JBRA Assist. Reprod. 2010;14(3):19-23
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2010.14.3.03

Função paterna e o lugar do pai nos tratamentos de reprodução assistida

The paternal role in the assisted reproduction treatments

Marisa Decat de Moura1,2, Maria do Carmo Borges de Souza3, Bruno Brum Scheffer1

1IBRRA-Instituto Brasileiro de Reproduçao Assistida
2Clinica de Psicanálise do Hospital Mater Dei
3G&O Barra RJ Reprodução Humana

Received July 10, 2010
Accepted September 20, 2010

Endereço para correspondência
mdecatmoura@uol.com.br

RESUMO
Objetivo: A Reprodução Assistida (RA) introduz novas formas de procriação, provocando mudanças e consequências na medicina e nos laços sociais. Este estudo centrou-se na busca das transformações e nos efeitos da RA sobre a função paterna, ao tirar do homem a “exclusividade” no processo reprodutivo, colocando em cena o médico, integrante do tratamento.
Material e métodos: Contextualizaram-se os conceitos psicanalíticos no cenário do tratamento, utilizando-se a análise de 12 entrevistas semidirigidas, gravadas com homens no início do tratamento de RA de alta complexidade.
Resultados: a realidade de quem cria a criança não é o elemento fundamental para a construção da sua subjetividade; a possibilidade de sacrifício da singularidade do pai em tratamento; a sustentação dos laços sociais no tratamento por meio de “uma crença” do paciente no médico e/ou instituição; a relação transferencial de confiança do paciente será estabelecida se o discurso do médico ultrapassar a competência técnico-científica, considerando o paciente em sua singularidade.

Palavras-chave: Medicina, Psicanálise, Técnicas Reprodutivas, Ciência

ABSTRACT
Objective: The Assisted Reproduction Techniques (ART) represent increasing demands for the project of having a child, causing changes and consequences not only in the field of medicine, but also in social ties. This study focused the changes and the effects of these techniques on the paternal role. Man has no “exclusivity” in the ART processes that put on stage the medical specialist, a key component to the whole treatment.
Material and methods: Contextualizing the concepts in the psychoanalytic treatment setting, 12 recorded interviews produced this analysis. All men were in the beginning of the IVF cycle.
Results: anatomical reality of the one who creates the child is not the key element for the construction of its subjectivity; the possibility of sacrificing the uniqueness of being a father during treatment; the support of social ties during treatment comes through “trust” in the patient’s doctor and/or institution; the importance of the doctor's speeches, considering the uniqueness of the subject under treatment.

Keywords: Medicine, Psychoanalysis, Reproductive Techniques, Science

INTRODUÇÃO
O percurso da RA tem trazido mudanças e efeitos nos laços sociais, nas organizações familiares, nas gerações – pais e filhos, e nas relações com os profissionais. A Clínica de Reprodução Assistida constitui prática paradigmática da contemporaneidade na medida em que se sustenta em procedimentos científicos e tecnológicos de alta complexidade, que revelam novas formas de família e de filiação (Souza et al., 2008) No decorrer dessa prática, no atendimento psicanalítico a pacientes, um homem fez uma pergunta que abriu espaço para que se pudesse indagar sobre o seu lugar e o do pai nos tratamentos (Moura, 2005): “Sabe o preço que eu pago pelo tratamento?” A entonação remetia a outro campo que não o do pagamento objetivo. Em suas palavras esclarece: “O preço é muito alto”. Depois de um silêncio, continuou: “Estou falando de outro preço”.
Na procura do lugar do homem e do pai nos tratamentos de RA e desse “outro preço”, surgiram indagações e inquietações que constituíram o motor desta investigação. O homem pode estar aí incluído como um parceiro, e não em suas vivências singulares. Como vivencia esse processo no qual ocorrem mudanças relacionadas ao seu papel, em um momento em que ele é convocado a um lugar específico, o de pai?
A partir da leitura dos fenômenos contemporâneos consequentes às novas formas de procriação, tornou-se necessário refletir sobre o ponto causal da função, nomeada pela psicanálise de função paterna. Formulada por Freud e sustentada por pós-freudianos com referência ao patriarcado, essa função, embora irredutível da condição humana, hoje levanta questões sobre o que permanece de seus fundamentos a partir das novas práticas médicas e das transformações sociais no campo da reprodução. O que há de fundamental para que esta função opere, isto é, para que a subjetivação ocorra, a clínica contemporânea e da RA demonstra (Moura, 2008) que independe do modo de filiação.
Fala-se do “declínio” dessa função e pretende-se, neste trabalho, situar como ela se apresenta hoje nos tratamentos de RA, uma vez que se trata de uma função estrutural e estruturante. Como pensar agora a função estruturante do ser humano, que até então era centrada imaginariamente na figura do homem?
Objetiva-se também, a partir da clínica da RA e das mudanças na configuração das organizações familiares, escutando os homens no tratamento, indagar sobre o lugar que o profissional médico, ator fundamental nesse processo de fertilização, ocupa para o homem no tratamento e a sua relação com a função paterna.

