JBRA Assist. Reprod. 2009;13(4):31-34
ARTIGO DE REVISÃO

doi: 10.5935/1518-0557.2010.13.4.07

Recepção de óvulos doados: a alternativa para a maternidade tardia.

Donated ovule reception: the dream of maternity late is held.

Claudia Egypto Machado1, Christina Sutter2, André Luiz Eigenheer da Costa3

1Psicóloga, Professora na Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e Psicóloga chefe do serviço de apoio ao casal infértil da Fertvida - unidade Fortaleza
2Psicóloga, Professora Orientadora do Curso de Especialização em Família da UNIFOR
3Médico da Fertvida - Centro de Reprodução e Genética Humana, nas unidades Fortaleza, Teresina e São Luis

Received June 04, 2009
Accepted September 04, 2009

Endereço para correspondência:
A/C Claúdia Egypto Machado
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Fortaleza - Ceará
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RESUMO
Este trabalho tem como objeto de estudo a infertilidade conjugal, realidade enfrentada por muitas mulheres que escolheram adiar a maternidade em prol da estabilização profissional. Diante da limitação imposta pelo corpo, a tecnologia tem oferecido uma alternativa por meio da recepção de óvulos doados. Procura-se refletir sobre essa prática, pela análise da sua repercussão tanto para o casal quanto para a própria concepção de família da sociedade contemporânea.

Palavras-chave: Infertilidade Conjugal, Gravidez Tardia, Recepção de Óvulos.

ABSTRACT
This work has as objective of study the conjugal infertility, the reality faced by many women who have chosen to postpone maternity in favor of professional stability. In front of the limits imposed by the body, technology offers an alternative through the reception of ovules. W e reflect about this practice by analyzing its repercussion both for the couple and for the conception of the family itself in the contemporary society.

Key-words: Conjugal infertility, Late pregnancy, Ovule reception.

