JBRA Assist. Reprod. 2010;14(4):21-23
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2010.14.4.03

Intenções de revelar aos filhos sobre a Reprodução Assistida em uma amostra brasileira

Intent to disclose the use of an assisted reproduction method in a Brazilian sample

Gisleine Verlang Lourenço, Pedro Vieira da Silva Magalhães2, José Roberto Goldim3, Luiz Eduardo T. Albuquerque4, Ana Rosa Detilio Monaco5, Eduardo Pandolf Passos5

Mestre em Ciências Médicas (UFRGS). Hospital de Clínicas de POA.
2Mestre em Epidemiologia (UFPel). Hospital de Clínicas de POA
3Doutor em Ciências Médicas. Hospital de Clínicas de POA.
4Mestre em Ginecologia. FERTIVITRO: Centro de Reprodução Humana. SP
5Livre Docente. SEGIR: Serviço de Ecografia Genética e Reprodução Humana e Hospital de Clínicas de POA.

Received February 02, 2011
Accepted February 07, 2011

Endereço para Correspondecia
Gisleine Verlang Lourenço. Rua: Costa. 444/401 – Bairro Menino Deus – Porto Alegre - RS CEP: 90110-270 email:_gisleinelourenco@yahoo.com.br Fone: 51 99853879

Instituições Envolvidas na pesquisa: Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Clínica (SEGIR) Serviço de Ecografia, Genética e Reprodução Humana em Porto Alegre e Centro de Reprodução Humana (FERTIVITRO) em São Paulo

RESUMO
Objetivo: Trata-se de estudo inédito em amostra brasileira que avalia se pais brasileiros que utilizaram alguma técnica de Reprodução Assistida tem a intenção de revelar ao filho (a) a forma de concepção utilizada.
Método: Estudo transversal multicênctrico. Aceitaram participar voluntariamente do estudo 37 mães e 28 pais que responderam a um questionário semi-estruturado de cinco perguntas que questionavam o interesse de contar ou não ao filho, parentes, amigos e sobre a concordância entre o casal acerca deste assunto.
Resultados: Das 65 pessoas entrevistadas, 63 manifestaram claro interesse em revelar ao(s) filho(a)(s) o método de concepção utilizado, ou seja, 96,8% da amostra.
Conclusão: tanto as mães quanto os pais, independente do grau de instrução, classe econômica, tipo de técnica de Reprodução Assistida adotada, preferem relatar aos filhos sobre a forma de concepção quando eles crescerem. Isto está em claro contraste com amostras internacionais.

Palavras Chaves: Técnicas Reprodutivas, Assistidas

ABSTRACT
Objective: this is the first study in a Brazilian sample evaluating whether parents using assisted reproduction have the intention to reveal to their offspring how the conception took place.
Method: cross-sectional multicentric study. Thirty seven mothers and 28 fathers completed a questionnaire consisting of five items asking whether they intended to reveal the method of conception to their son/daughter, relatives and friends and the agreement of the couple on the issue.
Results: sixty-one out of the 65 persons (96.8%) interviewed had the intention of revealing the method of conception used.
Conclusion: both mothers and fathers, independently of years of education, social class and assisted reproduction technique demonstrated the intention to reveal the method of conception, This is in clear contrast to international samples.