MATERIAL E MÉTODOS
A pesquisa foi realizada em clínica dedicada exclusivamente ao tratamento da infertilidade e aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa. Foram realizadas 12 entrevistas, semidirigidas, com homens em tratamento de RA, independentemente do diagnóstico de infertilidade.
Haviam sido convidados aleatoriamente 16 homens, dos quais um se recusou a participar da pesquisa e três não puderam comparecer no momento agendado. Uma gravação não pôde ser transcrita, devido a falha técnica. As entrevistas tiveram tempo médio de 60 minutos.
De início, tínhamos um pesquisador, um entrevistado frente ao bebê possível e do qual ele não é um pai tradicional1, e um tema de estudo: a função paterna e o lugar do pai no tratamento de RA. Entrevistador e entrevistado estavam implicados neste estudo. Para abordar a subjetividade do entrevistado, o entrevistador procurou acompanhar os movimentos do pensamento do entrevistado, interferindo o menos possível. O tema foi apresentado de modo coloquial. Quando o entrevistado começava a discorrer – diferente de responder – sobre o tema, o entrevistador tinha oportunidade de solicitar dados. O roteiro tinha por finalidade indicar os pontos-chave que estavam em jogo para o investigador, e foi necessário, portanto, ser simples, com questões diretas e abertas, para propiciar que os entrevistados colocassem o que tinham a dizer, o que pensavam. O roteiro não variou de um interlocutor para outro, salvo as questões suplementares, que foram feitas visando precisar um pensamento. Evitou-se o estilo interrogatório, por isso pensou-se a partir de cenários no interior dos quais eram associadas palavras com palavras, formando frases. Quando houve hesitações por parte do entrevistado, coube retomar com um pequeno estímulo para verificar ou aprofundar um pensamento que se anunciava. Quando esgotado um tema, passava-se ao seguinte, catalogado pelo pesquisador como fundamental para o estudo.
Na escuta do universo semântico dos textos, o objetivo foi decantar os significantes2 que se repetiam e remarcar as associações entre eles. As entrevistas foram reunidas em um único texto, e cada palavra identificada encabeçou uma série de citações atinentes à palavra-chave. Nas respostas, foram encontrados os caminhos a ser explorados, a partir do que foi trazido pelas palavras. O trabalho configurou uma entrada no universo semântico dos entrevistados a partir de uma palavra-chave, expressão ou questão surgida nas entrevistas. As frases recolhidas fizeram parte do cenário possível desta pesquisa sobre as formas de pensamento.

