JBRA Assist. Reprod. 2010;14(4):24-28
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2010.14.4.04

Desafios da educação continuada em saúde reprodutiva: integração multiprofissional e inclusão tecnológica

Challenges of continuing education in reproductive health: multiprofessional integration and technology inclusion

Tonia Costa1, Michele Pedrosa2, Cláudia Waymberg Goldman3, Maria do Carmo Borges de Souza4

1Doutora em Ciências. UFRJ - Brasil
2Doutora em Saúde Pública. UFRJ - Brasil
3Graduada em Psicologia. UFRJ - Brasil
4Doutora em Medicina. UFRJ - Brasil

Received November 09, 2010
Accepted January 05, 2011

Endereço para Correspondência:
Tonia Costa Rua Moncorvo Filho 90, Centro. Rio de aneiro, Brasil e-mail- tonia.costa@gmail.com

Instituição onde foi realizado o trabalho; Divisão de Reprodução Humana, Instituto de Ginecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - Brasil.

RESUMO
Os desafios da educação continuada em saúde são claramente percebidos em áreas em que amplo processo de medicalização é mantido e em que avanços tecnológicos são continuamente desenvolvidos. Revelam-se de forma mais patente quando permeadas por mitos e crenças socialmente difundidas e mantidas, como na área de reprodução assistida.
Objetivo:
discutir o caráter inclusivo da educação continuada oportunizada pela vivência integrada em três níveis de atuação (ensino, pesquisa e extensão) num hospital universitário, referência no estado e na cidade do Rio de Janeiro.
Métodos: as atividades subjacentes ao mesmo tempo iniciam a formação profissional em saúde reprodutiva – 120 alunos de Graduação em Medicina/ ano e também em cursos como Biologia, Serviço Social, Psicologia, Enfermagem, e proporcionam rodízio de Residentes em Ginecologia e Obstetrícia (10/ano), alem de Aperfeiçoamento em Reprodução Assistida (2 alunos/ ano, carga horária de 360h). A aproximação com a extensão universitária se dá por meio de acompanhamento de grupos de acolhimento multiprofissional previstos para 30 pacientes em início de tratamento/ mês por parte de alunos de Graduação e Pós.
Resultados: as trocas de conhecimento viabilizam o desenvolvimento/aprimoramento de requisitos técnicos imprescindíveis – o olhar e a escuta mais sensíveis, além de incluir os alunos no questionamento crítico da necessidade deste atendimento em rede pública. Além de levar a uma formação mais adequada/ específica, permitem ampliar o acesso a tecnologias, num processo de justiça e igualdade social em saúde reprodutiva.

Palavras-chaves: saúde reprodutiva, formação continuada, integração multiprofissional, inclusão tecnológica

ABSTRACT
The challenges of continuing education on health are clearly seen in areas where extensive process of medicalization is maintained and that technological advances are continually being developed. They are more apparent when permeated by widespread myths and beliefs socially maintained, as in the area of assisted reproduction.
Objective: To discuss the inclusiveness of continuing education nurtured by the experience built on three levels of performance (teaching, research and extension) in a university hospital, reference in the state and the city of Rio de Janeiro.
Methods: The activities begin training in reproductive health - 120 medical undergraduate students per year and also in courses such as Biology, Social Work, Psychology, Nursing, and provide rotation of Residents in Obstetrics and Gynecology (10 / years), besides improvement in Assisted Reproduction (2 lato sensu students per year, hours of 360h). The approach to university extension is done through monitoring wellcome groups provided to 30 patients starting treatment per month by students graduate and post.
Results: the exchange of knowledge enable the development / improvement of technical requirements essential - look and listen more sensitive, and includes students in critical questioning of the need of this care in the public network. Besides leading to a better specific training, it allows broader access to technology, in a process of social justice and equality in reproductive health

Keywords: reproductive health, continuing education, multidisciplinary integration, technological inclusion

