JBRA Assist. Reprod 2007;11(1):6-6
EDITORIAL

doi: 10.5935/1518-0557.2007.11.1.01

Reprodução Humana Desde Sempre “Assistida”

Marisa Decat de Moura

Psicanalista do Hospital Mater Dei e do IBRRA, MG

Estamos no início do século XXI e mergulhados nas mudanças sociais que acontecem sob o abrigo da modernidade. Pensá-las se torna imperativo para que, ao “tomarmos uma certa distância”, possamos contribuir para o debate sobre a questão do campo social e sua relação com a subjetividade.

Testemunhamos os limites cada dia mais avançados do processo de medicalização do Ocidente, processo que teve seu início nos primórdios do século XIX quando a biomedicina passou a ocupar o lugar então ocupado pela religião. Dentre esses avanços, os no campo da Reprodução Assistida “revolucionaram” o mundo. Depois da contracepção, da inseminação artificial, da fecundação in vitro, já se interroga se o próximo passo será o útero artificial.

Os títulos nos quais a mídia apresenta questões relacionadas a essas mudanças nos apresentam uma realidade complexa que implica a subjetividade humana. Os embriões conservados por congelamento tornam-se “crianças vindas do frio”, “embriões órfãos”; o recém-nascido cujas células podem salvar seu irmão doente torna-se o “bebê medicamento”; o ginecologista obstetra “bruxo da vida”, “Merlin, o fazedor de crianças”.

Para refletir sobre as mudanças em várias abordagens possíveis escolhi interrogar sobre “o pai” e seu lugar no mundo contemporâneo. Particularmente seu lugar nos Tratamentos de Reprodução Assistida cuja clínica evidencia, por seus tratamentos sofisticados do ponto de vista científico e tecnológico, a questão do lugar do sujeito no discurso da ciência. Essa escolha se faz a partir de um projeto necessário para pensar as grandes mudanças que vivenciamos, testemunhamos e das quais recebemos os seus efeitos nas nossas clínicas.

Para situar a interrogação sobre o “lugar do pai” precisamos pensar no corte epistemológico que a ciência moderna operou sobre o conhecimento como ele era até então, e com o imperativo da demonstração racional que sustenta a sua validade. Esse corte vai ter implicações sobre o lugar do sujeito nos tratamentos. Marcela Decourt, psicanalista, em sua tese de doutorado “Psicanálise e Família: A terceirização da função paterna na contemporaneidade” (UFRJ, 2003), situa as mudanças e os impasses da função paterna na cultura contemporânea, pelo não respaldo cultural necessário que asseguraria a sua operatividade.

 

Marisa Decat de Moura
Psicanalista do Hospital Mater Dei e do IBRRA, MG