INTRODUÇÃO
A força de trabalho feminino tem aumentado de forma bastante significativa nas últimas décadas em todo o mundo. Especificamente no Brasil, o comportamento desse contingente profissional tem chamado a atenção pela intensidade e constância de seu crescimento. De acordo com pesquisa realizada por Bruschini (2000), as mulheres desempenharam um papel muito mais relevante que os homens no crescimento da população economicamente ativa nos anos de 1985 a 1995, com um acréscimo de cerca de 12 milhões e uma ampliação da ordem de 63%. Segundo a autora, no ano de 1995, 40,4% da força de trabalho brasileira era feminina.
Essa ampliação do contingente de trabalho feminino pode ser considerada uma das mais importantes transformações ocorridas no Brasil nas últimas décadas. Entretanto, Bruschini (2000) aponta a existência de uma série de mudanças sociais que foram fundamentais para que a mulher passasse a ocupar um lugar mais ativo no mercado de trabalho. Entre esses fatores, pode-se citar: expansão da escolaridade (com o conseqüente aumento das credenciais necessárias para enfrentar o mercado de trabalho); mudanças culturais (valorização do exercício de uma atividade profissional pelas mulheres); necessidades geradas pela diversificação das pautas de consumo; necessidade de arcar com custos mais elevados com educação e saúde de filhos e familiares (em decorrência da precariedade dos sistemas públicos) e mudanças demográficas, especificamente, a diminuição do número de filhos, fato que liberou a mulher para o mercado de trabalho.
Apesar dessa realidade, constata-se que as novas responsabilidades das mulheres trabalhadoras não as eximiram das antigas obrigações familiares e maternas. Qualquer que seja a situação laboral da mulher, ela segue sendo a responsável pelas múltiplas tarefas associadas à casa, aos filhos e à família em geral. Como aponta Bruschini (2000), essa sobreposição de afazeres domésticos e atividade econômica têm trazido enorme sobrecarga para a mulher de hoje.
Essa sobrecarga tem se agravado ainda mais em virtude da intensa expectativa social em torno do papel de mãe. Forna (1999) aponta a existência de um verdadeiro mito da maternidade, que é o mito da “Mãe Perfeita”. Essa mãe deve ser inteiramente devotada aos filhos e ao seu papel de mãe. “Deve ser a mãe que compreende os filhos, que dá amor total e, o que é mais importante, que se entrega totalmente”. Essa mãe coloca sempre os filhos e a família em primeiro lugar e está plenamente satisfeita com sua vida doméstica, pois é para ser esposa e mãe que a mulher existe.
Essa expectativa social tem trazido enorme sofrimento para a mulher moderna, que se vê diante de seu maior desafio: conciliar profissão e maternidade. Trata-se de um conflito inerente à condição de mulher emancipada, vivido atualmente por milhões de mulheres em todo o mundo. Ao mesmo tempo em que a mulher tenta se engajar no mundo político, profissional e social, que era propriedade dos homens, se vê diante do desejo ou até da obrigatoriedade de ter filhos.
De acordo com Trindade (2002), historicamente, a maternidade foi construída como o ideal da mulher, o único caminho para alcançar a plenitude, cabal realização da feminilidade, no entanto, observa-se que a mulher moderna encontra-se diante de dois projetos extremamente desafiadores e que exigem um grau de comprometimento e investimento assustadoramente elevados. Como conciliar projetos tão importantes? Algumas mulheres optam por escolher um deles e esquecer o outro, mas muitas têm procurado saídas para conciliar vida profissional e familiar. Uma das alternativas encontradas é a diminuição do número de filhos. Assiste-se hoje a uma queda crescente na taxa de fecundidade, principalmente nas regiões mais desenvolvidas do país.
Outra saída possível consiste em adiar a maternidade para um momento em que a carreira profissional já esteja consolidada. Trata-se da tentativa de lidar com uma coisa de cada vez, maximizando o tempo e o investimento em cada um dos projetos de vida. Essa alternativa tem sido escolhida por um número considerável de casais, cerca de 20% das mulheres esperam para constituir suas famílias após os 35 anos. Entretanto, poucos conhecem as repercussões que essa escolha pode acarretar. Observase atualmente que um crescente número de casais está enfrentando o risco de ter que lidar com a infertilidade conjugal, em virtude da demora na decisão de ter filhos. Procuraremos nos deter, neste estudo, na realidade enfrentada por essas mulheres que escolheram adiar a maternidade em prol da vida profissional. Como será que elas e seus parceiros lidam com a dificuldade de ter filhos? O que significa infertilidade conjugal? Que alternativas podem ser empregadas na tentativa de conseguir engravidar? Como as modernas técnicas da medicina podem contribuir para se obter a desejada gravidez?
Em decorrência do crescente número de casais que vivenciam essa realidade em todo o mundo, torna-se fundamental conhecer e discutir o tema, procurando contribuir para a diminuição das incertezas oriundas de um campo do conhecimento que ainda permanece obscuro e inacessível para a maior parte da população.

