JBRA Assist. Reprod. 2008;12(3):26-32
ARTIGO DE ATUALIZAÇÃO
doi: 10.5935/1518-0557.2008.12.3.07
1Conceber - Centro de Medicina Reprodutiva, Curitiba
2Faculdade de Medicina do ABC, São Paulo
RESUMO
Muito se fala da importância do espermatozóide no desenvolvimento embrionário. Esta revisão demonstra essa importância, ressaltando algumas causas e efeitos paternos no desenvolvimento embrionário.As deficiências da molécula de DNA do espermatozóide não necessariamente evitam a fertilização, sendo ele ainda capaz de formar um prónucleo normal após a injeção intracitoplasmática (ICSI). Porém, algumas conseqüências podem ocorrer devido ao imprinting genômico e a fragmentação de DNA.Este trabalho mostra a importância de avaliar não apenas fatores morfológicos, mas também fatores genéticos e epigenéticos do espermatozóide no tratamento de casais inférteis com abortos de repetição.
Palavras-chave: DNA, espermatozóide, implantação
ABSTRACT
A lot of research has been done on the importance of sperm on the embryo development. This analysis shows some causes and paternal effects of this importance, on the embryo development.The damage of the spermatozoa’s DNA molecule does not necessarily avoid the fertilization, as it is still capable of forming a normal pronuclei after intracytoplamatic sperm injection (ICSI). However, the genomic imprinting and DNA fragmentation can lead to consequences.This study demonstrates the importance of evaluating not only the morphological aspects but the spermatozoa’s genetic and epigenetic aspects in the treatment of infertile couples with recurrent miscarriage as well.
Key Words: DNA, imprinting, sperm
INTRODUÇÃO
Atualmente, cerca de15 a 20% dos casais em idade reprodutiva são acometidos por problemas de fertilidade, e em cerca de 30% dos casos a infertilidade é atribuída a causas masculinas (WHO, 1999). Várias etiologias foram identificadas como causas da infertilidade masculina, as quais incluem mutações genéticas, aneuploidias, doenças infecciosas, oclusão do ducto ejaculatório, varicocele, exposição à radiação, quimioterápicos e disfunções erétil e ejaculatória (Ollero et al, 2001). No entanto, aproximadamente 40% dos homens inférteis apresentam infertilidade sem causa conhecida, o que representa um sério problema já que nestes casos a terapêutica empírica não tem sucesso (Skakkebaeck et al, 1994; Henkel et al, 2003).
Após a introdução da técnica de injeção intra-citoplasmática de espermatozóide (ICSI) houve uma revolução no tratamento da infertilidade masculina, proporcionando a pacientes antes incapazes de poder reproduzir, a oportunidade de se tornarem pais genéticos. Entretanto, na técnica da ICSI o espermatozóide é injetado diretamente dentro do oócito, sendo eliminadas muitas barreiras naturais que excluiriam um espermatozóide anormal ou com defeitos genéticos de entrar no oócito. Para evitar a ocorrência deste fato, houve a necessidade do desenvolvimento de novas técnicas de acesso a características de amostragem de sêmen . O interesse com a integridade do genoma dos gametas masculinos intensificou-se pela crescente preocupação com a transmissão de doenças genéticas especialmente através da ICSI (Sakkas et al, 1999; Agarwal & Said, 2003; Henkel et al, 2003; Lewis & Aitken, 2005).
OBJETIVO
Este trabalho tem por objetivo elucidar o papel da integridade do espermatozóide na transmissão do material genético aos seus descendentes, e também o potencial efeito paterno aos embriões em fase pré-implantacional.
Espermatogênese
As células germinativas masculinas originam-se a partir das células primordiais provenientes do saco vitelino que chegam as gônadas em formação, onde são convertidas em espermatogônias. Estas então entram em meiose na puberdade com a produção de testosterona pelas células de Leydig, sendo este processo contínuo até a senescência do indivíduo (Moore et al., 2004).Espermatogênese é o nome dado ao processo de formação do espermatozóide a partir das espermatogônias, que se multiplicam por mitose proporcionando assim a renovação contínua de material genético, não havendo assim envelhecimento dos gametas como ocorre com os oócitos formados ainda na fase embrionária que serão os mesmos pelo resto da vida da mulher.As espermatogônias entrarão em meiose formando os espermatócitos primários, secundários e as espermátides, este último grupo apesar de haplóides ainda são células redondas e não funcionais (De Robertis, 2001). Após a formação das espermátides um outro processo ocorre, denominado espermiogênese gonadal (Sofikits et al., 1998), onde se dá o empacotamento da cromatina nuclear, eliminação do citoplasma e formação da vesícula acrossômica a partir do complexo de Golgi, formação da peça intermediária com o acúmulo de mitocôndrias (bainha mitocondrial) e formação da cauda (flagelo) a partir do centríolo.
