JBRA Assist. Reprod 2007;11(3):6-6
EDITORIAL

doi: 10.5935/1518-0557.2007.11.3.01

Reprodução e Educação: Temas Cruzados, Saberes Interfecundados

Education and Reproduction: Crossed Links

Danielle Grynszpan

Setor Alfabetismo Científico - LABAIIR Instituto Oswaldo Cruz - FIOCRUZ

Temas ligados à reprodução envolvem múltiplos olhares. Abrangendo diversos aspectos, falar em reprodução implica no debate sobre questões ligadas ao amor e sexualidade, gravidez precoce e evasão escolar, geração de famílias nucleares e outras alternativas contemporâneas de cuidado à prole, possibilidades tecnocientíficas de contracepção ou de auxílio à concepção que, ainda, resvalam na clonagem terapêutica. A temática vem suscitando controvérsias, em diversos países e especialmente em determinados períodos, sobre a importância de se estabelecer um amplo debate sobre planejamento familiar bem como discutir sobre a liberdade reprodutiva dos cidadãos ou a pertinência de decisões judiciais sobre a criminalização de práticas usadas na interrupção da gravidez indesejada ou sobre o uso das tecnologias reprodutivas para fazer face a problemas que causam a infertilidade. Hoje o debate sobre questões ligadas à reprodução vem se imiscuindo até mesmo nas discussões sobre políticas públicas em estudos sobre redução da criminalidade - especialmente nos grandes centros urbanos - com afirmações que simplificam a solução de graves problemas ligados à violência por meio de ações como a mera distribuição de contraceptivos.

Sem deixar de conferir relevância à discussão sobre outras estratégias, Reprodução e Educação, a nosso ver, apresentam uma associação intensa porque tocam, ambas, em um ponto essencial: a perspectiva de vida, tanto no plano individual como no coletivo.

A dimensão educacional tem o sentido de valorização da idéia de responsabilidade, isto é, de invocar a possibilidade de cultivar a responsabilização significa enfatizar o delineamento de estratégias que levem a proporcionar a busca incessante pelo conhecimento, que consideramos base para a liberdade de escolha e tomada de decisões sábias que, por sua vez, possam contribuir para o bemestar pessoal e a melhoria da qualidade de vida das populações.

O caráter da prática educativa em ciência e tecnologia não pode prescindir de uma preocupação ética, mas não moralizante. Buscamos, em nosso trabalho, acentuar a compreensão de que a almejada apropriação do conhecimento em tecnociência implica também em aceitá-la como um processo dinâmico no qual se dão interações psico-sóciopolíticas que ocorrem em um campo impregnado de valores influenciados historicamente, especialmente no que diz respeito à reprodução humana. Dessa forma, a despeito da ampliação significativa do campo dos possíveis que decorre do desenvolvimento da tecnociência, é preciso assinalar um limite crucial: o fato dela não ser o único referencial, na medida em que existem outros saberes de valor inestimável para as diferentes populações. Justamente é esta diversidade de saberes que, intercruzados e interfecundados, pode apontar para a construção compartilhada de uma cultura científica social e contextualizada, não esquizofrênica e não monolítica. O dever do educador é propor utopias, acreditando que elas possam se realizar apesar dos obstáculos. E, como indica Jacquard (2006), é tempo de repensar sobre as bases de nossa racionalidade para não nos deixarmos destruir pela incapacidade de reconhecer tais obstáculos.

individual e coletiva, em um quadro de autonomia que também implique em respeito à singularidade e aos direitos humanos. Introduzir a relevância de um trabalho educacional relacionado à Reprodução

 

Danielle Grynszpan
Setor Alfabetismo Científico - LABAIIR Instituto Oswaldo Cruz - FIOCRUZ