INTRODUÇÃO
Os desafios da educação continuada em saúde são claramente percebidos em áreas em que amplo processo de medicalização é mantido e em que avanços tecnológicos são continuamente desenvolvidos. Ainda se revelam de forma mais patente quando permeadas por mitos e crenças socialmente difundidas e mantidas, como ocorre na área de reprodução assistida.
A infertilidade, hoje, é um problema de saúde pública. Seu enfrentamento exige a democratização do acesso à informação e à tecnologia para efetivação da igualdade de direitos à reprodução assistida integrada ao planejamento familiar. Aliado a isto, a qualificação técnica específica de recursos humanos na área de saúde, por meio de formação profissional, seja inicial ou continuada.
Em acréscimo, as práticas em saúde nem sempre podem contemplar toda a complexidade imanente à saúde reprodutiva. Baseado no modelo biomédico, o discurso do risco vem dirigindo condutas e decorre de uma interação médico-paciente prescritiva. Ampliar a dimensão da saúde reprodutiva pressupõe ampliar a escuta aos usuários dos serviços, expandir a orientação da formação em saúde e embasar politicamente a luta pelo direito reprodutivo (Souza, 2008).
É premente que a Universidade, como instituição pública, demarque espaços na discussão de temas considerados tabus como contribuição social. Destarte, há que se considerar que a temática da reprodução humana traz em si imbricados aspectos de diferentes domínios – biológico, social, cultural –, como esclarece Corrêa (2008):

Trata-se, também, de dar voz a indivíduos e grupos, de escutá-los, para além do universo acadêmico, pois afinal, os fatos da reprodução e da produção da vida (formação de famílias, número de filhos, formas de educação e de socialização) ultrapassam o universo científico, não importando a área considerada. (Correa, 2008)
A anatomia e a fisiologia do corpo só se tornam significativas a partir de regras e códigos de grupos. Cria-se, assim, uma dependência entre representações sociais específicas acerca do corpo, saúde e doença e o contexto social em que se inserem. Deste modo, as representações de doença estão diretamente relacionadas com os usos sociais do corpo em seu estado normal. Alterações neste estado compreendem estar doente.
A discussão sobre o corpo, sua anatomia e fisiologia demanda, neste serviço (especificamente pela tecnologia reprodutiva empregada), um processo de educação em saúde mais efetivo. Por meio de um processo de construção compartilhada do conhecimento (entre equipe multiprofissional e usuários do serviço) é possível oportunizar a discussão acerca de diagnósticos, métodos, técnicas, possibilidades e limitações do tratamento e do(s) serviço(s) em reprodução humana assistida.
Em relação ao serviço, o Instituto de Ginecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IG/UFRJ) possui tradição na assistência à Infertilidade desde 1942, com inúmeros estudos, pesquisas e projetos desenvolvidos no âmbito da Graduação e da Pós-graduação. Tornou-se, ao longo do tempo, instituição de referência – na cidade e no estado do Rio de Janeiro nas questões relativas à saúde reprodutiva e, especificamente, à infertilidade. Além disso, compreende um dos poucos serviços públicos (gratuitos) de qualidade disponível e, analogamente, um pólo de formação de profissionais na área de reprodução humana (Costa et al, 2009).
A atual estrutura da UFRJ apóia-se na tríade ensino-pesquisa-extensão. O IG, por meio da Divisão de Reprodução Humana e, mais especificamente, do Ambulatório de Infertilidade, vem atuando na formação de profissionais que contemplam uma perspectiva “para além da assistência”, agregando ações nas três dimensões e ainda entre a Graduação e a Pós-graduação. Configura-se em uma perspectiva interdisciplinar, a partir da participação de profissionais de Unidades diversas da UFRJ, a saber: IG/UFRJ, por meio do Ambulatório de Infertilidade (Divisão de Reprodução Humana), Escola de Enfermagem Ana Nery, Escola de Serviço Social e a Faculdade de Educação (Departamento de Fundamentos da Educação – setor de Biologia), além de parcerias com outras instituições acadêmicas do estado do Rio de Janeiro.
Em acréscimo, a oportunização do questionamento de que o planejamento familiar está associado exclusivamente à contracepção, sobretudo em classes populares, conforme pode ser visualizado por meio de títulos veiculados na mídia. Como exemplos: “Gravidez entre negras é mais freqüente”, “Aumento da fecundidade agrava pobreza no Rio”, “Aborto legalizado diminuiria crime no Brasil”.
Reforçando este paradigma é mister ressaltar a carência de estudos acerca das dificuldades e, sobretudo, desigualdades de direitos que pessoas de diversos estratos sócio-econômicos vivenciam na busca por assistência à concepção. Contudo, o perfil das mães brasileiras, com base no Censo de 2000, demonstra a profunda desigualdade da realidade brasileira no que diz respeito à saúde reprodutiva (IBGE).
O planejamento familiar integra as ações de atendimento global e integral à saúde, obrigando-se o Sistema Único de Saúde (SUS), em todos os níveis, a garantir programa que inclua, por exemplo, “a assistência à concepção e contracepção”. Assim, para o exercício do planejamento familiar devem ser oferecidos “todos os métodos e técnicas de concepção e contracepção cientificamente aceitos e que não coloquem em risco a vida e a saúde das pessoas, garantida a liberdade de opção” (art. 3º, parágrafo único, I e 9º). Neste sentido, o Ministério da Saúde baixou a Portaria nº 426/ instituindo, no âmbito do SUS, a Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana Assistida e dá outras providências.
As questões e especificidades relacionadas à área da reprodução humana devem ser incorporadas aos serviços e aos processos de formação dos profissionais. O acelerado desenvolvimento científico e tecnológico vem desencadeando transformações constantes nos espaços de trabalho, o que demanda profissionais com perfil mais aberto, com ampla capacidade de adaptação a mudanças e motivação para continuar aprendendo.
Struchiner e Gianella (2006) ressaltam que a formação dos profissionais e a própria geração de conhecimentos na área de saúde ainda são consideradas atividades isoladas, i.é., a educação formal e a continuada ainda são vistas como setores distintos e muitas vezes com pouca ou nenhuma interseção:
As práticas educativas raramente privilegiam um enfoque que possibilite aos grupos de estudantes e profissionais a oportunidade de vivenciar ativamente a aprendizagem como construção de conhecimento, por intermédio da reflexão sobre suas próprias experiências e a participação ativa em estudos, investigações e foros de debate. (Struchiner Gianella, 2006).
Aliado a isso, o longo tempo de defasagem entre a produção, difusão e integração de novos conhecimentos científicos à prática dos serviços de saúde. Além disso, a (ex) pressão midiática sobre as tecnologias reprodutivas incita as pessoas a acreditarem na efetividade de resolução dos problemas relativos à infertilidade.
No domínio de um serviço público de referência, o desafo não se resume a tarefa de construção compartilhada de conhecimentos científicos e de capacitar profissionais em serviço, mas extrapola a formação geral e prevê a indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão.