Efeito Paterno
A boa qualidade do material genético (DNA) é essencial para a perfeita transmissão da informação genética para a próxima geração. As contribuições do material genético são de vital importância para a embriogênese. A soma da contribuição do DNA, controle epigenético, assim como, a regulação da transcrição do DNA, tradução e a função cromossômica são necessárias para o desenvolvimento embrionário (Emery & Carrell, 2006).Alguns estudos têm mostrado que fatores paternos podem ser responsáveis pelas repetidas falhas em tentativas de técnicas em reprodução assistida (TRA) (Vanderzwalmen et al., 1991; Parinaud et al., 1993; Janny & Menezo, 1994; Hammadeh et al., 1996; Sanchez et al., 1996; Shoukir et al., 1998).Os danos no DNA não representam uma barreira para a fertilização, porém é possível que venham a causar anomalias congênitas nos descendentes (Donnely et al, 2000). Apesar das deficiências da molécula de DNA não necessariamente evitarem a fertilização embora causem danos genéticos no espermatozóide, o mesmo ainda é capaz de formar um pronúcleo normal após a injeção intra-citoplasmática (ICSI) (Twigg et al., 1998).Tesarik e cols. (2002) que o efeito paterno precoce é visível antes da primeira clivagem após a fertilização. A seqüência de avaliação dos embriões durante a primeira e subseqüentes divisões mostra a proximidade entre a detecção de anormalidades durante o primeiro ciclo celular e a dificuldade no desenvolvimento. A manifestação precoce da influência paterna no desenvolvimento préimplantacional caracteriza a falha de mecanismos moleculares e imprinting genômico. Uma outra hipótese é que o efeito precoce seja mediado pela disfunção do centrômero ou deficiência de fatores ativadores de oócito. A implicação do empacotamento cromossômico no espermatozóide ou danos de DNA permanece controversa.Estudos feitos demonstraram também a existência do efeito paterno tardio que pode envolver aneuploidia, danos de DNA ou empacotamento anormal da cromatina alterando a correta ativação da expressão dos genes paternos (Tesarik et al., 2004).Diversos estudos têm mostrado que a infertilidade masculina pode ser causada por danos no DNA do espermatozóide (Sun et al, 1997; Morris et al, 2002; Agarwal & Said, 2003; Henkel et al, 2003; Seli et al, 2004; Lewis & Aitken, 2005). Outros estudos avaliaram também a estrutura e integridade do sêmen ejaculado de humanos, reportando o efeito negativo das altas porcentagens de espermatozóides com danos de DNA nas taxas de gravidez em TRA (Filatov et al., 1999; Host et al., 2000; Larson et al., 2000; Morris et al., 2002; Tomsu et al., 2002; Benchaib et al., 2003). Esses estudos têm sugerido que danos de DNA paterno podem servir como um marcador para diagnósticos das adversidades do efeito paterno no desenvolvimento pré-implantacional em humanos. Contudo, nenhuma pesquisa fornece a possível relação entre a fragmentação de DNA em espermatozóides e efeitos paternos precoces na qualidade do zigoto, mas relaciona esses danos com o efeito paterno tardio, que pode causar falhas de implantação e do desenvolvimento após a implantação (Tesarik et al., 2004).Os exatos mecanismos que levam a esses danos ainda não são completamente entendidos, mas algumas teorias são propostas para explicá-los, como falhas no processo de compactação da cromatina, altos níveis de apoptose e o estresse oxidativo (Agarwal & Said, 2003; Lewis & Aitken, 2005).
