JBRA Assist. Reprod. 2008;12(4):20-24
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2008.12.4.04

O Perfil Reprodutivo Masculino em Relação ao Uso de Drogas Ilícitas, ao Tabagismo, à Obesidade e à Idade Avançada

The Male Reproductive Profile in Relation to Ilicit Drugs Use, Smoking Habit, Obesity and Declining Age

L. S. Ayres1, C. Telöken2, J. F. D. Moraes3, M Badalotti4, A Petracco5, R Azambuja6

1Acadêmica do curso de biomedicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre-RS, Brasil
2Médico, Livre-docente pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre-RS, PhD pela Cleveland Clinic Ed. Foundation, CCEF, Estados Unidos
3Matemático e Estatístico, Doutor em gerontologia biomédica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, PUC/RS, Brasil
4Médica Ginecologista, Mestre em Medicina e Ciências da Saúde pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Doutora em Patologia pela Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre
5Médico Ginecologista, Doutor em Patologia pela Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre
6Embriologista, Mestre em Fisiologia da Reprodução pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, PhD em Fisiologia da Reprodução pela Texas A&M University, Tx, EUA

Received November 11, 2008
Accepted December 11, 2008

Endereço para correspondência:
Laura Silveira Ayres
Av. Cristiano Fischer, 99/402
Porto Alegre - RS
CEP 91410-001
laura.ayres@gmail.com

RESUMO
Este trabalho apresenta como objetivo estudar o tabagismo, o uso de drogas ilícitas, a obesidade e a idade avançada na população de homens com queixa de infertilidade em Porto Alegre e a influência desses fatores de risco nos parâmetros do espermograma. Esta é uma coorte retrospectiva onde os dados foram obtidos entre os anos de 2004 e 2007. Os parâmetros analisados foram: volume ejaculatório, vitalidade, concentração de espermatozóides, percentual de motilidade A e B e morfologia espermática. Os homens que já haviam tido filhos tiveram um menor percentual de motilidade in-loco do que os que não tinham filhos (p=0,01). Também foi observada uma diminuição no volume ejaculatório e na motilidade direcional com a idade (p<0,05). Houve uma menor média de volume e maior média de motilidade “in-loco” nos fumantes e nos usuários de cocaína, menor percentual de motilidade direcional nos fumantes e maior percentual de espermatozóides mortos em usuários de cocaína. Além disso, foi encontrada uma maior porcentagem de espermatozóides com anormalidades de peça intermediária nos usuários de maconha. Porém, os dados com relação ao fumo e ao uso de drogas não foram estatisticamente significativos. Observou-se que os homens que já tiveram filhos e os mais jovens (até 40 anos) podem ter mais chances de obter a prole devido a melhores parâmetros do espermograma. No entanto, ainda é necessário estudar as interferências do tabagismo e do uso de drogas nos parâmetros seminais.

Palavras-chaves: Infertilidade masculina, Tabagismo, Maconha, Cocaína, Obesidade, Idade Avançada.

ABSTRACT
This article has the objective of studing the smoking habit, the use of illicit drugs, obesity and declining age in the male population of Porto Alegre with infertility claim and the influence of these risk factors in the spermogram parameters. The study design is retrospective cohort, where data was obtained between the years of 2004 and 2007. The parameters analyzed were: ejaculatory volume, vitality, sperm concentration, percentile of motility A and B and sperm morphology. Men who had already had children had a lower percentile of ‘in-loco’ motility than those who didn’t have children (p=0.01). It was also observed a decreased ejaculatory volume and forward motility in older men (p<0.05). There was a lower volume and higher ‘in-loco’ motility in smokers and cocaine users, shorter percentile of forward motility in smokers and greater percentile of dead sperm in cocaine users. Furthermore, there was a greater percentage of intermediate piece abnormalities in marijuana users. However, the data concerning smoking and drug habit were not statistically significant. It was observed that men who had already had children and the younger ones (under 40 years old) may have greater chances of having children, due to better semen parameters. On the other hand, there is a necessity of studying more the interference of smoking and drug use in semen parameters.

Key-words: Male infertility, Cigarette smoking, Marijuana, Cocaine, Obesity, Paternal age.

