JBRA Assist. Reprod. 2011;15(1):28-30
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2011.15.1.05

Identificação do ponto de corte para anticorpos IgG em infecção por Chlamydia trachomatis

Identification of the cutoff point for IgG antibodies in Chlamydia trachomatis infection

Mônica Canêdo Silva Maia1, Mário Silva Approbato2, Rodopiano de Souza Florêncio3, Tatiana Moreira da Silva4, Fabiana Carmo Approbato5

1Mestrado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Goiás (UFG), doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da UFG e biomédica do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (UFG) - Goiânia(GO) - Brasil
2Professor Titular Doutor/Mestre da Faculdade de Medicina e do Curso de Pós-graduação em Ciências da Saúde, Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO) - Brasil
3Professor Doutor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO), Brasil
4Mestranda do Curso de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Goiás (UFG) e biomédica do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas - UFG - Goiânia(GO), Brasil
5Mestranda do Curso de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Goiás - Goiânia(GO), Brasil

Received March 12, 2011
Accepted April 08, 2011

Laboratório de Reprodução Humana, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Goiás, Brasil.
Estudo apresentado no XIV Congresso Brasileiro de Reprodução Assistida em Fortaleza-CE (2010) na forma de pôster.

RESUMO
Objetivo: Estabelecer o ponto de corte de títulos de anticorpos IgG (imunofluorescência indireta) para Chlamydia trachomatis.
Métodos: Este é um estudo retrospectivo com 204 prontuários eletrônicos de pacientes atendidas em um centro universitário e particular de infertilidade na cidade de Goiânia, no período de 2006 a 2009. A sensibilidade e a especificidade foram calculadas pela curva ROC através do programa BioEstat® utilizando a metodologia usual.
Resultados: O melhor ponto de corte na curva ROC foi com a titulação de 1:64. Porém, consideramos que pode-se continuar utilizando como ponto de corte a titulação ≥ 1:16, por interferir pouco na sensibilidade e especificidade e por ser a atualmente utilizada no Laboratório Clínico do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás.
Conclusões: O fato de se dispor de uma população com queixa de infertilidade permitiu a utilização da curva ROC para a determinação do ponto de corte, otimizando, desta maneira, a sensibilidade e a especificidade do teste.

Palavras-chave: Curva ROC, Chlamydia trachomatis, técnica indireta de fluorescência para anticorpo.

ABSTRACT
Objective: To establish the cutoff point of antibodies IgG titres (indirect immunofluorescence) for Chlamydia trachomatis.
CMethods: This is a retrospective study with 204 electronic records of patients attended at a university and private infertility center in the city of Goiania, in the period of 2006 to 2009. The sensitivity and the specificity of the test were calculated by ROC analysis through BioEstat® software using the standard methodology.
Results: The best cutoff point of the ROC curve with the titre was 1:64. However, we believe that we can continue using a cutoff titre to ≥ 1:16 by interfering little in sensitivity and specificity and because it is currently used in the Clinical Laboratory of Hospital Clinics of the Federal University of Goias.
Conclusion:The fact of having a population complaining of infertility allowed use of the ROC curve for determining the cutoff point, optimizing, the sensitivity and specificity of the test.

Key words: ROC curve, Chlamydia trachomatis, fluorescent antibody technique indirect.