Imprinting genômico
Freqüentemente, a epigenia é usada para mostrar a idéia de agentes intrínsecos das células, tecidos ou organismos, influenciando não o código genético, mas sim o padrão da expressão genética. A epigenética é o estudo de como a transcrição dos genes, a expressão e a utilização dos produtos é modificada por fatores extrínsecos diferenciados, para definir e manter as distinções celulares, teciduais ou fenotípicas do organismo (Jonhson, 2005).O imprinting genômico é uma mudança epigenética em que a troca da seqüência dos nucleotídeos do DNA não é afetada, somente a natureza e a estrutura da associação das proteínas da cromatina e a modificação da metilação das histonas. Essa mudança epigenética afeta o empacotamento do DNA, o acesso a fatores de transcrição e também o potencial de transcrição. Alguns imprints genômicos, são descritos como sendo de origem parental (imprints parentais). Esses imprints são geralmente desativados durante a gametogênese e então reativados novamente, porém em vias que dependem da gônada em que a meiose ocorre (KEARNS et al., 2000). Assim, no ambiente testicular o imprinting ocorre em alguns genes e no ambiente ovariano em outros genes. O fato é que genes alelos paternos e maternos sofrem imprinting diferenciados, e essa diferenciação é válida para a expressão, o que significa que seus descendentes são monoalelos para genes parentais com imprinting (Jonhson, 2005). O imprinting paterno no espermatozóide é modificado durante a passagem pelo epidídimo onde a metilação do DNA é muito reduzida na preparação para a fertilização por uma via passiva de demetilação (EMERY & CARRELL, 2006). Existem também, os imprints causados pelo desenvolvimento, refletindo uma estável ativação dos alelos durante o desenvolvimento embrionário, dando às células e tecidos uma estabilidade no desenvolvimento dos fenótipos. O período entre a fertilização e a implantação é marcado por muitas mudanças na organização do genoma e no imprint parental. O que se deve levar em consideração é até onde o desenvolvimento in vitro desses embriões é afetado em relação a possíveis mudanças nos imprints devido à manipulação, e suas conseqüências (Jonhson, 2005).Um estudo analisado por Emery e Carrell (2006) mostrou que erros de imprinting experimentalmente induzidos ou ocorridos naturalmente estão relacionados com o desenvolvimento embrionário anormal e abortos. De fato, houve a identificação de um pequeno impacto nas taxas de fertilização, porém uma diminuição na morfologia embrionária e gravidez quando avaliados espermatozóides com alterações na posição da metilação no genoma. É importante mencionar que muitos passos do imprinting genômico durante a espermatogênese são descritos, e demonstram a correlação entre prioridade da metilação no espermatozóide, a fertilização e o desenvolvimento embrionário normal.
Apoptose
É caracterizada pela presença de DNA fragmentado nos espermatozóides humanos ejaculados. Este fenômeno é um mecanismo ativo de morte celular programada, diferente da necrose, e acontece pela transcrição de genes e pela ativação de enzimas que agem no processo de autodigestão controlada por proteases endógenas. É um importante processo no quais células indesejadas são excluídas de um organismo durante a remodelação e diferenciação dos tecidos.A apoptose controla a produção de gametas masculinos e limita o nível de proliferação das células germinativas para que não ultrapasse a capacidade suportada pelas células de Sertoli (Sharma et al. 2004). Nas técnicas de reprodução assistida, a fertilização, o desenvolvimento do embrião e as taxas de gravidez podem ser afetados pelo aumento da atividade apoptótica nos espermatozóides. Existe uma correlação negativa entre o desenvolvimento embrionário e a porcentagem de espermatozóides apoptóticos preparados para inseminação, o que indica que anomalias no DNA nuclear do espermatozóide possam ser responsáveis em parte pela baixa qualidade do embrião e/ou seu desenvolvimento (Seli et al, 2004).Ainda nesse contexto, a falta de efeito da atividade apoptótica na taxa de fertilização nos dias 2 ou 3, pelo fato de que, em humanos o genoma paterno é ativado depois do estágio de quatro células. Antes desse ponto o desenvolvimento embrionário é controlado pelo mRNA herdado da mãe (Tesarik et al, 1986; Braude et al, 1988). Partimos então do pressuposto que os efeitos paternos no blastocisto podem ser mais evidentes depois da ativação do genoma embrionário (Sakkas, 1999).Em indivíduos com sêmen normal, a apoptose é detectada em uma pequena porcentagem de espermatozóides ejaculados, entretanto espermatozóides de indivíduos com sêmen anormal caracterizam-se por possuir um alto nível de fragmentação de DNA, que é um indicativo de apoptose (Irvine et al, 2000).