RESULTADOS
De acordo com a metodologia proposta, os resultados foram organizados e agrupados em tema, sendo decantadas frases e palavras-chave.
Primeiro Grupo de Temas- Reprodução Assistida / Tratamento e Procedimentos /Separação Reprodução – Sexualidade . “Pô’ e agora o que... que eu faço?”... “De qualquer forma é normal”, “formas normais”, “pra mim é tudo normal”, “forma bem natural” ,“método natural” ,“foi natural, normal” ,“vai pelo natural” ,“tudo normal”, “super normal”, “total naturalidade”, “naturalmente não vai conseguir, não”, “tentamos o normal...”.
Segundo Grupo de Temas - Homem e Mulher / Pai, Filho e Sua História / O Lugar do Pai
“Apoio” ,“suporte”, “carinho”, “presença” ,“não deixar cair em depressão” ,“provedor”, “por enquanto penso nela”, “oferecer uma base”, “contribuição emocional”, “passar segurança”, “não posso expressar sentimento”, “passar otimismo”, “estar do lado”, “mostrar força...”.
Terceiro Grupo de Temas- Instituto / Papel do Médico / Infertilidade / Pesquisa e Psicanálise
“Confiança”, “indicação”, “informação” ,“ajuda” ,“apoio”, “apoio além do tratamento”, “apoio no nível da cabeça da gente”, “mão de Deus que faz piruetas”, “instrumento divino”, “empurrãozinho” ,“competência” ,“respeito até na derrota” ,“não posso cair no automático”, “dependo dele”, “médico é diferente de veterinário”, “só auxiliar”, “a gente cai numa engrenagem”.