INTRODUÇÃO
A infertilidade é vista muitas vezes como uma doença predominantemente feminina, porém a infertilidade de causa masculina é igualmente prevalente, sendo que metade dos casais inférteis têm o homem como fator responsável pela infertilidade do casal (Raymond, 1993). Neste estudo, foram avaliadas variáveis que contribuem com a infertilidade masculina em nosso meio. As variáveis estudadas foram: tabagismo, uso de drogas ilícitas, obesidade e idade avançada.
Vários investigadores estudaram os efeitos nocivos do cigarro na concentração espermática, motilidade e percentagem de espermatozóides morfologicamente normais (Sofikitis et al., 1995; Vogt et al., 1986; Zavos et al., 1998). Já o efeito do fumo na espermatogênese é controverso, apesar de seus efeitos adversos terem sido comprovados em animais (Zavos et al., 1998). Em um estudo prospectivo, os fumantes tiveram um número significativamente menor de espermatozóides com motilidade grau B do que os homens inférteis não fumantes (Taszarek et al., 2005). Em outra pesquisa, o cigarro foi negativamente relacionado com a contagem de espermatozóides com motilidade progressiva, mas não com a concentração espermática, número total de espermatozóides móveis e morfologia (Hassa et al., 2006).
Quanto ao uso de drogas ilícitas, no presente estudo foi avaliado o consumo de maconha e de cocaína. Os canabinóides são os principais constituintes da planta da maconha (Cannabis sativa) (Rossato et al., 2005). Recentemente, um estudo demonstrou, por meio de RT-PCR e Western blot, que os espermatozóides humanos expressam o receptor canabinóide CB1, localizado na cabeça e peça intermediária do espermatozóide. A ativação desse receptor reduz a motilidade espermática e inibe a reação acrossômica. Os efeitos da maconha na motilidade espermática foram dependentes da redução da atividade mitocondrial, determinada por fluorescência (Rossato et al., 2005). Além disso, testes em animais demonstraram que a maconha causou uma diminuição na produção de testosterona e redução na produção de espermatozóides, motilidade e viabilidade dos mesmos (Frazzetto, 2003).
A interação da cocaína com os espermatozóides ainda não está bem estabelecida. Em uma pesquisa que avaliou essa interação, foram encontrados aproximadamente 3,6 x 103 sítios de ligação à cocaína por célula (Yazigi et al., 1991). Segundo Hurd et al. (1992) o abuso da cocaína foi associado à diminuição da motilidade espermática. Um estudo da Universidade de Yale demonstrou que a duração do uso de cocaína por cinco anos ou mais estava diretamente relacionada à baixa motilidade dos espermatozóides e a baixas concentrações com grande proporção de formas anormais (Bracken et al., 1990). Uma pesquisa, que também avaliou os efeitos in vitro da exposição dos espermatozóides à cocaína, demonstrou que após uma curta exposição (15 minutos) ao hidrocloreto de cocaína, a motilidade e os parâmetros de velocidade linear e linearidade foram decrescidos nos grupos com concentrações mais altas. (Yelian et al., 1994).
No que tange à obesidade, Kort et al. (2006) demonstraram que há correlação entre o IMC e o decréscimo no número de espermatozóides móveis e com forma normal. Além disso, há uma diminuição na concentração espermática relacionada à obesidade e seu conseqüente aumento no estrógeno, influenciando o eixo hipotálamo-hipófise (Fejes et al., 2006).
Outro fator importante a ser levado em conta é que, segundo Kuhnert & Eberhard (2004), já foi demonstrada uma diminuição no volume seminal e na motilidade espermática relacionada com a idade. O fluido seminal é derivado das vesículas seminais e uma das suas secreções, a frutose, também declina com a idade (Kühnert & Eberhard, 2004). A frutose é essencial para o metabolismo dos espermatozóides e para a motilidade, servindo como fonte energética (Lewis-Jones et al., 1996).
Devido à raridade de estudos na nossa população, esta pesquisa tem a finalidade de estudar o tabagismo, o uso de drogas ilícitas, a obesidade e a idade avançada na população de indivíduos que buscam tratamento para infertilidade em Porto Alegre. O objetivo é verificar se há influência desses fatores na infertilidade masculina e traçar estratégias para a redução dos fatores de risco. Esperamos que seja possível, dessa forma, beneficiar os casais que buscam o tratamento da infertilidade.