Espécies Reativas de Oxigênio (ERO)
No trato reprodutor masculino existe um equilíbrio entre a produção de Espécies Reativas de Oxigênio (ERO) e de agentes anti-oxidantes. Quantidades limitadas de ERO são necessárias para a regulação das funções normais do espermatozóide, como a capacitação, reação acrossômica e fusão do espermatozóide no oócito. A produção de excessiva quantidade de ERO no sêmen pode superar a capacidade dos mecanismos de defesa anti-oxidante do espermatozóide e do plasma seminal, causando um estresse oxidativo (Agarwal & Saleh, 2002).ERO causam danos ao DNA nuclear como modificações e deleções das bases que constituem a molécula, rearranjos cromossômicos e está associado com altas freqüências de fragmentação do DNA.Espécies reativas de oxigênio ou radicais livres, como o radical hidroxila (OH-), ânion superóxido (O2-) e peróxido de hidrogênio (H2O2), são agentes altamente oxidantes e estão relacionados com a baixa viabilidade e alterações morfológicas nos espermatozóides (Lamirande et al, 1995; Padron et al, 1997).Os espermatozóides são células altamente vulneráveis aos danos causados por ERO devido a alta quantidade de ácidos graxos poli-insaturados presentes na membrana plasmática. Além disso, as baixas concentrações de enzimas antioxidantes em seu citoplasma reduzido contribuem para torná-los vulneráveis (Sharma & Agarwal, 1996).
Fragmentação de DNA
O uso de espermatozóides com fragmentação de DNA realça a questão de que o zigoto ou o embrião possuem a capacidade de compensar ou corrigir essas deficiências para que o espermatozóide com danos no DNA consiga a fertilização. A relação desses reparos com os danos no DNA indica que há um mecanismo de resposta para o pronúcleo masculino com DNA danificado na fertilização do oócito. Sabe-se que o DNA danificado do espermatozóide na fertilização é um fator em que o embrião em desenvolvimento e o oócito tentarão compensar, porém não se sabe como esses danos comprometerão o desenvolvimento embrionário (Emery & Carrell, 2006).Ainda não se têm informações em relação aos danos do DNA e as conseqüências na fertilização, porém sabese que esses danos podem afetar no desenvolvimento embrionário, implantação, gestação e descendentes (Sakkas et al., 2000; Seli & Sakkas, 2005).A relação próxima entre a fragmentação de DNA e a baixa qualidade do sêmem pode mostrar que está ocorrendo uma alteração do processo de maturação, de apoptose ou um desequilíbrio na produção de ERO, o que compromete a formação de espermatozóides saudáveis em sua estrutura e função. Essa relação é particularmente importante nas técnicas de reprodução assistida (TRA), onde um espermatozóide é pré-selecionado pelo embriologista na ICSI, sendo os parâmetros desta seleção imprecisos, e conseqüentemente, aumentando o risco da injeção de um espermatozóide com danos de DNA (Borini et al, 2006).Espermatozóides com anormalidades morfológicas e danos de DNA têm menor competência para fertilizar um oócito “in vivo” ou por fertilização “in vitro” (FIV) clássica. Essa idéia é partilhada por estudos indicando que a zona pelúcida é capaz de “identificar” alterações genéticas do espermatozóide (Menkveld et al., 1991; Van Dyk et al., 2000). A partir desta idéia, Borini et al fizeram um estudo comparativo entre dois grupos de casais, com um grupo submetido ao tratamento por ICSI e o outro por FIV clássica, sendo os maridos dos dois grupos portadores de fragmentação de DNA. O resultado deste estudo evidenciou a relação entre a fragmentação de DNA e abortos no grupo submetido ao tratamento por ICSI. Esse estudo mostrou também que os parâmetros utilizados de avaliação do sêmem segundo a Organização Mundial de Saúde não tem efeito estatístico na gravidez e abortos nos dois grupos estudados, demonstrando então a importância da avaliação do sêmem por meio de técnicas apropriadas para a detecção de fragmentação de DNA e por conseqüência a determinação da infertilidade masculina.Greco et al (2006) sugeriram que a infertilidade masculina, com uma alta incidência de danos de DNA na população de espermatozóides ejaculados, comparada com a porcentagem de espermatozóides nos testículos, é muito menor. Esta observação confirma a hipótese de que a maioria dos danos de DNA resulta das alterações decorrentes ao nível pós-testicular, entretanto, não se pode excluir a predisposição do espermatozóide para um tipo de