JBRA Assist. Reprod. 2009;13(4):8-8
EDITORIAL

doi: 10.5935/1518-0557.2010.13.4.01

O desejo de ter filhos: um questionamento em aberto

Tonia Costa, Egleubia Andrade de Oliveira, Maria do Carmo Borges de Souza

*Instituto de Ginecologia da UFRJ Divisão de Reprodução Humana

A infertilidade, hoje, é reconhecida pela OMS como doença, um problema de saúde pública. Embora não comprometa a integridade física, nem ameace a vida dos indivíduos, pode produzir impacto negativo, gerando frustração e debilitando a personalidade,

O desejo configura-se, então, como marco na busca por resolução de um problema - a ausência de filhos, ou infertilidade. Em acréscimo, as tecnologias reprodutivas, ao acenarem com possibilidades de resolução, instituíram a possibilidade de organizar, controlar o desejo. Assim, a reprodução passa a ser regulada pela decisão consciente de um filho programado. Ao se afastar da esfera privada da intimidade do casal e se apoiar no instrumental tecnocientífico, a fecundidade e infecundidade assumem uma face técnica, que muitas vezes substitui (e até exclui) o sujeito subjetivo. Neste contexto, aponta-se um descompasso entre o desejo - consciente e inconsciente - de ter filhos.

Eis o desafio e a importância do trabalho multiprofissional integrado em saúde reprodutiva: se o paciente fala o seu desejo consciente, cabe à equipe permitir aflorar o desejo inconsciente, pois a infertilidade pode estar relacionada à sua impossibilidade de expressão. Além disso, há que se considerar que a temática da reprodução humana traz em si imbricados aspectos de diferentes domínios: biológicos, sociais e culturais. Cabe-nos questionar o quanto este desejo expressa representações, crenças, tabus e mitos construídos socialmente. Por que ter filhos é tão importante? O que leva uma pessoa a buscar tratamento por tantos anos ou a tentar ter um filho por 10, 20 anos? Se a função social da mulher extrapola o âmbito privado da casa, por que a maternidade parece ser ainda tão importante? A maternidade permanece como condicionante da identidade feminina, sua atribuição biológica “natural”? O desejo é então uma imposição social?

Tonia Costa
Egleubia Andrade de Oliveira
Maria do Carmo Borges de Souza

*Instituto de Ginecologia da UFRJ
Divisão de Reprodução Humana