DISCUSSÃO
No estudo dos grupos de temas, interrogou-se a repetição, não como na relação específica psicanalítica do um-a--um, mas registrando a prevalência de alguns termos que significativamente atraíam outros. E no primero grupo, insistentemente, surgiram os termos natureza e normal. Repetidos e citados, não foram considerados em sua uniformidade mediante a utilização de uma estatística, de uma contagem pura e simples. Foram considerados em seus deslocamentos e deslizamentos ao longo de uma cadeia na qual o sentido estava sempre em fuga. Por conseguinte, não são termos unívocos, e se não ocorre a univocidade, isto é, uma palavra para cada coisa, os dois termos constituem polos de atração em torno dos quais giram partes de frases – estando os polos em questão representados pelas noções de natural e normal.
As técnicas e procedimentos de RA focalizam o biológico, o corpo e suas respostas orgânicas, e as afirmações e/ou indagações sobre a normalidade desses procedimentos só podem ser pensadas no além do biológico. Pode-se concordar que os termos anormal, patológico e doença são historicamente carregados de negatividade, e saúde é carregado de positividade (Canguilhem, 1978, Marietti, 2000), e o que se destaca como desafio é a reflexão de que, se nesse momento histórico a RA, entre outras “novidades” da ciência, inquieta e exige lidar com o ideal de perfeição, ao mesmo tempo revela exatamente o que a vida traz de multiplicidade e de limite.
Enquanto ideologia espontânea, as motivações dos entrevistados recorrem ao fundo comum da sabedoria popular, a qual, por sua vez, deixa transparecer debates antigos e recentes em torno do tema. A ciência biológica, em seus avanços, colocou o homem diante de situações desnaturalizadas como a RA. E diante da desnaturalização, a exigência é grande, considerando-se que homens em tratamento, assim como os profissionais, estão diante do novo, estão todos submetidos à nova situação, além do biológico, além da natureza (expressão construída para dar conta do que a Antropologia descobria ao confrontar natureza e cultura. (Ingold, 2000; Viveiros de Castro, 2002; Goldman, 2006).
Esses significantes – normal e natural – poderosos em sua capacidade de historicamente cristalizar significados e estabelecer identidades aparentemente inabaláveis, nas palavras dos homens em tratamento de RA, ao serem desdobrados e colocados em interrogação, permitem que sejam escutados em sua singularidade e universalidade, ambas necessárias ao estudo desta pesquisa que inclui o campo da subjetividade (Pinto, 1999).
A normatização, as normas e procedimentos da RA já estão inseridos no campo da ciência (Maia, 2000) e da cultura, mas a inclusão das normas na vida do sujeito só é possível a partir da inclusão das normas na história de cada um dos implicados nos tratamentos. Assim incluem--se médicos e pacientes, o que vem acontecendo paulatinamente, por meio de atendimentos clínicos, observações, contestações, recusas, aprovações, pesquisas, isto é, da palavra de profissionais e pacientes.
O Lugar do Homem / da Mulher / do Filho e sua História / O Lugar do Pai
As palavras dos homens dizem de uma posição para a ação que lhes cabe, na RA. E ao buscar nas entrevistas o saber sobre lugar: do homem, da mulher, do filho, do pai, está-se referindo ao lugar no mundo psíquico, ao lugar no campo da subjetividade, e não no mundo biológico ou sociológico.
Em um momento histórico em que a tônica é a igualdade entre homens e mulheres, e os papéis sociais estão em processo de mudança, pode-se escutar que, ao mesmo tempo em que buscam a igualdade, os homens buscam também a não reciprocidade na medida em que repetem, nomeando um lugar específico, mascolocando-se dentro de uma mesma norma, a de suporte para o outro3.
A igualdade e a tentativa da não reciprocidade4, ditos do universo semântico registrado, falam das mudanças no papel do homem em sua função atribuída na cultura paternalista. Mudanças que, advindas também pelos avanços nas técnicas de RA, colocam em questão esse lugar que precisa ser interrogado em sua representação hoje.
Pode-se dizer que essa representação, como apareceu no universo semântico dos homens/suporte de um outro, exclui a subjetividade destes, e que eles se colocam alheios aos seus desejos, e se situam como agentes do desejo da mulher, estando a mulher no tratamento associada ao representante da ciência.
Tendo como fio condutor da nossa pesquisa o lugar do homem, sua posição de sujeito – condição para assumir uma paternidade – e as vicissitudes da figura do pai na contemporaneidade, parece que o homem ainda encontra seu papel no modelo da família patriarcal, mas não como antes. Ele está procurando encontrar o seu lugar neste mundo que está mudando.
O que se chama de função paterna, a sociedade ocidental utilizou durante séculos sua legitimação no pai da família patriarcal, daí sua nomeação e sua referência central ao pai (Brandão, 2003). Como vai então operar e transmitir essa função – na medida em que ela não está mais apoiada na função patriarcal como observado –, exige uma reavaliação dessa referência. A clínica psicanalítica, a mudança e a dispersão do poder paterno, assim como este estudo sobre RA, mostram que há outro modo de conceber a fundação da subjetividade.
Cabe, portanto, a interrogação sobre a função paterna e sua referência à figura do pai, pois, à medida que o conceito de pai ficou liberado da carga de poder evidenciada como inoperante, o espaço ficou livre para o questionamento de uma função5 estruturante, sem se referir à figura do pai.
Ao pensar em termos de estrutura psíquica onde há lugares a serem preenchidos, limites a serem assinalados, a abordagem será diferente para o par parental que pode não ser necessariamente conjugal. Os franceses passaram a dizer parentalidade e não paternidade. Qualquer que seja o “arranjo” hoje realizado para o nascimento de um filho, precisa-se de dois, espermatozoide e óvulo, independentemente de como o “arranjo de dois” foi feito. Os lugares de pai e mãe são operantes e efetivos na medida em que eles se referem a uma relação lógica, a uma terceira instância, isto é, um espaço de representação onde se monta o conceito de pai, montagem como se fosse num teatro, numa apresentação de personagens.
Como exemplo, pode-se citar: quando nasce uma criança em RA, o pai comparece e a registra em seu nome: eis o nome do pai. Até então, o pai é incerto. Pater semper incertus est, dizem os comentadores da lei. O fato de o pai ser incertus requer a sua nomeação6. O pai, neste caso, é uma função que a mãe precisa reconhecer como tal, nada mais; esvazia-se assim o mito e seu aparato que idealizava a figura do pai.