dano nas fases iniciais de formação.Alguns estudos têm indicado que o resultado da ICSI não está relacionado com a morfologia estrita do espermatozóide usada na micro-injeção. As taxas de fertilização obtidas de amostras de sêmem com morfologia pobre (3% de células normais) não diferem daquelas obtidas com amostras de sêmem com melhor morfologia dos espermatozóides. Similarmente, nenhuma diferença em taxas clínicas de gravidez tem sido observada (Tesarik et al., 2006). Por esta razão, a fragmentação de DNA no espermatozóide deve ser avaliada na qualidade do sêmem. O processo de compactação da cromatina do espermatozóide acontece durante a espermiogênese e depende da atividade de uma nuclease endógena (topoisomerase II) que cria e une fragmentos na molécula de DNA possibilitando a protoaminação. A presença de DNA fragmentado no núcleo do espermatozóide pode indicar anormalidades durante a compactação e um processo incompleto de maturação (Sakkas et al, 1999; Agarwal & Said, 2003; Lewis & Aitken, 2005). Esta hipótese é suportada por observações da presença de espermatozóides com danos no DNA nuclear correlacionados com uma baixa compactação da cromatina devido a uma pobre protoaminação (Gorczyca et al, 1993; Manicardi et al, 1995; Sailer et al, 1995).A análise seminal é essencial na avaliação da infertilidade masculina, mas os parâmetros analisados convencionalmente como concentração, motilidade e morfologia não revelam defeitos mais sutis dos espermatozóides. Aproximadamente 15% dos pacientes com fator masculino de infertilidade apresentam análise seminal normal. Estudos recentes sugerem que o status do DNA do espermatozóide é um parâmetro independente da qualidade espermática que tem uma boa capacidade diagnóstica e prognóstica (Agarwal & Said, 2004; Agarwal & Allamanemi 2005; Lewis & Aitken, 2005).Diversas técnicas foram desenvolvidas para avaliar a integridade da cromatina espermática e estabelecer uma significante correlação com a infertilidade masculina. A capacidade de estas técnicas avaliarem os danos ao DNA do espermatozóide depende de muitos aspectos técnicos e biológicos. Alguns testes atualmente avaliam a fragmentação do DNA do espermatozóide, incluindo Terminal deoxinucleotidil transferase Uracil Nick End Labeling (TUNEL), teste da estrutura da cromatina espermática (SCSA), teste de laranja acridina (AOT), eletroforese em gel de células individuais (COMETA), detecção de quebras no DNA por Hibridação “in situ” de Fluorescência (DBD - FISH) e teste da dispersão da cromatina espermática (SCD) (Muriel et al, 2006).A técnica do TUNEL (Terminal deoxinucleotidil transferase Uracil Nick End Labeling) detecta quebras em DNA de dupla fita e simples fita quantificando a incorporação da desoxiuridina trifofsfato (dUTP) nas terminações livres 3’OH do DNA numa reação enzimática catalisada pela enzima desoxinucleotideo terminal transferase (TdT) criando um sinal o qual aumenta com o número de quebras do DNA. A incorporação deste nucleotídeo pode ser quantificada por citometria de fluxo e microscopia de luz ou fluorescência (Gorczyca et al, 1993).O teste da cromatina espermática, cuja sigla em inglês é SCSA (Sperm Chromatin Structure Assay) é uma técnica já bem estabelecida desenvolvida a mais de duas décadas (Evenson et al, 1994; Evenson et al, 1999; Evenson & Jost, 2000). Baseia-se no princípio que espermatozóides com anormalidades em sua cromatina têm uma maior suscetibilidade a denaturação sob indução física (ácida ou calor). Esta denaturação é determinada com o uso de um corante metacromático, a laranja de acridina que ao se intercalar em DNA dupla fita emite cor verde (DNA intacto) e em DNA simples fita emite cor vermelha (DNA fragmentado) (Evenson et al, 1994; 1999). A quantificação é feita de acordo com a proporção de fluorescência verde/vermelha medida por citometria de fluxo e analisada por um software que cria um gráfico mostrando a porcentagem de espermatozóides que apresentam o seu DNA danificando estabelecendo o índice de fragmentação do DNA dos espermatozóides (DFI) (Evenson et al, 1999; 2002).O teste de laranja acridina, AOT (acridine orange test), é uma técnica simples que se baseia no mesmo princípio do SCSA, ou seja, mede a suscetibilidade de denaturação “in situ” pela quantificação da fluorescência emitida usando o corante laranja acridina que ao se intercalar em DNA dupla fita emite coloração