JBRA Assist. Reprod 2007;11(1):9-11
ARTIGO ORIGINAL
doi: 10.5935/1518-0557.2007.11.1.02
Psicóloga colaboradora do Instituto de Ginecologia da UFRJ, setor de Reprodução Humana, Hospital Moncorvo Filho, Rio de Janeiro
RESUMO
Na busca pelo filho, casais inférteis embarcam numa jornada plena de expectativas e esperança. Casais em tratamento podem experimentar algum grau de estresse emocional se a gravidez não ocorre. A infertilidade frequentemente é percebida como um grande problema emocional. O casal se torna ancioso e constroi expectativas fantasiosas sobre o tratamento. Este trabalho mostra a experiência da autora como membro de uma equipe multidisciplinar em hospital público, no setor de Reprodução Humana, lidando com infertilidade.
Palavras-chave: infertilidade, aspectos psicológicos
ABSTRACT
In their quest for a child, infertile couples embark on a journey that is full of expectations and hopes. Couples undergoing treatment can experience some degree of emotional stress due to disappointment if pregnancy is not achieved. Infertility is frequently perceived by the couple as an enormous emotional strain. The infertile couple becomes anxious and builds expectations towards the Reproduction Treatment. This paper emerges from the experience of the author as a member of a multidisciplinary team operating in a public hospital based gynecology unit, in the Reproductive unit.
Key words: infertility, psychologic aspects
INTRODUÇÃO
A infertilidade é um acontecimento humano no qual estão comprometidas uma ou duas pessoas (um homem e/ou uma mulher) e algumas relações (dos parceiros com a equipe médica, dos parceiros entre si, dos parceiros com o contexto sócio-cultural no qual estão inseridos etc.). Nessa perspectiva de se reconhecer infértil, ou seja, de saber da impossibilidade de ter um filho com a mulher ou o homem desejado, emerge um sentimento de não poder cumprir com uma norma social cuja prescrição é de que todos devem ter filhos e formar uma família.
Essa representação social contribui para que o diagnóstico de infertilidade seja vivenciado como uma transgressão das normas socialmente impostas, tanto para a mulher quanto para o homem. Os casais inférteis expressam que sua infertilidade não somente os impede de formar uma família, mas também os exclui de uma integração social. Ter um filho não é apenas um fato da natureza. É igualmente um ato social, que muda o status do casal. O filho, ao nascer, evidencia a continuidade de uma cadeia geracional e de um grupo social.
Este artigo descreve o trabalho psicoterapêutico com mulheres e casais que se submetem ao tratamento no setor de reprodução humana do Instituto de Ginecologia da UFRJ, Hospital Moncorvo Filho. Os pacientes desse serviço público pertencem à classe popular, com um pequeno número das camadas inferiores da classe média. Nessa amostra estão incluídos os casos de infertilidade primária e secundária. Os casais pesquisados estão no relacionamento atual em média 8 anos.
Desde o início do tratamento da infertilidade, estabelece-se um vínculo entre o casal e a equipe médica. Os procedimentos médicos, durante todo o processo do tratamento, são prioritários e envolvem uma série de procedimentos: clínicos e/ou cirúrgicos ou diagnósticos de condição que necessita encaminhamento para outra instituição (casos de reprodução assistida).
Paralelamente, há que se considerar a existência de fantasias, inquietudes, expectativas e medos vivenciados pelo casal infértil durante as fases do tratamento. Portanto, dada à complexidade desse percurso, além da abordagem médica, é importante levar em consideração os fatores psicológicos, tanto no nível individual, quanto no relacional e no social.
Para ser atendido, o paciente deve se inscrever e aguardar a chamada, de acordo com uma lista de espera. Desse momento até o contato efetivo, podem contar alguns meses de espera. A todo tempo pode haver encaminhamento para exames específicos em outros hospitais, ou postos de saúde associados para a realização de exames complementares.
Desde a primeira consulta há a possibilidade de inserção de um trabalho psicológico, se o médico assim o indicar. Paralelamente, pacientes de primeira vez são escolhidas de forma aleatória; ressaltamos que, nem todos os que estão marcados para a consulta médica são entrevistados pelo psicólogo.
Tão logo iniciamos a realizar as entrevistas psicológicas, observamos um nível muito alto de ansiedade e uma idealização quanto à intervenção médica para alcançar o resultado esperado, que é o da gravidez. A partir desses dois aspectos, ansiedade e idealização, começamos a perceber uma diferença entre os que estão iniciando o processo e aqueles que já foram submetidos a alguma fase do tratamento. Os últimos apresentam maior nível de ansiedade e menor idealização.
METODOLOGIA
Como instrumento de pesquisa foi utilizada a entrevista semidirigida, com o objetivo de coletar informações que vão desde o histórico de vida do casal infértil, passando pela identificação dos aspectos emocionais ocasionados pela infertilidade nos diversos setores da vida sócio-familiar, até a avaliação do comprometimento de cada parceiro com o tratamento.