MATERIAIS E MÉTODOS
O estudo foi uma coorte retrospectiva. Os dados foram obtidos por anamnese.
A população estudada constitui pacientes do sexo masculino com dificuldades na obtenção de gravidez. No período de 2004 a 2007, foram selecionados 249 pacientes pelos critérios de inclusão, que eram: ter espermograma no Centro de Medicina Reprodutiva Fertilitat e ter parceiras com idade inferior a 38 anos.
As seguintes variáveis foram estudadas: tabagismo (fumantes ou não-fumantes) e quantidade de cigarros por dia (<10, >10 ou 0); o uso de maconha e cocaína (usuários ou não-usuários); o IMC (Índice de Massa Corpórea = peso/ (altura)2) considerando peso normal: 18,5 a 24,9; sobrepeso: 25 a 29,9 e obeso: a partir de 30; a idade e a paternidade prévia.
Avaliação dos parâmetros reprodutivos: O perfil dos homens foi analisado no que tange a volume ejaculatório, vitalidade, concentração de espermatozóides, percentual de motilidade direcional e não direcional e morfologia segundo os padrões de Kruger (Kruger et al., 1986). Para a avaliação dos parâmetros seminais, foi coletada uma amostra de sêmen por masturbação após três a cinco dias de abstinência sexual.
O volume foi determinado transferindo-se a amostra, após completa liquefação, para um tubo plástico graduado, de 15 mL. A leitura foi feita com aproximação de 0,1 mL e foram considerados normais os volumes entre 2 e 6 mL, após 3-5 dias de abstinência.
A vitalidade foi avaliada pela coloração com eosina (Björndahl et al., 2003). Para isso, pipeta-se uma gota de 10 μL de sêmen e mistura-se com 10 μL de eosina em uma lâmina limpa, cobre-se a lâmina com uma lamínula e observa-se ao microscópio comum, com aumento de 1000x em óleo de imersão. Consideram-se vivos os espermatozóides não-corados pela eosina. Conta-se 100 espermatozóides, corados ou não, e obtém-se o percentual de espermatozóides vivos.
A concentração espermática foi medida em câmara de Makler diretamente nas amostras de sêmen não-diluído. Nos casos de baixa concentração, foram contadas várias gotas da amostra.
A concentração espermática foi calculada da seguinte maneira:

Onde:
10 = fator de compensação para 0,1 mm de profundidade da câmara.
1.000 = fator de conversão de mm3 para cm3.
Foram considerados normais os valores maiores ou iguais a 20 x 106 espermatozóides/mL.
A motilidade foi determinada pela observação e contagem na câmara de Makler e foi expressa como percentual de espermatozóides móveis.
A classificação foi de acordo com os critérios da OMS (WHO, 1999), com graus de a até d:
Grau a - motilidade rápida, linear e progressiva;
Grau b - motilidade linear lenta ou movimentos não lineares;
Grau c - motilidade não-progressiva (IN LOCO);
Grau d - todos imóveis.
Foram consideradas normais as amostras com valor ≥ 50% com progressão [categorias (a) e (b)] ou ≥ 25% com progressão rápida linear [categoria (a)].
A avaliação morfológica foi feita da seguinte maneira: as lâminas foram limpas com detergentes e água, enxaguadas em álcool e secas. As lamínulas também foram lavadas com álcool. Foi utilizada uma gota pequena de sêmen (5-7 μL), para fazer um esfregaço muito fino. As lâminas foram secas em temperatura ambiente por 24 horas. Em seguida, foram coradas pelo método de Romanowski (Jonecko, 1996).
Considera-se normais os espermatozóides que têm forma oval com contorno liso, acrossomo compreendendo 40 a 70% da parte distal da cabeça, ausência de anormalidade de pescoço, peça intermediária ou cauda e nenhuma gotícula citoplasmática maior do que metade da cabeça. Os espermatozóides foram colocados em um de quatro grupos: normal, com defeito de cabeça, de peça intermediária, ou de cauda. Foram consideradas normais as amostras que tiveram um percentual ≥ 30% de espermatozóides com morfologia normal.
Análise estatística: A análise estatística foi feita utilizando o teste Anova de uma via e, quando necessário, foi feito o teste T de Student. Os dados foram analisados no programa SPSS.