verde (DNA intacto) e em DNA simples fita emite coloração vermelha (DNA danificado). Sua avaliação é feita por microscopia de fluorescência (Hoshi et al, 1996).O ensaio COMETA ou eletroforese em gel de células individuais, introduzida por OSTLING & JOANHSON (1984), quantifica danos ao DNA em células individuais. Nesta técnica as células são lisadas para retirar todas as proteínas e submetidas a uma corrente elétrica em um microgel de agarose (eletroforese). Sob condições neutras temos a migração de fragmentos de DNA dupla fita que formam uma imagem semelhante a um cometa. Sing et al (1988), com o uso da eletroforese sob condições alcalinas aumentaram a sensibilidade da técnica que passou a detectar quebras em DNA dupla fita e simples fita também. Collins (2002) confirmou que a técnica do COMETA sob condições neutras tem maior sensibilidade para identificar quebras em DNA dupla fita e pouca para detectar quebras em DNA simples fita quando comparado com a técnica em condições alcalinas.A técnica da Detecção de quebras no DNA por Hibridação “in situ” por Fluorescência (DBD-FISH - DNA Breakage Detection - FISH) é sensível para detectar e quantificar quebras no DNA em células individuais em todo genoma ou em áreas específicas da molécula de DNA. As células em um microgel de agarose sobre uma lâmina são lisadas e os nucleóides (núcleos desproteinizados) resultantes são expostos a uma denaturação controlada, geralmente com agentes alcalinos. Como conseqüência temos a formação de ssDNA, do inglês, single strand DNA ou DNA de fita simples, a partir das terminações das quebras no DNA. (Fernández & Gonsálvez, 2002; Muriel et al, 2004).Estas áreas de ssDNA são susceptíveis a hibridação com sondas fluorescentes, e este é o principio do DBD-FISH, ou seja, a quantidade de ssDNA geradas pela alcalinização é proporcional ao grau da fragmentação do DNA e com a hibridação das sondas que emitirão os sinais de fluorescência (Fernández & Gonsálvez, 2002; Fernández et al, 2003).O teste da dispersão da cromatina espermática (do inglês Sperm Chromatin Dispersion - SCD) foi introduzido para avaliar a fragmentação do DNA do espermatozóide. Nesta técnica os espermatozóides em um microgel são tratados com uma solução ácida para denaturar o DNA e extrair as proteínas nucleares. Os espermatozóides que tiverem o DNA intacto formarão um halo que corresponde à fita de DNA sem as proteínas ligadas à estrutura residual nuclear. A presença de quebras no DNA promove a dispersão do halo dos nucleóides e é o principio deste teste, portanto os espermatozóides cujo DNA estiver fragmentado não formarão ou será um halo bem reduzido (Fernández et al, 2003; 2005).A preparação e escolha dos espermatozóides nem sempre reflete a qualidade das células injetadas dentro do oócito. Além disso, a morfologia individual dos espermatozóides não tem sido avaliada quando são injetadas células retiradas do epidídimo ou do testículo, ou quando um espermatozóide morfologicamente anormal é usado para a microinjeção (na maioria dos casos porque nenhuma outra célula espermática estava disponível) ( De Vos et al., 2003).
CONCLUSÃO
O espermatozóide pode causar anormalidades no desenvolvimento embrionário no estágio anterior ao primeiro ciclo celular após fertilização. Essa deficiência no espermatozóide não pode ser observada pelos parâmetros normais de avaliação da qualidade do sêmem, e também não afeta as taxas de fertilização após a técnica de ICSI. Mais trabalhos devem ser realizados para determinar o mecanismo dessa deficiência no desenvolvimento embrionário e as estratégias de diagnóstico e cura. Um dos mecanismos prioritários a serem estudados deve ser o imprinting genômico.
A fragmentação de DNA parece não afetar o desenvolvimento pré-implantacional do embrião, mas tem uma grande interferência nas taxas de implantação, no desenvolvimento pós-implantacional do embrião e abortos, sendo assim a fragmentação deve ser considerada na avaliação da qualidade do espermatozóide se observado aborto de repetição em casais em tratamento por ICSI. Na FIV clássica, a fragmentação parece afetar menos as taxas de gravidez e aborto, porém mais estudos devem ser realizados para uma melhor conclusão dessa hipótese.
Agradecimentos
À equipe da pós-graduação do Instituto Sapientiae de Ensino e Pesquisa
Referências Bibliográficas
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