 3º ao 7º dia do ciclo. O desenvolvimento e maturação foliculares foram monitorizados através da ultra-sonografia trans-vaginal (Hitachi EUB 405). Quando se obteve um diâmetro folicular adequado, foi administrado HCG (5000UI) também por via intramuscular. O procedimento de IIU era então efetivado após 36 horas da administração do HGC, através de cateter apropriado para a técnica (Gynetics - Bélgica).

RESULTADOS
A incidência de positividade do ß-hCG em 26 pacientes dentre as 180 analisadas no período referido foi de 14,44% (esperado para a técnica). A média de idade das pacientes foi de 33,5 anos (vide Tabela) e o número de tentativas realizadas variou de uma a três. O numero de folículos variou de 1 a 16, com média de 6 folículos. O diâmetro dos mesmos variou de 18 a 23mm, com média de 20,5mm. Quando se atingia um número mínimo de 2 e máximo de 4 folículos com mais de 18mm durante o estimulo ovulatório, foi administrado o HCG. A espessura endometrial detectada pela ultra-sonografia transvaginal variou de 6 a 12mm, com média de 9mm. O dia do ciclo ovariano em que foi realizada a inseminação variou do 9º ao 12º dia, com média no 10,5º dia. A concentração espermática final variou de 300 mil a 68 milhões/ml, com média de 34 milhões/ml.

 

Table 1
Tabela 1. Distribuição das pacientes segundo a faixa etária e positividade do b-hCG

 

DISCUSSÃO
Os usos das técnicas de reprodução assistida representam um grande avanço na medicina e uma modalidade terapêutica para as mais diversas causas de infertilidade conjugal. Porém, existem controvérsias a respeito da técnica a ser utilizada quando não estão presentes alterações nas Trompas, sendo considerado a taxa de gravidez obtida por ciclo, o baixo grau de complexidade e os seus custos.
Das diversas Técnicas de Reprodução Assistida (TRA) a serem empregadas, a IIU é a que apresenta maior simplicidade, menor custo por ciclo, melhor aceitação, associado à taxa de sucesso aceitáveis em casais que não necessitam de procedimentos mais complexos. Seu uso consiste no fato de que, melhorando a quantidade e qualidade dos gametas masculino e feminino no sítio de fertilização, existe uma probabilidade maior de gestação.
O embasamento de todas as TRA é obter um maior número de gestações por ciclo. Em relação à IIU, dois aspectos são de suma importância: o preparo seminal e a resposta ovulatória. As técnicas de preparo do sêmen têm como objetivo separar as frações de espermatozóides de melhor qualidade, avaliados através da morfologia e motilidade, com resultados muito superiores quando comparados com o uso do sêmen à fresco. Em relação à resposta ovulatória, existe a possibilidade do ciclo espontâneo e do ciclo induzido, com vantagens superiores deste em relação ao primeiro em taxas de fertilização mais elevadas, apesar de custos e riscos existentes, mas aceitáveis.
O mecanismo de como a indução da ovulação apresenta melhores resultados ainda é ponto para questionamentos, mas acredita-se que permita um maior e melhor recrutamento folicular sincronizado que, em tempo adequado somado a um número de espermatozóides com alto grau de motilidade e morfologia normal, aumentam a chance de fecundação.
O padrão endometrial está intimamente ligado à resposta folicular. Observamos resposta endometrial satisfatória nas pacientes estudadas com espessura média maior do que 9mm, como é esperado para uma maior probabilidade de implantação.
O custo do procedimento é um fator importante a ser analisado, onde a IIU apresenta o mais baixo valor das técnicas de Reprodução Assistida, na dependência do indutor ovulatório utilizado. Assim, o uso de CC é uma boa justificativa, em vista de seus resultados serem semelhantes ao uso da HMG. Caso exista a possibilidade do uso das gonadotrofinas, a utilização de doses tradicionais (75 UI/dia) parece mais lógica, pois o desenvolvimento folicular é mais favorável, enquanto que o uso de doses mínimas das mesmas, embora de menor custo, não apresenta vantagens em relação ao CC.

REFERÊNCIAS
Avelar CM, Moraes LAM. Infertilidade e emoção. Reprod Clim 15(4): 203-205, 2000.

2Donadio N, Lopes JRC, Melo NR. Reprodução humana II - Infertilidade, anticoncepção e reprodução assistida. São Paulo: Organon, 1997 - 1ª edição. 236p.

3Ferriani RA et al. Esquemas de indução da ovulação para inseminação intra-uterina. Reprod Climat 11(1): 28 - 33, 1996.

4Franco RC et al. Avaliação de pacientes más respondedoras em um programa de Reprodução Assistida. Reprod Clim 14(4): 195 - 199, 1999.

5Infertilidade conjugal - Manual de Orientação. Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia - FEBRASGO. 1997. 70p.

6Moraes LAM, Marinho RM, Caetano JPJ. Estimulação ovariana em ciclos de fertilização assistida. Reprod Clim 16(1): 32-37, 2001.

7Plosker SM, Jacobson W, Amato P. Predicting and optimizing success in an intra-uterine insemination programme. Hum Reprod. 1994 Nov;9(11):2014-21.