RESULTADOS
Entre os 249 pacientes, a idade mínima foi 21 e a máxima, 61 anos. A média foi 37 anos, com desvio-padrão de 6,3. Quanto ao tabagismo, houve uma freqüência de 47 fumantes e 200 não-fumantes. Dois pacientes não informaram se fumavam. O percentual de tabagistas foi 18,9%. Dentre esses, os percentuais de pacientes que fumavam menos e mais do que 10 cigarros ao dia foram 4,4% e 12,9%, respectivamente. Seis deles não informaram o número de cigarros por dia, correspondendo a 2,4%.
No que diz respeito ao uso de drogas, apenas 6% dos homens incluídos na pesquisa afirmaram ser ou terem sido usuários de cocaína. Já a maconha teve uma freqüência de 9,2%.
O IMC foi calculado para 230 pacientes que informaram o peso e a altura. Destes, 75 estavam com o peso normal, 112 tinham sobrepeso e 43 eram obesos. Ou seja, um percentual de obesidade de 17,3%.
Quando foram questionados a respeito da paternidade prévia, 16,9% dos pacientes afirmaram já ter filhos, tanto do presente matrimônio, quanto de matrimônios anteriores.
Entre os fumantes, a média de volume ejaculatório foi de 2,5 mL. Os nãofumantes tiveram média de volume de 2,9 mL. A média de motilidade direcional dos fumantes foi de 7%, contra 8,6% dos não-fumantes, embora não tenha sido uma diferença significativa. Os fumantes também tiveram uma maior motilidade não direcional (“in-loco”) do que os não fumantes (15,2% e 12,8%, respectivamente) que, do mesmo modo, não foi significativa (tabela 1).

 

Table 1
Tabela 1. Médias e desvios-padrão do volume ejaculatório e do percentual de espermatozóides com motilidade “in-loco” em relação ao tabagismo e ao uso de cocaína.

 

Quando comparamos os pacientes que fumavam mais do que 10 cigarros por dia com os que fumavam menos de 10 cigarros/dia e com os que não fumavam, também não houve diferença estatística para nenhum dos parâmetros. Os usuários de cocaína, assim como os fumantes, tiveram uma menor média de volume ejaculatório (2,3 mL contra 2,9 mL dos não-usuários). Também observou-se um maior percentual de espermatozóides mortos, que foi de 29%, enquanto os não-usuários tiveram 27,4% para o mesmo parâmetro. Assim como maior motilidade “in-loco” (16,5% e 13%, respectivamente). Porém, nenhum dos parâmetros foi diferente estatisticamente (tabela 1). Nos usuários de maconha foi observada uma maior percentagem de espermatozóides com morfologia anormal do que nos não-usuários (77% e 74,3%, respectivamente). Entre os espermatozóides com formas anormais, os com defeito de peça intermediária foram os responsáveis por esse aumento (15,4% nos usuários e 12,8% nos não-usuários). Contudo, não houve diferença significativa para nenhum desses parâmetros.
Na comparação entre parâmetros do espermograma de pacientes obesos, normais e com sobrepeso também não houve diferença significativa para nenhuma das variáveis. Entretanto, nos homens que tinham paternidade prévia foi detectado um menor percentual de motilidade “in-loco” do que nos que nunca haviam sido pais (média de 9,27% contra 14,05%). Essa diferença foi estatisticamente significativa (p=0,01) (tabela 2).

 

Table 2
Tabela 2. Percentual médio de motilidade “in-loco” de acordo com a paternidade prévia.

 

Além disso, houve uma diminuição no volume ejaculatório e na motilidade direcional de acordo com a idade (p<0,05). Quando foi realizada uma separação em grupos de faixa etária de até 30 anos, acima de 30 e até 40 e acima de 40 anos, essas diminuições seguiram sendo evidentes. As médias de volume para os grupos foram: 2,8 mL para até 30 anos, 3 mL para acima de 30 e até 40 e 2,3 mL para acima de 40 anos (p=0,017). Quanto à motilidade direcional, as médias foram: 8,3%, 9,2% e 5,4%, respectivamente (p=0,02) (gráfico 1).

 

Figure 1
Gráfico 1. Médias de volume e motilidade direcional de acordo com a faixa etária.