RA e ordem procriativa em questão 7
A reprodução pensada em termos de ordem procriativa foi fundada na diferença dos sexos, logo enunciada em termos de genealogia. O século XX trouxe com a RA a separação entre sexo e reprodução. Com as práticas sociais entre pessoas do mesmo sexo, também no século XX, surgiram casais homoafetivos com as mesmas pretensões jurídicas – casamento, filhos, herança – de outros casais. A demanda clínica e essas questões convocaram também os psicanalistas a interrogar seus conceitos e sua práxis (Perelson, 2006).E chegou-se ao elemento terceiro, aquele responsável pela função de subjetivação, o qual, na RA, não é dado, terá que ser construído. Quando convidado a falar, o homem não se coloca como sujeito de sua experiência. Ao ocupar o lugar de homem/suporte de uma companheira, pergunta-se se ele não estaria cumprindo o papel de homem-ideal, respondendo ao que ele pensa que esperam dele, e se não haveria aí, em seus discursos, uma mestria dos valores sociais.Nesse universo semântico apresentado, tem-se uma posição racional do homem tal como ele já vinha exercendo, posição negando e reconhecendo que existe o sentimento: “não posso expressar sentimento”. Pode-se pensar se o espaço para que o homem possa “expressar” o que ele pensa e sente vai existir em “outro lugar”, talvez encaminhado para o consultório de outro especialista – o neurologista, o psiquiatra, o psicanalista?Portanto, diferentemente de “o homem que não chora”, tem-se “o homem que chora, mas não pode chorar” porque, “precisa segurar as pontas”, “senão a casa cai”. E pode-se indagar sobre o espaço para o paciente existir enquanto sujeito, sempre em uma construção singular: a diferença estaria na possibilidade da expressão de singularidades.Todas as mudanças e suas consequências sugerem que a espécie humana atravessa, com intensidade variável no tempo e no espaço, aquilo que se pode chamar de “crise das referências simbólicas”. Ao mesmo tempo, o fato de estas “crises” não levarem a uma rotura, a uma desestruturação da civilização, permite pensar, e tem-se aqui um ponto central deste trabalho, que não existe um único caminho que defina, de forma normativa, o acesso à ordem simbólica e às relações entre sujeitos, próprias do humano. Ou seja, não há um modo único de subjetivação (Ceccarelli, 2002).Pode-se então pensar que o lugar do pai e da mãe não tem que ser necessariamente ocupado por um homem e por uma mulher. O que se denomina de “função paterna” e “função materna” não necessita da presença de um homem e de uma mulher. A realidade anatômica de quem cria a criança não é um elemento fundamental para a construção da sua subjetividade. Essa construção está muito mais subordinada à organização psíquica daqueles que cuidam da criança, de como eles se colocam em relação à sua própria sexualidade, à fantasia que têm de ser pai e/ou mãe e, talvez, sobretudo, ao lugar que a criança ocupa no universo psíquico dos pais.Daí a fundamental atenção necessária ao lugar do homem e sua posição subjetiva nos tratamentos de RA, não porque é homem, mas para que, ao se colocar como sujeito, possa sustentar não “o outro”, mas a diferença radical que é a condição para que o outro se sustente.E o espaço do tratamento de RA, local onde se busca um saber exterior, universal, e válido para todos, o da ciência, pode ser a oportunidade, ou não, de um encontro também com o espaço para as buscas de respostas singulares, necessárias para a função operante de subjetivação