GRAVIDEZ TARDIA E INFERTILIDADE
De acordo com Franco Junior (1997), a infertilidade consiste na incapacidade de chegar à gravidez após um ano de relações sexuais sem o uso de métodos contraceptivos.
Estima-se que, entre as causas de infertilidade, 90% dos casos têm causas físicas: 35% estão associadas a fatores masculinos, 35% a fatores femininos, 20% são decorrentes da interação entre eles e 10% não podem ser explicados (Scharf & Weinshel, 2002). Entre os fatores femininos, a gravidez tardia é a razão mais freqüente de infertilidade, em virtude de uma série de fatores: aumento das chances de contrair enfermidades que agridam o potencial reprodutivo (endometriose, miomatose uterina, doença inflamatória pélvica); quantidade e qualidade dos gametas disponíveis; diminuição do índice de implantação e aumento da chance de abortamento espontâneo. Nesse sentido, a idade da mulher está diretamente relacionada com o sucesso em alcançar a gravidez por ciclo, segundo Frederickson (1992), a faixa etária da máxima fertilidade em mulheres é aproximadamente dos 20 aos 24 anos. Nesta idade apenas 15% das mulheres permanecem inférteis após um ano. Em contraste, este índice aumenta para 77% nas mulheres de 30 à 35 anos, para 48% nas de 35 à 39 anos e acima de 95% para as mulheres acima dos 45 anos. Isso se deve ao fato de que, diferentemente dos homens, que produzem espermatozóides novos a cada 90 dias, as mulheres já nascem com todos os seus óvulos. Diante disso, com a idade, os óvulos remanescentes nos ovários também envelhecem, tornando-se menos capazes de ser fertilizados pelos espermatozóides e mais propensos a apresentar alterações genéticas.
Já no homem, os efeitos da idade não são tão evidentes e prejudiciais quanto na mulher, podendo desencadear as seguintes alterações: testículos maiores e mais flácidos; declínio da morfologia e motilidade espermática; diminuição dos níveis de testosterona, com a conseqüente diminuição da libido e dificuldade em atingir e manter as ereções.
Infelizmente, na grande maioria das vezes, essa relação direta entre fertilidade e idade cronológica só é apresentada às mulheres quando estas se vêem vivenciando a dificuldade de engravidar na prática, uma vez que passam grande parte de suas vidas acreditando no que Scharf & Weinshel (2002) denominaram de “o mito da eterna fertilidade feminina”. Trata-se do mito de que as mulheres podem ter seus filhos biológicos na idade que quiserem. A dura e triste realidade é que poucas estão familiarizadas com o fato de que a fertilidade diminui à medida que a idade aumenta.
Caetano (2000) esclarece que como a idade da mulher exerce uma influência fundamental na taxa de fertilidade espontânea, é esperado que haja também uma influência nos resultados de todas as formas de tratamento da infertilidade com a utilização dos óvulos dessa mulher.
Relembrando a escolha realizada de priorizar a carreira profissional durante os primeiros anos de idade adulta, as mulheres se deparam com a constatação de que o momento crítico para obtenção do sucesso profissional coincide com a idade em que a fertilidade está no auge. Essa descoberta é vivenciada com profundos sentimentos de abalo, desnorteio e fúria, como mostra o desabafo citado por Scharf & Weinshel (2002).
“É duro ter 40 anos sendo mulher. A gente se sente menos feminina e não tão sensual; descobrir então que é mais difícil engravidar é de fato um golpe. Estou tão furiosa com meu médico, eu gosto dele - ele é meu amigo. Estou furiosa também com o movimento feminista; estou furiosa com a sociedade. Estou furiosa com todas aquelas pessoas que me fizeram acreditar que podia engravidar na idade que quisesse. Por que meu médico não me avisou que, se quisesse ter um bebê, deveria começar a fazer algo a respeito imediatamente? Eu pensava que tinha tempo demais e agora não tenho mais. Meu tempo já passou; estou velha demais (p. 120-121)”.
Os autores citados afirmam que a infertilidade é vivida como uma crise traumática que pode ter efeito desmoralizante para o casal infértil, chegando a abalar a visão que o casal tem de si mesmo. Isso porque o casal que recebe diagnóstico de infertilidade passa a vivenciar uma série de perdas: perda da experiência e da alegria de ser capaz de facilmente conceber; perda da privacidade da concepção (que passa a precisar de uma intervenção médica para acontecer); possibilidade de perda da experiência de compartilhar um filho biológico; perda da esperança de dar continuidade à linhagem familiar, dentre outras.
O sentimento de desespero e desamparo se agrava também pela enorme diferença com que homens e mulheres vivenciam os acontecimentos. Enquanto as mulheres sentem necessidade de falar sobre o assunto e sofrem com o diagnóstico, independentemente de ser ela ou o marido o responsável pela dificuldade de engravidar, os homens evitam falar sobre o assunto e procuram ir direto à ação. O sofrimento só acontece de forma muito intensa quando ele é o responsável pela infertilidade, podendo levar até ao questionamento de sua própria identidade. Scharf & Weinshel (2002) destacam que as mulheres parecem sofrer mais com o problema da infertilidade. Em pesquisa realizada, constatou-se que 50% de mulheres, contra 15% de homens, dizem ter sido a experiência da infertilidade a que mais abalou sua vida. Outras pesquisas demonstram que mulheres inférteis apresentam os mesmos níveis de depressão que aquelas que têm câncer, doenças cardíacas e HIV.
Atualmente, uma série de inovações tecnológicas na área da embriologia tem contribuído para apresentar alternativas para os casais inférteis, mudando radicalmente a concepção de idade máxima em que as mulheres podem ter filhos, no entanto, o emprego dessas técnicas pode levar a multiparidade e a um aumento do risco da depressão materna (Ellison. MA. et al, 2005), daí nos vemos diante de outra polêmica, agora médica, no sentido de quantos embriões transferir, mas essa discussão não cabe aqui, neste trabalho.