OBJETIVO
É, pois, discutir o caráter inclusivo da educação continuada oportunizada pela vivência integrada em três níveis de atuação – ensino, pesquisa e extensão – no Instituto de Ginecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, hospital universitário, referência no estado e na cidade do Rio de Janeiro.

MÉTODOS
Pesquisa qualitativa de cunho exploratório, de abordagem crítica (Alves-Mazzotti; Gewandsznajder, 2004). Configura-se como relato de Estudo de caso (Gil, 1999), no qual foi utilizada a Pesquisa participante (Brandão e Streck 2006; Gil, 1999).

A pesquisa participante é um importante instrumento de trabalho na construção do conhecimento. Tem como objetivo compreender, intervir e transformar a realidade. O pressuposto é simples: todo ser humano é em si mesmo e por si mesmo uma fonte original e insubstituível de saber. Neste sentido, ela oferece um repertório de experiências destinadas a superar a oposição sujeito/objeto, pesquisador/pesquisado, conhecedor/conhecido no interior dos processos de produção coletiva do saber, visando ações transformadoras. (Brandão e Streck 2006; Citeli, 2006)
Assim, há o envolvimento dos pesquisadores e pesquisados no processo de pesquisa. Responde especialmente às necessidades das classes mais carentes nas estruturas sociais contemporâneas, procurando incentivar o desenvolvimento autônomo. A restituição sistemática é o grande diferencial da pesquisa participante em relação à pesquisa tradicional. Esta restituição se dá através de uma comunicação diferenciada, em níveis diferentes de complexidade de acordo com o grau de consciência do grupo que participa da pesquisa e dos subgrupos que o compõem. Deve ser feita numa linguagem acessível a todos e provocar a auto-investigação e o controle no grupo, de forma a articular o conhecimento concreto com o geral, o regional com o nacional, e assim por diante. O Estudo de caso no IG/UFRJ inclui as atividades desenvolvidas no âmbito da integração ensino-pesquisa-extensão. Como instrumentos, além da observação participante, utiliza-se um questionário construido para pré-consulta e o prontuário médico, que permitiram a criação e alimentação de banco de dados dos casais, requisito para desdobramentos futuros.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
As atividades subjacentes ao Instituto de Ginecologia da UFRJ apóiam-se na indissociabilidade ensino-pesquisa-extensão (Souza, 2008). Ao mesmo tempo iniciam a formação profissional em saúde reprodutiva – 120 alunos de Graduação em medicina/ ano e também em cursos tais como Biologia, Serviço Social, Psicologia, Enfermagem – e proporcionam rodízio de Residentes em Ginecologia e Obstetrícia (10/ ano), além de Aperfeiçoamento em Reprodução Assistida (2 alunos/ ano, carga horária de 360h).
A formação inicial proporcionada pelos cursos de Graduação e Residência Médica é baseada na elaboração do conhecimento técnico, mas também na sensibilização à temática da infertilidade aliada ao cuidado. No dizer de Pasche (2009), pressupõe uma nova forma de gestão, que se afasta da “coisificação” das pessoas pela medicalização. Neste sentido, o cuidado não é apenas o “pronto atendimento”, o que compreenderia redução das pessoas ao fator biológico. Ao contrário, é uma relação que reconhece o usuário, suas emoções e intersubjetividades.
Para Madel Luz (2009), o cuidado supõe relação de proximidade e de preocupação com o outro. A autora ainda refere a necessidade de construção de rede de diálogos entre planos de ação, planejamento e serviços, o que, na prática, reverte na reformulação das formas tradicionais de ensino e formação em saúde.
De fato, a atuação do IG/UFRJ considera a formação de novos atores e um espaço que amplia a integração e a experiência democrática. Assim, se afasta da noção utilitarista da medicalização, na qual o sujeito é objeto passivo das relações sociais e tecnológicas e a visão do cuidado se baseia unicamente na narração da condição humana biológica como terapêutica (Martins, 2009).
Martins (2009) enfatiza o papel de destaque dos espaços de construção de saberes. Para tal, equipe multidisciplinar composta por médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, biólogos e educadores se mantém associada ao serviço. Como objetivo, desenvolver o olhar e a escuta mais sensíveis, como requisitos da atuação médica, ampliando a noção de cuidado. Além disso, considerar o conceito de equidade numa perspectiva de gênero transversal.
Para Souza (2008), trabalhar pelo bem estar social, tolerância, cooperação e multiculturalismo é uma das formas possíveis de instalação do real direito reprodutivo previsto na legislação. Outro aspecto refere-se à inclusão dos alunos no questionamento crítico da necessidade do atendimento na área de reprodução humana em rede pública, bem como da premência de padronizar algumas rotinas e de estabelecer redes de referência e contra-referência para o atendimento dos usuários.