 

DISCUSSÃO
Segundo Taszarek et al. (2005) e Hassa et al. (2006) há uma diminuição na motilidade progressiva relacionada ao tabagismo. Nesse trabalho, também observamos um menor volume e percentual de motilidade direcional e um aumento na motilidade “in-loco” dos fumantes. Porém, não houve diferença estatística entre os grupos para esses parâmetros. Esse resultado pode ser devido ao pequeno número de fumantes na amostra (somente 47), enquanto o número de não-fumantes foi bem maior (200). No estudo de Hassa et al. (2006), o tabagismo foi negativamente correlacionado com a contagem de espermatozóides com motilidade direcional. Porém, a diferença entre o número de fumantes e de não-fumantes era bem menor. Na amostra havia 126 fumantes e 97 não fumantes (Hassa et al., 2006). Isso nos leva a crer que, com um maior número de fumantes na amostra, essa diferença poderia ser significativa.
No que tange ao uso de cocaína, foi observado, assim como nos fumantes, um menor volume de ejaculado e maior motilidade “in-loco”. Além disso, também observou-se um número maior de espermatozóides mortos. Contudo, a diferença nesses parâmetros não foi significativa. Hurd et al. (1992), Bracken et al. (1990) e Yelian et al. (1994) obtiveram uma diminuição nos parâmetros da moti>lidade nos usuários de cocaína. Porém, Yelian et al. (1994) e Hurd et al. (1992) realizaram testes in vitro e não in vivo. É, portanto, necessário realizar mais pesquisas acerca da interação in vivo da cocaína com os espermatozóides, já que eles possuem um grande número de receptores para a cocaína e, uma vez dentro da célula, ela é passível de causar danos aos mesmos (Yazigi et al., 1991).
Quanto ao uso de maconha, uma pesquisa observou uma diminuição na atividade mitocondrial dos espermatozóides induzida pela anandamida, canabinóide de produção endógena, comprovando a presença de receptores ativos para essa substância nos espermatozóides (Rossato et al., 2005). No presente estudo foi observada, embora não seja significativa, uma maior percentagem de espermatozóides com morfologia anormal. O defeito responsável por esse aumento foi o de peça intermediária, que é justamente onde se localizam as mitocôndrias no espermatozóide. Porém, é necessária a realização de estudos mais específicos para avaliar se há realmente uma interferência da maconha na atividade das mitocôndrias dos espermatozóides.
A diferença estatisticamente significativa encontrada na menor motilidade “in-loco” dos homens que já haviam sido pais (p=0,01) indica que, aqueles que têm menos espermatozóides com motilidade não-direcional, podem ter mais chances de obter gravidez.
Quanto à idade avançada, foi demonstrada uma diminuição no volume espermático e na motilidade dos espermatozóides com a idade (Kühnert et al., 2004). Essa diminuição também foi observada nesse estudo e foi estatisticamente significativa para homens acima de 40 anos, tendo menor volume e motilidade direcional (p<0,05). Isso confirma a possibilidade de menor funcionamento das vesículas seminais apontada por Kühnert et al. (2004) e uma menor motilidade direcional com a idade. É possível que a diminuição da frutose no fluido seminal tenha alguma interferência na fertilidade masculina, já que ela interfere na motilidade, proporcionando suprimento energético ao espermatozóide e é produzida pelas vesículas seminais (Lewis-Jones et al., 1996). No entanto, devem ser realizados estudos para avaliar essa relação.

CONCLUSÃO
Através do estudo do tabagismo, do uso de drogas ilícitas, da obesidade e da idade avançada em homens que buscam tratamento para infertilidade em Porto Alegre, vimos que os homens que já tiveram filhos apresentaram um menor percentual de espermatozóides com motilidade “in loco”, podendo ser essa a causa da maior facilidade em obter gravidez. Também foi demonstrada uma relação entre idade avançada e menor volume ejaculatório, bem como menor motilidade direcional.
Concluímos que é necessário realizar novas pesquisas a respeito da interação do tabagismo com os parâmetros seminais. Também seria interessante avaliar a relação entre o uso de cocaína e uma menor motilidade espermática in vivo e se há uma interferência da maconha na atividade das mitocôndrias dos espermatozóides.

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