RECEPÇÃO DE ÓVULOS
Diante da baixa expectativa de gravidez em mulheres de idade mais “avançada”, assistiu-se ao advento da recepção de óvulos doados, prática que mudou radicalmente a idade máxima em que as mulheres podem ter filhos. Segundo Scharf & Weinshel (2002), a receptora de óvulos mais idosa até o momento foi uma mulher de 63 anos, em 1997.
Essa capacidade técnica de uso dos óvulos de outras mulheres está à disposição desde meados da década de 80, mas o número de bebês nascidos a partir de ovodoação cresceu de 112 bebês, em 1989, para 1.240, em 1994 (CDC et al apud Scharf & Weinshel, 2002).
Nesses casos, as doadoras são mulheres jovens que apresentam óvulos sadios, o que contribui para um aumento da taxa de sucesso nas tentativas de fertilização. Diante desse fato, um número significativo de mulheres acima dos 35 anos que procuram tratamento para engravidar tem se valido do uso da ovorecepção, em alguns casos, com idades abaixo disso, como na menopausa precoce e naquelas jovens (menos de 35 anos), mas que têm a qualidade e número de óvulos reduzidos, como por exemplo, as portadoras de endometriose em estágio avançado.
Normalmente as doadoras também são mulheres que estão se submetendo às técnicas de reprodução assistida, em que o fator principal é o masculino, e que, por serem jovens, produzem um número elevado de óvulos a partir da estimulação ovariana. Dessa forma, os óvulos excedentes e de qualidade, que não seriam fertilizados são doados para outras mulheres, com o consentimento assinado do casal doador.
A fertilização dos óvulos doados é feita com os espermatozóides do marido da receptora, o útero é preparado para receber os embriões, essa preparação é feita com o uso do estrogênio e da progesterona.
Apesar da aparente facilidade com que a ciência tem resolvido as limitações biológicas do ser humano, não podemos deixar de refletir sobre o impacto emocional da prática de doação de óvulos. Como afirma Scharf & Weinshel (2002), “o conceito de ‘óvulo de doadora’ é capaz de espantar a imaginação”. Até alguns anos atrás, nossa capacidade de pensar nos adventos da tecnologia médica não considerava a possibilidade de criação de vidas dentro de laboratórios. Esse era um campo de domínio exclusivo da religião.
Pensar, então que além de terem sido gerados em laboratório, esses bebês poderiam ter “mães” diferentes (uma que gera e outra que gesta) era completamente inimaginável.
Diante dessa realidade, observa-se que a reação dos casais não acompanhou o ritmo de avanço da tecnologia médica. Inicialmente, a grande maioria, pelo menos num primeiro momento, rejeita completamente essa possibilidade.
Entretanto, depois de repetidas tentativas de fertilização sem sucesso e da repetição de discursos da quase impossibilidade de gravidez com os óvulos considerados “velhos”, os casais começam a considerar essa possibilidade como interessante. Entre não ter filhos e poder passar, pelo menos, pela experiência de gestar uma criança em seu ventre, a grande maioria das mulheres escolhe a segunda opção. Isso sem falar que os maridos poderão ter filhos geneticamente seus.
Essa escolha é influenciada também pela comunidade médica, que acaba alegando que, “uma vez atingida a gravidez, não há diferença entre gametas de doação e os não-doados, no que diz respeito ao processo de gravidez e paternidade” (Scharf & Weinshel, 2002).
Infelizmente, essa sensação de não ter alternativa leva muitos casais a fazer essa escolha sem parar para refletir sobre o real impacto dessa decisão para a mulher, para o marido, para a futura criança, além da família e da sociedade como um todo.
Diante desse contexto, vivemos hoje um período de mudança nos paradigmas que regem a nossa sociedade, inclusive nas questões mais profundas abordadas pelo homem, como as que se relacionam com os conceitos de vida e de morte. Escolhemos muitas vezes não debater tais questões, talvez porque nossas ciências humanas não estejam acompanhando o ritmo de evolução da tecnologia, ou talvez porque ainda não estejamos preparados para lidar com tantas mudanças de perspectiva.
O fato de nossa sociedade não estar preparada para discutir essas questões não significa que elas não estejam a cada dia se tornando mais e mais presentes em nosso cotidiano. A reprodução assistida tem transformado a realidade de uma estrutura secular que já foi alvo de muita controvérsia: a família. Convém questionar se não estaríamos vivendo um momento de mudança no padrão de estrutura familiar, como aquele vivido quando da passagem do modelo de família extensa (patriarcal) para o modelo de família nuclear. De fato, vivemos hoje um período em que a família dita nuclear, composta por pai, mãe e filhos (todos naturais), tem sofrido intensas transformações, resultando em novas e múltiplas configurações de família.