Terceiro Grupo de Temas

Instituto / Papel do Médico / Infertilidade / Pesquisa / Psicanálise
A partir das palavras dos homens, indagou-se sobre o lugar do médico, figura central no tratamento, sobre a demanda que os homens endereçam a ele e sobre o que eles dizem precisar nesse espaço8.Da modernidade, cujo laço social vertical era organizado pelo pai/autoridade, passou-se a um mundo horizontal, atual, cujo laço social, globalizado, introduziu, como consequência, uma nova apresentação da clínica, tanto médica como psicanalítica. Do universo regido pela figura do pai, próprio do mundo industrial, na globalização, os “pais se multiplicam” em nomes do pai, como Lacan falou em seus últimos seminários.Diretamente relacionada a essas mudanças e suas consequências, tem-se a clínica da RA, paradigmática do discurso atual pelos avanços técnicos e científicos que a caracterizam. E os profissionais estão exercendo sua prática clínica com os pacientes desta clínica, nesse momento histórico (Souza, 2005).O saber científico, subsumido pela tecnologia, produz objetos que, nesse discurso, podem ser aquele mais um que sustentará a ilusão da oferta de uma felicidade garantida. Lacan (1974), em uma leitura da sociedade moderna, entende que a colaboração da ciência que produz também gadgets para o consumo, pode assujeitar os indivíduos a uma engrenagem. Nesse discurso, a ciência exclui o sujeito e alimenta o ciclo da produção capitalista ajudada pelos meios de comunicação que, fazendo também parte da engrenagem, encarregam-se de alimentar o seu movimento.É importante deixar claro que não se trata de uma posição contra a ciência e seus importantes avanços científicos e tecnológicos, nem contra o discurso capitalista. Trata-se é de pensar na importância da “re-colocação” do sujeito em sua própria casa, tendo como referência, desde Freud, a posição ética do sujeito que sabe não ser o senhor em sua própria casa (Andrade, 2005).Apesar de todas as modificações da modernidade, a medicina é uma prática social, e a cultura continuou reservando para o médico, seu representante, um papel sempre além do alívio das doenças. Atribui-se a ele um poder pessoal e um saber sobre a vida e sobre a qualidade de vida.Com o ingresso da medicina na era científica, cada vez mais, ele se tornou um especialista. Uma das consequências de todas essas mudanças é o sacrifício da singularidade. O sujeito cede sua singularidade, sua diferença, em prol do sempre mais possível, imposto pela oferta da ciência a serviço do discurso capitalista. Assim, a realidade psíquica não pode ser universalizada, pois ela se caracteriza pela diferença, sendo do registro do singular. Como se sabe, os objetos oferecidos pelo mercado e pela ciência não são capazes de tamponar por completo a falha fundamental estrutural responsável pela existência do sujeito desejante. E, diante da oferta de um saber, como a de um especialista em RA, produz-se um enlaçamento entre o médico e o paciente. Diante da demanda de um filho e do que se apresenta como obstáculo/infertilidade, a suposição de saber localizada no profissional enlaça o sujeito em uma crença endereçada ao especialista, abrindo ou não perspectiva para uma relação de confiança.Confiança, indicação, informação, ajuda, apoio, apoio além do tratamento, apoio ao nível da cabeça da gente, dependo dele... para encontrar o meu lugar, são ditos dos homens da pesquisa com relação ao lugar do médico. Todo sujeito que busca tratamento insere o profissional como mais um objeto do mercado, que pode aliviar seu sofrimento. O profissional, ao receber o paciente e ocupar um lugar de quem tem respostas para o problema do sujeito, já possibilita o estabelecimento de um laço, uma ligação entre paciente e profissional a partir de uma crença9 no poder do saber que o outro tem para lhe oferecer. Um primeiro nome dado a um conceito fundamental da psicanálise, o de transferência, Freud o nomeou de confiança (1893,1971) e já o considerou uma base para a condição de tratamento. Este conceito complexo e que é específico, efeito e motor do tratamento na relação analítica, pode-se pensá-lo também em qualquer vínculo em que se estabelece o lugar para uma suposição de saber. A pergunta que se coloca é o que determina, na relação do profissional e seu paciente, o estabelecimento de uma confiança repetidamente dita fundamental pelos homens nas entrevistas.Como o sujeito excluído não deixa de reivindicar sua existência, dificuldades, mal-entendidos, impasses, queixas, processos, sintomas e adoecimentos vão sinalizar aos profissionais a demanda de sua inclusão. Uma resposta interessante a essa demanda constata-se ser a possibilidade da coexistência das diferenças, presente em trabalhos cada vez mais multidisciplinares. O retorno do subjetivo no campo dos valores da cultura pode-se dar pelas várias áreas do conhecimento, inclusive a da psicanálise. Mão de Deus que faz piruetas, instrumento divino, empurrãozinho, competência, só auxiliar, respeito até na derrota, a gente cai numa engrenagem, não posso cair no automático, o médico é diferente de veterinário... continuam os homens a falar sobre o lugar do médico.Ao mesmo tempo em que diviniza o médico e reivindica o profissional competente, o homem pede “alguma coisa” além do científico, aquele diferencial...Pelo lugar central e determinante no tratamento, esse profissional será alvo do que repetidamente é dito nas entrevistas: é preciso ter confiança, seja por indicação, pela escolha do instituto ou pelo acaso. Ocupar esse lugar não é sem consequências; é inerente a ele uma responsabilidade, pois vai definir, a partir dessa posição, se o outro – o paciente – terá lugar ou não como sujeito. Isto é, ele define o laço social, ele define como o sujeito vai aparecer no laço social.Já que o mundo mudou, se horizontalizando, perde-se a nostalgia do pai que era então hierarquicamente o encarregado da responsabilidade. Agora, então, ela é de todos, cabendo ao médico conduzir a relação médico-paciente e assim considerar o paciente agente, responsável pelo seu corpo e decisões em sua vida.O discurso do mestre antigo, no qual se localizava a mestria no pai, no professor, no médico, como foi abordado, mudou, e fez com que os semblantes a ele acoplados também mudassem. De mestres, o pai, o professor e o médico passaram a ser simplesmente pai, professor e médico.Nesse processo, os tempos atuais mostram a importância da confiança e, consequentemente, o lugar do sujeito, porque as mudanças revelam que o Outro, lugar ocupado pelo mestre antigo e que era semblante de garantia e de segurança, não existe. Tem-se então como consequência o sujeito desamparado diante desse Outro que não tem consistência No laço social, é possível o estabelecimento da confiança. Confiança necessária para o sentir-se amparado, incluindo o impossível.Entende-se que isso acontece quando o médico circula do para-todos do científico para o caso-a-caso do sujeito. Isso porque, no para-todos, o sujeito está excluído, e perde-se a possibilidade da construção do campo da confiança, o qual exige a posição de sujeito para responsabilizar-se pela tomada de decisões, inclusive a de confiar.Uma vez que o sujeito excluído não tem como assumir a responsabilidade de sua parte na história, fica com a saída pela crença de que o Outro divinizado é o responsável por sua felicidade. Excluído do discurso e com autorização para exclusão das suas responsabilidades, em uma posição de objeto no laço social estabelecido, o paciente pode ficar posicionado em uma relação que não será sem consequências. Nesta posição, o sucesso, assim como as impossibilidades, as falhas, os insucessos nos resultados vão ser “todos” depositadas no profissional, com “todas” as suas consequências. Como disse um dos participantes, se afinal é só pegar e jogar lá dentro...