A formação continuada se dá por meio do programa de atualização Treinamento Profissional em Reprodução Humana, vinculado à Pós-Graduação. O curso destina-se a médicos ginecologistas e objetiva aprofundar o conhecimento em reprodução humana, nas questões relacionadas à infertilidade. Consiste, assim, no treinamento teórico-prático em propedêutica básica da infertilidade e protocolos de indução ovulatória.
Na mesma perspectiva do cuidado integral, consiste basicamente no estudo clínico dos fatores de infertilidade, abarcando aspectos emocionais e riscos ocupacionais e ambientais. Embora a matrícula no Instituto de Ginecologia seja da mulher, o tratamento da infertilidade requer o acompanhamento do casal e, portanto, a propedêutica refere-se a este.
Inclui a interpretação de exames e o planejamento da terapia. Esta pressupõe protocolos de estímulo da ovulação, monitorização ultra-sonográfica e indicação de procedimentos endoscópicos e cirúrgicos. Extrapola a dimensão técnica, na medida em que considera o atendimento para além do caráter biomédico e inclui as condições de vida da população que procura o serviço – em sua maioria proveniente de classes populares.
A formação com treinamento em serviço é considerada diferencial na UFRJ. Especificamente no Treinamento Profissional em Reprodução Humana, a discussão acerca de baixa e alta complexidade e sua disponibilidade em serviços públicos no Brasil possui destaque, uma vez que há restrições ao acesso na rede pública.
Desde dezembro de 2007, o programa de atualização recebe dois alunos que se integram à rotina do ambulatório de Reprodução Humana. Assim, dedicam-se à propedêutica da infertilidade por meio do aprimoramento da anamnese e da discussão dos métodos diagnósticos, estabelecendo a conduta terapêutica apropriada. Implica na convivência do aluno de Pós-graduação com os usuários nas rotinas de atendimento e na discussão de casos clínicos com a equipe multiprofissional do serviço e os alunos de Graduação.
Como prática integradora, todos participam da discussão de artigos científicos especializados na área. É um momento de trocas e de construção de conhecimento privilegiado, uma vez que diversas temáticas podem ser consideradas, tais como aspectos emocionais relativos à infertilidade, mitos e tabus associados à reprodução assistida, fatores de risco ambiental e ocupacional, além de técnicas e procedimentos diagnósticos e terapêuticos.
A inserção de profissionais atuantes possibilita implementar uma outra dinâmica ao serviço, pois é o encontro do profissional já formado (e há muitos anos, às vezes), com o aluno em início de formação e com o usuário que busca especificamente solução para infertilidade.
A aproximação com a extensão universitária se dá por meio de acompanhamento de grupos de acolhimento multiprofissional previstos para 30 pacientes em início de tratamento/ mês, também com envolvimento de alunos de Graduação e Pós. As atividades de acolhimento são embasadas na pedagogia da problematização.
Primeiramente, a apresentação do serviço e da equipe a 30 pessoas, visando discutir expectativas de cuidados e rotinas de tratamento. Posteriormente, grupos de pré-consulta para caracterizar o perfil dos casais em início de tratamento (Costa et al, 2009).
Os principais blocos temáticos discutidos envolvem questões referentes ao tratamento propriamente dito, ao acesso e ao serviço/ técnicas disponíveis. Sobre o tratamento, dúvidas sobre procedimentos médicos (inseminação, fertilização, capacitação espermática) e questões relativas ao custo e tempo necessário para obter resultados. Quanto ao acesso, considerações acerca do longo período de espera para ingressar na instituição (Oliveira et al, 2009).
Em relação ao serviço e às técnicas disponíveis, o questionamento central em torno da necessidade de encaminhamento para outros estados, em caso de Fertilização in vitro, pois este procedimento não é disponibilizado pela rede pública do Rio de Janeiro.
Os esclarecimentos versam sobre a eficácia das técnicas e do serviço e a inviabilidade de responder satisfatoriamente a 100% dos casos. Esta discussão é de suma importância, pois os usuários apresentam altos níveis de expectativa ao chegar ao serviço (Lopes, 2007; Costa, 2008). Ademais, a explicitação de como é configurada a lista de espera nos serviços em outros estados e do que vem sendo feito para ampliar o acesso à alta complexidade junto ao Sistema Único de Saúde do Brasil.
Em suma, o grupo de acolhimento possibilita o olhar e a escuta à fala dos próprios usuários em relação aos seus anseios e dúvidas e consolida mais um espaço de construção compartilhada de saberes.