NOVAS FORMAS DE FAMÍLIAS
Como afirma Bucher (1999), a literatura acerca do casal e da família tem apontado para a crescente desintegração das estruturas familiares tradicionais. As estatísticas apontam para um crescente número de mães solteiras, de divórcios, de famílias chefiadas por mulheres, para a diminuição do número de filhos na família, para a criação de filhos pelo pai, dentre outras novas configurações.
A própria idéia defendida pelas instituições religiosas de casamento para sempre foi substituída pela idéia de casamento enquanto houver felicidade e até pela idéia de união de corpos sem a necessidade de formalização dessa união. Nossa sociedade foi ainda mais além. Assistimos hoje a um crescente número de famílias advindas da união de casais homossexuais.
Diante desse contexto de intensas transformações sociais, é que a função de procriação também apresenta modificações. Além da ampliação da possibilidade de procriação para casais heterossexuais, como apresentado no início do texto, as técnicas de reprodução assistida têm possibilitado ainda o advento das chamadas produções independentes, e a criação de filhos por casais homossexuais.
O advento da doação e recepção de óvulos nos coloca diante de questões éticas sérias e que merecem uma discussão teórica e prática consistente. As normas do Conselho Federal de Medicina (CFM), não permitem a doação de gametas por familiares da mulher receptora. A doação é anônima e responsabilidade da clínica de infertilidade que acompanha o processo.
Por ser uma técnica nova, ainda não nos deparamos realmente com as implicações que essa técnica pode provocar em termos de estrutura familiar. O fato de a mãe ter gestado o filho em seu útero faz com que ela, muitas vezes, defenda a não-necessidade de contar a verdade para a criança, uma vez que esse fato ”diminui” as chances de que essa criança possa vir a descobrir o segredo no futuro. Esse fato levanta uma discussão sobre o próprio processo de adoção dos gametas de uma mulher. Por que adotar um óvulo de outra mulher? Qual é realmente a necessidade de uma mulher? Ter um filho? Sentir o crescimento de uma criança em seu ventre? Esses questionamentos precisam ser debatidos em profundidade, assim como é urgente a discussão sobre o impacto psicológico da ovorecepção para essa nova família, formada a partir da tecnologia médica.
Isso sem falar nas repercussões que essa mudança na função da procriação pode gerar na própria identidade da mulher. Identidade essa que, desde os anos 60, vem sofrendo mudanças significativas, com a entrada da mulher no mercado de trabalho e a aquisição de funções eminentemente masculinas.
Percebe-se que a identidade feminina tem se construído a partir de transformações nos vários campos de inserção da mulher nos dias de hoje: conjugal, profissional, econômico e, até mesmo, no campo da procriação, aquele que historicamente tem sido vivido quase que como uma “propriedade” da mulher.
A retirada da função de locus de surgimento de um novo ser dessa mulher não pode ser realizada sem a conseqüente presença de profundas repercussões, tanto para essa identidade feminina, quanto para a função materna e, ainda, para a própria definição de família.
Apesar das profundas repercussões da prática da ovodoação, sua aceitação pela realidade social denuncia o surgimento de uma outra concepção de família ou, mais especificamente, a construção de um outro imaginário em torno da família.
Parece-nos claro que as bases da família deixam de ser a consangüinidade, ou seja, o desejo de perpetuação genética por intermédio de um prolongamento narcísico de si. Na verdade, permanece o desejo de perpetuação da espécie, só que o capital genético deixa de ser o de uma família específica e passa a ser o da humanidade como um todo.
No meio de tantas discussões e controvérsias, a tecnologia tem nos ajudado a compreender que o verdadeiro impulso de ter filhos transforma as bases do que conhecemos como família, na medida em que substitui a consangüinidade pela afetividade, pelo desejo de ser mãe/pai e de vivenciar uma relação verdadeira e inteira em si mesma...