Keywords: Reproductive Techniques, Assisted

INTRODUÇÃO
O desenvolvimento de técnicas de Reprodução Assistida tem permitido que casais consigam alcançar a gravidez. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a infertilidade é um problema vivido por 8% a 15% dos casais. No Brasil, estima-se que mais de 278 mil casais tenham dificuldade de gerar um filho em algum momento de sua idade fértil (Ministério da Saúde). A inseminação artificial (IA), a transferência intratubária de gametas (GIFT), a transferência intratubária de zigotos (ZIFT) e a fertilização in vitro seguida de transferência de embriões (FIVETE) são as técnicas mais utilizadas atualmente. Qualquer dessas técnicas pode ser utilizada de forma homóloga ou heteróloga conforme a proveniência do material biológico utilizado. A inseminação é homóloga quando realizada com o sêmen do próprio companheiro e heteróloga, quando feita com sêmen originário de terceira pessoa (Passos, Freitas et al, 2003). Ainda assim, a Reprodução Assistida carrega uma série de fatores de estresse. A trajetória do casal que busca auxílio para a resolução de seu problema procriativo é, muitas vezes, longa e dolorosa. Alguns exames são de caráter invasivo, associados à fantasia de riscos e complicações; os insucessos dos procedimentos geram abalo na auto-estima; a internação hospitalar para exame diagnóstico ou ato cirúrgico é cercada de carga estressante, podendo interferir no resultado do tratamento (Freitas, 2008).
Amostras de outros países revelaram que não há uma intenção e mesmo uma clara convicção em manifestar a criança ou parentes que a gravidez foi conquistada por método não natural. Não há estudos em amostras brasileiras sobre os padrões de relato dos pais, a qualidade de relacionamento com seus filhos e as implicações na adequação sócio-emocional.

OBJETIVOS
Diante do ineditismo do tema em solo brasileiro o presente estudo deseja verificar como pais brasileiros se posicionam frente à temática que está situada em relação ao contar ou não aos filhos sobre o método utilizado.

MÉTODO
Estudo transversal, desenvolvido em quatro locais: Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Clínica (SEGIR) Serviço de Ecografia, Genética e Reprodução Humana, em Porto Alegre particular e Centro de Reprodução Humana (FERTIVITRO) em São Paulo. Este estudo incluiu somente famílias homólogas. De um total de 65 pessoas contatadas aceitaram participar voluntariamente do estudo 37 mães e 28 pais (83.3%). Em todas as famílias que o pai aceitou participar, também aceitou a mãe. Eles responderam a um questionário semi-estruturado de cinco perguntas que questionavam o interesse de contar ou não ao filho, parentes, amigos e sobre a concordância entre o casal acerca deste assunto.
As entrevistas foram feitas por duas pesquisadoras, uma em Porto Alegre e a outra de São Paulo. O questionário foi auto-administrado e o tempo de duração de cada entrevista variou entre 15 a 20 min.

RESULTADOS
A Tabela mostra as características demográficas das mães e pais incluídos. Das 65 pessoas entrevistadas, apenas 2 manifestaram afirmaram que não revelariam ao(s) filho(a)(s) o método de concepção utilizado. Entre um total de 37 mães, 34 responderam que sim, uma respondeu que não e duas não pensaram a respeito. Em relação à mesma pergunta, 24 de um total de 28 pais que aceitaram participar do estudo responderam que sim, um respondeu que não e três que não pensaram a respeito.

 

Table 1
Tabela. Características demográficas das famílias incluídas no estudo

 

A idade preferida para contar aos filhos (as) teve uma pequena variabilidade. Destes, 62% (39 pais) tem intenção de contar apenas quando perguntados ou quando a criança demonstrar entendimento do assunto; 13 % (8 pais) preferem contar entre os 8 e 12 anos; 8% (5 pais) não pensaram no assunto; e 17% não mencionaram a idade.
A maioria dos pais (93,8%) revelou para outras pessoas sobre a forma de concepção do filho (a). Em relação à concordância entre o pai e a mãe em contar ou não à criança sobre a forma de concepção encontramos que 95,4% dos casais concordam entre si.

