JBRA Assist. Reprod 2007;11(1):32-34
ARTIGO DE REVISÃO

doi: 10.5935/1518-0557.2007.11.1.06

Estresse, sua Influência nos Resultados de Fecundação Assistida

Falta tit inglês

Cláudia Pazzini S. S. Scheffer1, Juliano A. B. Scheffer2

1Fellow do Serviço de Psicologia e Reprodução Assistida do Hôpital Antoine Béclère. Clamart, França
2Fellow do Serviço de Medicina da Reprodução do Hôpital Antoine Béclère. Clamart, França

Received August 14, 2006
Accepted March 23, 2007

Endereço para correspondência:
e-mail: claudiapazzini@hotmail.com

RESUMO
A infertilidade é um trauma psicológico para muitos casais, interferindo diretamente em suas vidas e nos tratamentos. Em 3 anos alguns podem desenvolver mesmo um quadro de depressão na ausência de gravidez. São apontadas vantagens do atendimento psicológico nos procedimentos de reprodução assistida.

Palavras-chaves: estresse, reprodução assistida

ABSTRACT
Infertility is a psychological trauma for many couples. This interferes with their lives and with the treatments. In a 3 year interval some will present depression if pregnancy does not occur. The advantages of a psychological assistance is pointed during ART procedures.

Key words: stress, assisted reproduction results

INTRODUÇÃO
Infertilidade é um trauma psicológico para muitos casais sendo para alguns o diagnóstico o momento mais estressante em sua vida. Em 2000, aproximadamente 5,7 milhões de mulheres nos Estados Unidos eram inférteis e em 2025 o número aumentará para aproximadamente 6,5 milhões. Apesar das atuais técnicas de Reprodução Assistida, as intervenções são muitas vezes estressantes para o casal como as injeções diárias, exames de sangue e ultra-sonográficos, coleta de oócitos, número de embriões transferidos, além da possibilidade de falha do tratamento. O impacto do diagnóstico, tratamento e a pressão social sobre o casal infértil são, especialmente para a mulher, as possíveis fontes de estresse.
A infertilidade pode induzir distúrbios psicológicos (Moller e Fällström 1999; Lalos, 1999), igual aos do câncer (Domar, 1993) e está envolvida em mortes e divórcios entre parceiros. Alguns pesquisadores (Thierring, et al 1993; Oddens, et all 1999) têm relatado que as mulheres durante o tratamento de infertilidade apresentam altos níveis de angústia, ansiedade, depressão, dificuldade no relacionamento, inclusive sexual.
Muitos fatores podem influenciar as conseqüências dos tratamentos de reprodução assistida como a idade, o tipo de infertilidade, a duração da infertilidade e possivelmente as alterações psicológicas. Por exemplo, os quadros de ansiedade e de depressão. Os transtornos psicológicos em mulheres inférteis aumentam com o tempo, atingindo um grau elevado de depressão após 3 anos de infertilidade. Por isso, alguns citam que a intervenção psicológica deve ser oferecida o quanto mais rápido para esses casais.
Além disso, um estudo australiano mostrou que o principal motivo dos casais interromperem o tratamento de infertilidade é a alteração emocional: “não consigo enfrentar outro tratamento” (42%) e custo emocional (64%) (Hammarberg, 2001).

ESTRESSE X INFERTILIDADE
Há muitas evidências que mostram associação significativa entre “stress” e infertilidade (Kaufman, et al 2000; McEwen, 2005). Uma das evidências pioneira foi o trabalho de Selye (1950) que observou atrofia ovariana em ratos expostos a uma variedade de estímulos nocivos. Mais recentemente, estudos laboratoriais têm demonstrado uma interação entre o eixo hipotálamo-hipófise-ovário e o “stress” e a influência negativa sobre o tratamento de infertilidade (Gallinelli, et al 2001; Klonoff-Cohen e Natarajan 2004; Lancastle, 2005).
Tanto no homem quanto na mulher, afeta os resultados do tratamento da infertilidade (Boivin e Schmidt, L, 2005) resultando, por exemplo, em menor quantidade de oócitos obtidos (p=0,04) (Klonoff-Cohen, et al 2001), menor taxa de gravidez (p<0,01) (Domar, 2000) e alteração espermática (p<0,05) (Kentenich, 1992).
Uma associação entre o comportamento hostil das mulheres inférteis e a menor chance de engravidar foi averiguada por Sanders, 1999, que postulou que as mulheres inférteis com elevados traços de ansiedade podem apresentar menor chance de engravidar e são menos capazes de superar o estresse do próprio tratamento, prejudicando a taxa de sucesso.
A qualidade espermática também é afetada, alterando a concentração, a motilidade, a morfologia (p<0,001) (Eskiocak, et al 2005). A qualidade espermática alterada, por componentes do plasma seminal (p<0,05) e Klimek, et al 2005, demonstraram inibição da conversão de androstenediona em testosterona pelas células de Leydig.