Baseamo-nos em um roteiro composto por questões específicas, deixando espaço para o surgimento de questões não previstas e de ordem emocional. Os itens que compõem o roteiro dizem respeito à decisão de procurar o atendimento e aos sentimentos provenientes dessa experiência. Vale lembrar ainda que, para avaliar sintomas e sentimentos que estão presentes no decorrer do tratamento de reprodução humana, foi elaborado um estudo qualitativo constituído de coleta de dados e atuação psicoterapêutica.
Em número expressivo, os entrevistados apresentam quadro clínico compatível com o encaminhamento para Reprodução Assistida (obstrução tubária bilateral por laqueadura ou prenhezes ectópicas, oligospermia acentuada ou azospermia).
Nessas entrevistas, sendo a maioria com mulheres de idade entre 20 e 35 anos, priorizamos o enfoque da experiência individual e conjugal, a partir de uma abordagem sistêmica. Assim, compreendemos que todo sintoma está relacionado a um contexto interacional.
O estudo foi realizado com 240 pessoas (pacientes do ambulatório de Reprodução Humana) com diagnóstico de infertilidade, que buscavam esse serviço para gerarem e ter um filho. Durante as consultas, indagamos às pacientes e/ou aos casais a respeito da vivência individual da infertilidade e avaliamos as expectativas dessas pessoas procurando conhecer também as emoções vividas pelo casal e pela família durante o processo.
O relato dos pacientes possibilitou-nos a compreensão dos fatores emocionais que estão presentes nas diferentes fases do tratamento, assim como compreender os questionamentos éticos em relação ao mesmo.
Nas entrevistas psicológicas, observamos que as pessoas e/ou casais apresentaram ansiedade, insegurança, sentimento de menos-valia, isolamento familiar/social, desinteresse pelo trabalho, além da angústia em relação ao receio de não conseguir realizar o sonho de ter um filho biológico.
Quanto aos aspectos observados durante a consulta psicológica, os conteúdos que aparecem com maior freqüência associam-se à insegurança quanto ao comprometimento do parceiro/a no tratamento, ao receio do fracasso e ao surgimento de aspectos religiosos punitivos como forma de explicar a infertilidade.
Observamos que, em sua grande maioria, as mulheres assumem a responsabilidade frente ao resultado do tratamento ainda que a causa de infertilidade esteja relacionada ao homem. Observamos também que as pacientes sentem-se responsáveis pelo sofrimento do parceiro decorrente do adiamento da maternidade.
Apesar de a ansiedade estar presente em ambos os parceiros ao longo do processo a infertilidade conjugal parece ser mais sentida pela parte feminina. Entendemos esse aspecto pela pressão sócio-familiar exercida, sobretudo sobre a mulher.
Constatamos que o fato de essas mulheres priorizarem, anteriormente, a carreira profissional, adiando o momento da maternidade, muitas vezes reforça o sentimento de culpa, gerando a sensação de punição e repreensão divina.
Os casais pesquisados estão no relacionamento atual em média há 8 anos. A incapacidade de engravidar, com o passar do tempo, de acordo com os entrevistados, pode acirrar diversos tipos de sentimentos entre os quais, tensão, baixa auto-estima, vazio, culpa e insegurança. Com o longo tempo de espera pelo filho desejado, a relação conjugal pode se ver ameaçada diante dessa situação e consequentemente podem surgir questionamentos como “seguir em frente ou não com o tratamento”.
De acordo com os dados colhidos pudemos observar, ainda, que as pessoas/casais de nossa amostra apresentaram aspectos em comum, dentre eles anos de espera para se chegar à gravidez desejada.
DISCUSSÃO
O tratamento para alcançar a gravidez é a meta prioritária. Não sendo alcançada, o tema da adoção pode ser abordado, ainda que com reservas. O questionamento sobre a adoção faz aflorar a reflexão sobre reprodução e parentesco: “só vou pensar em adoção, depois de tentar de tudo para ter meu próprio filho”.
A constatação do diagnóstico de infertilidade feminina ou masculina pode vir acompanhada de um desejo intenso de superar esse diagnóstico e de buscar gerar um filho por qualquer meio científico, oferecido pelas novas tecnologias reprodutivas.
Ao longo do tempo, as mulheres desenvolvem o desejo de ser mãe, um marco diferencial que consagra de forma concreta a abrangência do papel feminino na sociedade. A dura realidade do diagnóstico de infertilidade não é aceita facilmente, razão pela qual as mulheres inférteis, em sua grande maioria, recorrem aos métodos de reprodução medicamente assistida para, enfim, realizar seu desejo de maternidade.
Numa sociedade em que a validação da identidade social é formada pela construção cultural de gênero, a questão da reprodução ocupa um lugar significativo. Dessa forma, a infertilidade é associada pelas mulheres a sentimentos como vergonha, falha, inadequação, levando-as a se sentirem anormais, desvalorizadas, incompletas e incapazes de construir uma família.