INTRODUÇÃO
A Chlamydia trachomatis é responsável pelo maior número de casos de infecções bacterianas sexualmente transmissíveis. Seu diagnóstico é motivo de preocupação em vários países do mundo devido à freqüente ausência de sintomas e principalmente pelas sequelas que pode acarretar. A infecção por clamídia difundese exponencialmente, particularmente entre jovens e adolescentes sexualmente ativos. A infecção ocorre em homens e mulheres, mas tem consequências mais graves para as mulheres (Gerbase et al., 1998; WHO, 2001).
Em mulheres, 70 a 90% das infecções genitais por C. trachomatis são assintomáticas (Beagley & Timms, 2000; Norman, 2002) e, em homens, foram relatadas taxas menores que variavam entre 25 a 60% (CDC, 2000), porém, estudos mais recentes mostram taxas bastante elevadas de infecção assintomática nos homens, entre 75% e 93,6% (Mckay et al., 2003; Sutton et al., 2003). Em mulheres podem causar, uretrites e cervicites, e sequelas que incluem doença inflamatória pélvica (DIP), gravidez ectópica, artrites reativas e, em homens, epididimites e proctites (Paavonen & Krause, 1999).
Tradicionalmente, a cultura celular vem sendo bastante considerada no diagnóstico da infecção, porém recentemente outros métodos para a detecção de antígenos e anticorpos vêm sendo utilizados como: a imunofluorescência, imunoensaio enzimático, hibridização de DNA e Polymerase Chain Reaction (PCR) (Miranda et al., 2003). O presente estudo foi conduzido para determinar o ponto de corte de títulos de anticorpos IgG da imunofluorescência indireta (IFI) para clamídia em rastrear obstrução tubária em mulheres inférteis. Optamos pela IFI, por ser um teste diagnóstico rápido, de valia e eficaz para o diagnóstico e controle epidemiológico da infecção, além de ser a técnica disponível no momento para as pacientes que buscaram atendimento no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG).

 

Figure 1
Figura 1. Distribuição das pacientes segundo o melhor ponto de sensibilidade e 1-especificidade para detecção de obstrução tubária (curva ROC) pela IFI. Laboratório de Reprodução Humana FM/HC-UFG, 2010.

 

METODOLOGIA
Este estudo constituiu em uma análise retrospectiva de 204 prontuários eletrônicos (Sisfert*) de pacientes atendidas no Laboratório de Reprodução Humana (HC/ UFG) e na Mater Clínica de Ginecologia e Obstetrícia em Goiânia. A faixa etária das pacientes foi compreendida entre 17 a 47 anos, sendo que as consultas foram realizadas entre o período de 2006 a 2009. Foram incluídas pacientes com infertilidade (critério da OMS, 1992) que realizaram exames de IFI e histerossalpingografia (avaliação do fator tubário).
O ponto de corte foi identificado pela construção de receive operator caracteristic curve (ROC) ou curva operacional relativa (Greiner et al., 1995; Kaba et al., 2001), através do melhor ponto de sensibilidade e especificidade, determinando assim a titulação do exame que fornece o maior acerto diagnóstico. Os resultados obtidos foram submetidos à análise, utilizandose o programa estatístico Bioestat 5.0® (Ayres et al., 2007). A titulação considerada significativa atualmente no Laboratório de Reprodução da UFG é ≥ 1:16.
* Banco de dados baseado na OMS desenvolvido originalmente pelo Laboratório de Reprodução Humana da UFG em Delphi (© Borland USA, 1999).

RESULTADOS
A prevalência de mulheres com sorologia significativa para C. trachomatis foi 35,3% (72/204) e a de obstrução tubária foi 25,5% (52/204). A curva ROC utilizada para determinação do ponto de corte do teste está representada na Figura 1. Esta curva apresenta a sensibilidade em função da proporção de falsos positivos (especificidade). O melhor ponto de corte na curva ROC foi com a titulação 1:64, localizado no canto superior esquerdo da curva ROC, considerado como a melhor otimização possível dos valores de sensibilidade e especificidade do teste de IFI. Para o ponto de corte definido, a sensibilidade e a especificidade do teste foram de 66,7% e 74,5%, respectivamente.

DISCUSSÃO
A sensibilidade e a especificidade são parâmetros fundamentais para a definição de um teste diagnóstico. Assim, quanto maior a sensibilidade do teste, maior a capacidade de o teste negativo afastar a doença, pois ocorre uma diminuição da probabilidade de falso negativo. Quanto maior a especificidade de um teste, maior a capacidade de o teste positivo indicar a doença, pois diminui a probabilidade de falso positivo. Um aumento da sensibilidade decorre de uma diminuição da especificidade e vice-versa. Por esta razão, a determinação do ponto de corte ou cutoff é importante. Um ponto de corte muito alto pode implicar em 100% de especificidade, uma vez que todos os testes positivos implicarão na existência da doença. No entanto alguns indivíduos com a doença podem obter resultados negativos, o que implica em baixa sensibilidade (Greiner & Gardner, 2000).
A análise ROC pode ser usada tanto para examinar o desempenho de um teste diagnóstico quanto aos possíveis valores de corte, como para comparar diferentes testes diagnósticos, a fim de escolher o melhor. De acordo com o gráfico descrito pela curva ROC, quanto maior a área definida pela curva, melhor será o teste. Nós e alguns autores (Machado et al., 2007) utilizamos como ponto de corte, para avaliar a cicatriz sorológica deixada pela C. trachomatis, a titulação 1:16.