LIGAÇÃO FISIOLÓGICA ENTRE O ESTRESSE E FERTILIDADE NA MULHER
O estresse psicológico pode diminuir a fertilidade possivelmente por vários mecanismos como disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-ovário, alterações de neurotransmissores, alteração de receptores hipotalâmicos, distúrbio na secreção de gonadotrofinas, efeito local das catecolaminas no útero e na nas tubas uterinas, processo imunológico de implantação e distúrbios comportamentais (Ragni e Caccamo, 1992).
Hormônios do estresse e o eixo hipotálamo-hipófise-ovário se interagem, influenciando diretamente a fertilidade através de hormônios como hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH), prolactina, LH, FSH, cortisol, opióides endógenos e melatonina. O fato é que alguns neurotransmissores são comuns no controle da fertilidade e do estresse.
Em relação ao quadro imunológico, verificou-se uma ativação de células T no sangue periférico das mulheres estressadas submetidas à fertilização assistida, levando a uma redução da taxa de implantação (p<0,05). (Gallinelli, 2001; Palter, 2001; Dobson, 2003).
A alteração hormonal também ocorre a nível folicular. Pesquisadores mostraram diferenças no nível de alguns glicocorticóides folicular entre mulheres que engravidaram e não engravidaram(Lewicka, et al 2003).
A dosagem sérica e/ou urinária de alguns hormônios relacionados com o estresse, como adrenalina, noradrenalina e cortisol é muito questionada. Enquanto alguns relatam mudanças na dosagem de cortisol e catecolaminas (Frankenhauser, 1975; Biondi e Brunetti 1990), outros não observaram diferença entre pacientes com e sem sinais de estresse. Além disso, vários trabalhos mostraram que pacientes com sinais significativos de estresse apresentaram dosagens de catecolaminas normais.

BENEFÍCIO DO TRATAMENTO PSICOLÓGICO
Harrison, et al (1981) e Dunphy, et al (1990) demonstraram que casais inférteis atingiram a gravidez com tratamento de stress antes dos tratamentos clássicos de infertilidade.
Muitos autores mostraram o efeito benéfico do tratamento psicológico, seja em grupo ou individual durante o tratamento da infertilidade, melhorando a comunicação e a interação do casal e até mesmo a compreensão quando do tratamento de reprodução assistida (McNaughton-Cassill, et al 2000).
Recentemente, Celia, at al (2006), evidenciou que a terapia em grupo (utilizando Eastern Body-Mind Spirit) de casais submetidos a tratamento de infertilidade diminui significativamente a ansiedade do casal (p<0,01), com tendência a maior taxa de gravidez. Em contrapartida, os casais que submeteram a intervenção psicosocial de relaxamento, tratamento cognitivo comportamental e psico-educacional tiveram maior taxa de gravidez especialmente quando a causa da infertilidade era inexplicada.
Logo, a intervenção psicológica melhora o emocional e os resultados da fertilização in-vitro (FIV) (Domar, 2000; Facchinetti, et al 2004). Recente meta-análise mostrou que a psicoterapia acompanhando o tratamento de FIV é realmente eficaz (de Liz e Strauss, 2005).
A psicoterapia é importante no tratamento do casal infértil, atuando em vários níveis, reduzindo o sentimento de desamparo, mudando o comportamento sexual, melhorando a comunicação conjugal e a compreensão do tratamento de reprodução assistida. Prepara melhor o casal se houver falha no tratamento e possivelmente melhora os resultados do tratamento.

CONCLUSÃO
Apesar de vários trabalhos demonstrarem a melhora nos resultados de FIV com a psicoterapia, é difícil calcular o quanto de melhora na taxa de gravidez podemos esperar. Por isso, mais pesquisas são necessárias para quantificar e validar esta eficácia, elucidar quando e como deveríamos dosar os hormônios relacionados com o estresse e qual o nível de alteração desses hormônios deveria nos preocupar.
Para combater a associação estresse e infertilidade, é necessário um trabalho multidisciplinar envolvendo o ginecologista, o especialista em reprodução assistida, o biólogo e o psicólogo. As evidências indicam que no tratamento da infertilidade, o tratamento psicológico é imprescindível, além de ser não invasivo e relativamente barato.

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