DISCUSSÃO
Trata-se do primeiro estudo em uma amostra brasileira que avalia se pais que utilizam técnicas de Reprodução Assistida têm intenção de revelar aos filhos acerca do método de reprodução utilizada. O resultado mostrou que tanto as mães quanto os pais, independente do grau de instrução, classe econômica, tipo de técnica de Reprodução Assistida adotada, preferem relatar aos filhos sobre a forma de concepção quando eles crescerem.
Nesta amostra foi contundente a diferença acerca da abordagem deste assunto em relação aos achados de amostras de outros países. Em um deles 46 famílias com filhos com idade entre quatro e oito anos, concebidos através de inseminação, foram entrevistados a respeito de sua decisão, razão e preocupação com relação à revelação para a criança. Houve uma grande inclinação por parte deles pelo não contar (61%). Dentre as principais razões alegadas houve a menção de que não havia um motivo para contar a verdade além do desejo de proteger os membros da família. Por outro lado as duas principais razões a favor de contar foram evitar descobertas acidentais e o desejo de serem honestos. O estudo relata que os filhos que foram informados reagiram tanto com curiosidade ou com desinteresse e que seus pais descreveram a experiência como sendo positiva (Lycett et al.,2005).
Outro estudo comparou a qualidade do relacionamento familiar e a adequação sócio-emocional dos filhos em famílias criadas através de inseminação, As conclusões foram que as diferenças identificadas indicaram relacionamentos mais positivos entre pais e filhos de famílias que revelaram a origem do nascimento em relação às famílias que não revelaram. Entretanto isso não representou um relacionamento disfuncional nas famílias que não revelaram, mas sim refete um resultado particularmente positivo no grupo que revelou. (Lycett et al., 2004)
Numa amostra australiana foram estudadas 276 famílias que tiveram ao todo 420 filhos por inseminação. Nesta amostra somente 22 das 420 crianças tinham sido informadas sobre sua origem. O estudo mostra que 71% das famílias contou a outras pessoas, mas 94% delas não contaram para o filho. Dos 29% de famílias que não contaram a outras pessoas sobre a origem do filho, nenhuma contou ao filho. À medida que o filho foi crescendo, mais pais decidiram contar a ele sobre sua origem (Durna et al.,1997).
Estudos longitudinais internacionais compararam a intenção e a efetiva comunicação dos pais em contar e constataram que o padrão de intenção de não contar se manteve na maioria dos casos (Greenfeld et al., 1997; Olivennes et al.,1997)
Algumas limitações de nosso estudo estão em termos de diferença de amostra. A literatura internacional baseia-se predominantemente sobre os relacionamentos familiares ao longo do tempo quando as crianças foram concebidas com gametas doados e/ou uma mãe substituta foi utilizada. Nosso estudo inclui somente famílias homólogas. Portanto, não temos informações sobre as famílias heterólogas. Nosso estudo, diferente dos estudos internacionais é de caráter transversal.

CONCLUSÃO
Em termos propositivos, nossa pesquisa revela uma diferença, como já destacamos, das amostras internacionais. Isto exige novas investigações que possam aferir que fatores poderiam estar envolvidas nesta diferença, além da realização de estudos idênticos aos internacionais, para avaliar as repercussões ou quais seriam as repercussões levando em consideração estas diferenças amostrais, além de avaliar aspectos culturais e implicações na qualidade do relacionamento de famílias brasileiras, especialmente a partir de estudos longitudinais.

AGRADECIMENTOS
Agradecimento especial, in memorian, ao Dr. Vilmon de Freitas (UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo. SP), pelo apoio pessoal e institucional a este trabalho.

Referências
Durna EM, Bebe J, Steigrad SJ, Leader LR, Garrett DG. Donor insemination: attitudes of parents towards disclosure. Med J Aust. 1997; 1;167(5):256-9.

Freitas M, Siqueira AF, Segre Conceição AM. Avanços em Reprodução Assistida. Rev Bras Cres Des Hum. 2008;18(1):93-97.

Greenfeld DA, Ort SI, Greenfeld DG, Jones EE, Olive DL. Attitudes of IVF parents regarding the IVF experience and their children. J Assist Reprod Genet. 1996;13(3):266-74.

Lycett E, Daniels K, Curson R, Golombok S. School-aged children of donor insemination: a study of parents’ disclosure patterns. Hum Reprod. 2005;20(3):810-19.

Lycett E, Daniels K, Curson R, Golombok S. Offspring created as a result of donor insemination: a study of family relationships, child adjustment, and disclosure. Fertil Steril. 2004;82(1):172-9.

Ministério da Saúde. Brasil. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/sas/mac/area.cfm?id_area=832

Olivennes F, Kerbrat V, Rufat P, Blanchet V, Fanchin R, Hazout A, Glissant M, Fernandez H, Frydman R. Contracept Fertil Sex. 1997 2005;18(4):347-53.

Passos EP, Freitas F, Sabino J. Rotinas em Infertilidade e Contracepção. São Paulo: Artmed, 2003