CONCLUSÃO
Os resultados do presente estudo permitiram concluir que o melhor ponto de corte da curva ROC foi com a titulação 1:64, sendo que a sensibilidade e a especificidade do teste de IFI para rastreamento da obstrução tubária em pacientes inférteis foram de 66,7% e 74,5%, respectivamente. Entretanto, consideramos que pode-se, continuar utilizando como ponto de corte a titulação ≥1:16 sem perda significante destes dois parâmetros.

Referências bibliográficas
Ayres M, Ayres-J R, Ayres DLM, Santos AS. BioEstat: Aplicações Estatísticas nas Áreas das Ciências Biológicas e Médicas. Manaus: Sociedade Civil Mamirauá; 2007.

Beagley KW, Timms P. Chlamydia trachomatis infection: incidence, health costs and prospects for vaccine development. J Reprod Immunol. 2000; 48: 47-68.

Centers for Disease Control. Chlamydia (STD). Some Facts about Chlamydia. April, 2000. Disponível em: http://www.cdc.gov/health/diseases.htm, Jan/2011.

Gerbase AC, Rowley JT, Mertens TE. Global epidemiology of sexually transmitted diseases. The Lancet. 1998; 351(3 Supppl): S2-4.

Greiner M, Sohr D, Gobel P. A modified ROC analysis for the selection of cut-off values and the definition of intermediate results of serodiagnostic tests. J Immunological Methods. 1995; 185: 123-32.

Greiner M, Gardner IA. Epidemiologic issues in the validation of veterinary diagnostic tests. Prev Vet Med. 2000; 45: 3-22.

Kaba J, Kutschke L, Gerlach G-F. Development of an ELISA for the diagnosis of Corynebacterium pseudotuberculosis infections in goats. Vet Microbiol. 2001; 78: 155-63.

Machado ACS, Guimarães EMB, Sakurai E, Fioravante FCR, Amaral WN, Alves FC. High Titers of Chlamydia trachomatis Antibodies in Brazilian Women with Tubal Occlusion or Previous Ectopic Pregnancy. Infect Dis Obstet Gynecol. 2007; 28416.

Mckay L, Clery H, Carrick-Anderson, Hollis S, Scott G. Genital Chlamydia trachomatis infection in a subgroup of young men in the UK. The Lancet. 2003; 361: 1792.

Miranda AE, Gadelha AMJ, Passos MRL. Impacto da infecção pela Chlamydia trachomatis na saúde reprodutiva. DST - J bras Doenças Sex Transm. 2003; 15(1): 53-8.

Norman J. Epidemiology of female genital Chlamydia trachomatis infections. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2002; 16(6): 775-87.

Organización Mundial de la Salud (OMS). Adelantos Recientes en Materia de Concepción con Ayuda Medica. Série Informes Técnicos, 820. Genebra, 1992.

Paavonen J, Krause WE. Chlamydia trachomatis: impact on human reproduction. Europ Soc of Human Reprod and Embriol. 1999; 5(5): 433-47.

Sutton D, Whitehouse RW, Jenkins JPR, Davies ER, Murfitt J, Lees WR. Textbook of radiology and imaging. 6th ed. New York: Churchill Livingstone; 1998. p. 1265-72.

World Health Organization. Department of HIV/AIDS. Global prevalence and incidence of selected curable sexually transmitted infections. Geneva, 2001. Disponível em: http://www.who.int/docstore/hiv/GRSTI/003.htm, Jan/2011.