REFERÊNCIAS
Bucher JSNF. O casal e a família sob novas formas de interação. In: Feres-Carneiro T. Casal e Família: entre a tradição e a transformação. Rio de Janeiro: NAU; 1999. p. 82-95.

Brandi, MC, Pina H, Lopes JRC. Epidemiologia da Infertilidade Conjugal. In: Donadio N, Lopes JRC, Melo NR. Reprodução Humana II - infertilidade, anticoncepção e reprodução assistida. São Paulo: Organon; 1997. p. 01-09.

Bruschini C. Gênero e Trabalho no Brasil: novas conquistas ou persistência da discriminação. In: Rocha, M. I. B. Trabalho e Gênero: mudanças, permanências e desafios. Campinas: ABEP, NEPO/UNICAMP e CEDEPLAR/UFMG/ São Paulo: ed. 34; 2000. p. 13-58.

Caetano JPJ. Aspectos atuais da Reprodução Assistida. Femina 2000; 28: 77-80.

Ellison MA. et al. Psychosocial risks associated with multiple births resulting from assisted reproduction. Fertil Steril 2005; 83 (Issue 6): 1422-1428.

Forna A. Mãe de Todos os Mitos: como a sociedade modela e reprime as mães. Rio de Janeiro: Ediouro; 1999.

Franco Junior JG et al. Reprodução Assistida. Rio de Janeiro: Revinter; 1997.

Frederickson HL. Segredos em ginecologia e obstetrícia: respostas para o dia a dia. Porto Alegre: Artes Médicas; 1992.

Scharf CN, Weinshel M. Infertilidade e gravidez tardia. In: Papp P. Casais em Perigo: novas diretrizes para terapeutas. Porto Alegre: Artmed Editora; 2002. p. 119-144.