Conforme já mencionamos, a construção de uma carreira profissional para a mulher e, conseqüentemente, a postergação da maternidade pode gerar, de um lado, uma frustração diante da impossibilidade de engravidar e, de outro, um aumento do nível de ansiedade; por conseguinte, provoca uma grande expectativa de resultados imediatos em relação ao tratamento.
De acordo com a população pesquisada, as mulheres relataram o medo de que existisse algo de “errado” com elas ao se saberem inférteis e, sem exceção, assumiram o comando na iniciação do tratamento médico.
Em relação aos sentimentos despertados pelos exames diagnósticos e suas causas, elas relatam tristeza, vergonha, responsabilidade, culpa, carência e medo do abandono: “Apesar do problema não ser comigo, me diz respeito totalmente”; “Choro muito, tenho medo que meu marido me deixe”; “A menstruação, quando chega, me deixa deprimida”; “Tanta criança sendo abandonada e eu não tenho a minha”; “Deus é quem sabe. Peço que ele não me abandone”.
Da parte masculina ocorre que muitos homens ainda relacionam virilidade ao diagnóstico de infertilidade e, diante do pedido médico do espermograma, ficam muito ameaçados em sua virilidade. Referem: vergonha, sentimento de autodepreciação e incapacidade: “Fiquei com muita vergonha de fazer o exame do sêmen”; “O resultado do espermograma podia mostrar que eu sou pouco homem”.
A explicação deixa claro de que modo valores de gênero relacionados à masculinidade são explicados diante do pedido do exame. O papel masculino na reprodução assistida pode ser mais ameaçado pela doação de esperma do que o papel feminino com a doação de óvulo: “O meu marido ia ficar cismado de que o filho não é dele”. Na doação de óvulos a mulher não fica tão ameaçada, porque tem a vivência da gravidez.
Muitos homens associam, portanto, a incapacidade de engravidar uma mulher à masculinidade e à virilidade: “Não falo para ninguém que o problema é meu, todos os homens da minha família já fizeram filhos, só eu que ainda não consegui”.
O contexto psicológico é tão delicado que alguns homens, incapazes de tolerar essa frustração, buscam saídas para ela através de relações extraconjugais, no álcool e nas drogas.
Em algumas situações apresentam, também, problemas de ejaculação devido às pressões e às expectativas quanto a engravidar sua parceira. Em outras, apresentam impotência somente nos dias férteis: “Perdi a oportunidade de engravidar a minha mulher esse mês, não consegui ter ereção nos dias férteis, então, tem que ficar para o próximo mês”.
Em relação aos sentimentos despertados pelos exames de investigação da infertilidade e suas causas, os homens referem: “Sempre pensei que o problema era da minha mulher”; “Quando recebi o resultado do espermograma fiquei muito chateado e com vergonha”; “Não consigo aceitar essa situação de não conseguir engravidar minha mulher”; “Não quero que minha família e meus amigos saibam que o problema é meu”.
CONCLUSÃO
O trabalho do psicoterapeuta na equipe multidisciplinar da medicina reprodutiva tem como objetivo contribuir para a formulação de estratégias de intervenção nas quais se levem em consideração tanto os fatores médicos quanto os psicológicos.
Nesse sentido, o terapeuta que trabalha com os casais inférteis pode desempenhar um valioso papel de apoio no decorrer das várias etapas do percurso do tratamento de reprodução assistida, reconhecendo o estresse vivido pelo casal.
O trabalho psicoterapêutico no tratamento visa a investigar e trabalhar as histórias, emoções, desejos, expectativas e projetos tanto pessoais quanto conjugais. Visa também a entender a dinâmica do casal frente aos desafios e dilemas, fonte de estresse, relativos ao: diagnóstico, à decisão quanto à escolha do tratamento, ao custo financeiro, à perda da privacidade da vida íntima e sexual e às expectativas social e familiar.
Dada a complexidade de todo o processo, ainda mais quando chega à reprodução assistida, repetimos, é essencial considerar os fatores psicológicos nos níveis: individual, relacional e social. O trabalho conjunto do médico e do psicólogo possibilita aos casais em tratamento um espaço diferenciado em que homem e mulher podem expressar suas dúvidas, angústias, medos, ansiedade e raiva.
Como o tratamento, na maioria das vezes, é longo, cria-se um espaço fértil para sentimentos negativos e quadros depressivos. Os diferentes tratamentos remetem a valores e ideais que levam os pacientes a questionar sobre seu lugar no mundo, seus desejos, seus medos e a refletirem sobre seu próprio corpo.
Uma das questões é compreender as vivências de homens e mulheres que participam de procedimentos. A compreensão dessas questões e vivências permitirá desenvolver estratégias de apoio às pessoas e/ou casais em cada um dos momentos desse processo: desde o diagnóstico até o final do tratamento, qualquer que seja o resultado alcançado.
O trabalho psicoterapêutico tem a possibilidade de ajudar o casal a ressignificar o desejo pelo filho, gerar alternativas e abrir mais perspectivas no sentido de exercitarem o diálogo. O diálogo legitima desejos e amplia a perspectiva quanto às possibilidades e às impossibilidades.