Considerações finais
No momento dos efeitos da mudança de paradigma no que se refere ao normal, ao já estabelecido no campo da medicina e da reprodução humana, as normas e procedimentos da RA estão inseridos no campo da ciência e da cultura. Entretanto, a inclusão das normas na vida do sujeito só é possível a partir da palavra, da simbolização, isto é, da inclusão das normas na história de cada um dos implicados nos tratamentos, médicos e pacientes.
Fundamental atenção, necessária ao lugar do homem e sua posição subjetiva nos tratamentos de RA, dá-se não porque é homem/identidade de gênero, mas porque, ao se colocar como sujeito, pode, ao tomar a palavra, sustentar não o outro, mas a diferença radical, que é a condição para que o outro se sustente.
Função paterna não implica a presença de um homem, mas a organização psíquica daqueles que cuidam da criança, de como eles se colocam em relação à sua própria sexualidade, à fantasia que têm de ser pai e/ ou mãe e, sobretudo, do lugar que a criança ocupa no universo psíquico dos pais.
O profissional, ao receber o paciente e ocupar o lugar de quem tem respostas para o problema do sujeito, possibilita o estabelecimento de um laço, uma ligação entre paciente e profissional a partir de uma crença nesse saber que o outro tem para lhe oferecer. Diante da infertilidade, que se apresenta como obstáculo à satisfação de ter um filho, a relação médico/paciente enlaça o sujeito em uma crença de suposição de saber, abrindo ou não perspectiva para uma relação de confiança como base para os tratamentos, além das técnicas. Uma relação de confiança se estabelece a partir da circulação nos discursos, pelo profissional, do para-todos do científico ao caso--a-caso do sujeito.
Ocupar o lugar de uma suposição de saber não é sem consequências. É inerente a ele uma responsabilidade, pois é ele que define, a partir dessa posição, se o outro, o paciente, terá lugar ou não como sujeito. Isto é, ele define o laço social, ele define como o sujeito vai aparecer no laço social.
A ciência avança, e a psicanálise precisa mudar, sem perder a direção sustentada por seus princípios. Na clínica nultidisciplinar, o psicanalista pode encontrar lugar para a sua função e estar presente na cultura, participando das reinvenções com relação ao ser humano e sua condição de dependência de um outro para sua existência.