CONCLUSÃO
A formação mais plural na área de saúde vem sendo objeto de discussão (Salles, 2009). As trocas de conhecimento viabilizam o desenvolvimento/ aprimoramento de requisitos técnicos imprescindíveis - o olhar e a escuta mais sensíveis, além de incluir os alunos de Graduação e Pós-graduação no questionamento crítico da necessidade do atendimento na área de reprodução humana em rede pública.
É premente articular concretamente a relação serviço, trabalho e formação, apostando na perspectiva solidária desses conceitos (Pinheiro, 2009). Para tal, faz-se mister a interação ensino-pesquisa-extensão, palco da formação profissional no IG/UFPJ. O caráter inclusivo da educação continuada oportunizada pela vivência integrada nestes três níveis de atuação permite trocas e construção do conhecimento mais efetiva. Estas, ao mesmo tempo em que levam a uma formação mais adequada/ específica, permitem ampliação do acesso a tecnologias, num processo de justiça e igualdade social em saúde reprodutiva. Dentre os desdobramentos previstos, a elaboração de materiais educativos sobre direitos reprodutivos, escolhas e perspectivas em reprodução assistida, por meio da participação conjunta de usuários, alunos e equipe multiprofissional do IG/UFPJ. Além disso, padronizar procedimentos e instaurar rede de referência e contra-referência visando a otimização de recursos públicos e, sobretudo, o melhor atendimento da população.

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