 

1Consideramos pai tradicional aquele segundo o modelo historicamente construído, que tem como base a primazia da heterossexualidade e a dominação masculina.
2Lacan toma emprestado de Saussure o conceito de significante para se integrar na orientação estruturalista. Ao trazer o significante para o campo da experiência analítica, inclui uma nova concepção de sujeito, que se baseia em uma teoria sobre a estrutura da subjetividade humana: falta-a-ser. O significante é puro non sense e não tem relação com o significado, o que equivale a dizer que o significante não significa nada ou pode significar qualquer coisa. O significante então passa a ser definido como o que representa um sujeito, enquanto diferença, para outros significantes.
3Podem-se destacar também frases significativas, indicando uma posição de “suporte” para o outro: “se a gente ‘pifa’ quem vai dar apoio à mulher” “o homem está em segundo plano, biologicamente – entre aspas” “o homem antes todo-poderoso hoje acompanha” “tem que ser tanto suporte financeiro quanto psicológico”.
4Destacam-se também, dizeres sobre as dificuldades diante do paradoxo igualdade/não reciprocidade: “machucado”, “valendo nada além do espermatozoide”, “sem lugar”.
5Função – termo da matemática, significando o que estabelece relações entre elementos. Lacan se apropria do conceito de função para dizer do modo como opera a correspondência entre os elementos da estrutura psíquica do sujeito, que se dá privilegiadamente via a diferença. Uma função não é uma relação ainda que estabeleça uma correspondência; restrições são introduzidas. Na psicanálise, é um operador que, mediante um artifício de escritura, opera o que se sustenta vazio na estruturação do sujeito.
6Pater semper incertus est, para Lacan, é a verdade da qual se origina a função tão particular do pai.
7“Por “ordem procriativa”, entende-se um conjunto de normas jurídicas que organizam as formas de inscrição genealógica e de reprodução biológica das pessoas’, a qual se estrutura com base em três grandes pilares: a liberdade de procriar por via natural; a assimilação da categoria de genitor à categoria de pai; a equivalência entre capacidades reprodutivas e capacidades parentais” (ARÁN, &.; CORRÊA,, 2004).
8Destacam-se também, neste estudo, frases significativas com relação ao lugar que o médico ocupa para os homens no tratamento: “pra vocês é feijão com arroz” “é só pegar e jogar lá dentro, não?” “vou fazer tudo certinho pra passar na olimpíada” “eu dou suporte pra ela e o médico pra mim” “a psicologia podia ter um suporte aí para o homem” “às vezes até queria ter um problema mesmo pra não ter um filho”.
9Considera-se crença, como ato ou efeito de crer, uma convição íntima principalmente religiosa, e confiança como segurança íntima de alguma coisa. A diferença está localizada na crença como depositária de algo no outro, e confiança incluindo uma decisão do sujeito.

 

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