JBRA Assist. Reprod. 2011;15(6):28-29
ARTIGO DE OPINIÃO

doi: 10.5935/1518-0557.2011.15.6.06

Qualidade da redação científica no JBRA Assisted Reproduction

Bruno Ramalho de Carvalho1

1Genesis - Centro de Assistência em Reprodução Humana, Brasília, Distrito Federal, Brasil

Received October 12, 2011
Accepted October 18, 2011

Transmitir em poucas páginas e com fidedignidade tudo o que se pensa, realiza e conclui em uma pesquisa científica é feito que tangencia a arte e desafia a técnica, mas que encontra pilares no desenvolvimento pelo treinamento, em curva contínua de aprendizado. Fazê-lo de forma transparente é condição sine qua non para a correta compreensão dos resultados por leitor qualquer, que permita reproduzí-los ou incorporá-los ao conhecimento explícito, de forma a traduzí-los em benefícios práticos.

A redação científica inadequada dificulta a avaliação dos resultados da pesquisa, impossibilita a avaliação de sua consistência e pode condenar o estudo à irreprodutibilidade, o que, na seara da ciência, sepulta sua credibilidade. Frente à inconsistência dos registros científicos em periódicos médicos gerais e especializados, frequentemente constatada, editores e pesquisadores em epidemiologia, estatística e metodologia têm se reunido nos últimos 15 anos para a elaboração de listas de verificação de itens importantes para a boa redação científica. Centenas de revistas internacionais já adotam tais recomendações em seus guias para autores.

O documento Consolidated Standards of Reporting Trials (CONSORT), desenvolvido em 1996 (Begg et al, 1996) e recentemente atualizado (Moher et al, 2010), foi o primeiro a estabelecer diretrizes para a melhoria da redação, com foco em ensaios clínicos randomizados, oferecendo ampla lista de verificação de itens essenciais ao registro adequado, assim como o fluxograma dos passos necessários para o julgamento ad libitum da confiança e validade dos resultados.

Também em 1996, a conferência para estabelecimento do Quality of Reporting of Meta-analyses (QUOROM) padronizou recomendações para melhorar a qualidade dos registros de meta-análises de ensaios clínicos aleatórios (Moher et al, 1999), documento que, revisto recentemente, incorporou as revisões sistemáticas à sigla e foi renomeado de PRISMA - Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses (Moher et al, 2009).

Em 1999, na tentativa de repetir os bons resultados das iniciativas antecessoras, pesquisadores reuniram-se em Roma, durante colóquio promovido pela Cochrane Collaboration, para tentar diminuir a baixa qualidade metodológica e a falta de padronização de registros avaliando testes diagnósticos, redigindo os Standards for Reporting of Diagnostic Accuracy - STARD Statement (Bossuit et al, 2003).

Por fim, frente à comum ausência ou falta de clareza na exposição de informações importantes em estudos observacionais publicados em periódicos de diversas especialidades (Pococck et al, 2004), nasceu a iniciativa Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE), que focou suas recomendações no que deve constar no registro de estudos observacionais de coorte, transversais ou de caso-controle (Vandenbroucke et al, 2007; von Elm et al, 2007).

É importante compreender que os documentos citados não visam formalizar a descrição de estudos ou limitar o uso de ferramentas estilísticas, que dão identidade aos estudos e os caracterizam como produtos de determinados grupos ou autores. Os itens de verificação listados não precisam, por exemplo, constar na ordem em que são apresentados nos statements e a distribuição das informações necessárias ao longo do texto cabe ao autor, permanecendo apenas o crivo do editor, a quem se faculta a imposição do estilo da revista pretendida. Importa que o leitor compreenda os passos dados para realização do estudo, para que possa alinhar suas conclusões às conclusões do pesquisador e idealizar novos estudos para responder às lacunas deixadas. O processo de eleição, recrutamento e exclusão dos sujeitos, o cálculo do tamanho da amostra e poder que a justifique, os acertos e dificuldades técnicas identificados ao longo do trabalho, as inovações e o reconhecimento das limitações do estudo devem encontrar clarividência na sua redação.

O crescimento da atividade científica no Brasil é notório, assim como dos nossos veículos de divulgação, como o JBRA - Assisted Reproduction, que recentemente se tornou o principal veículo de divulgação da nossa especialidade na América Latina, a partir de sua eleição como documento oficial da Red Latinoamericana de Reproducción Asistida. É hora de pensarmos em aprimorar nossa redação, ainda que não como regra, aproximando nossas publicações científicas das recomendações contidas nas tantas diretrizes mencionadas. Dessa forma, aproximarnos-emos do reconhecimento pela comunidade internacional e, quem sabe, abriremos portas para participações dos encontros que discutirão diretrizes futuras.

LEITURAS SUPLEMENTARES
Begg C, Cho M, Eastwood S, Horton R, Moher D, Olkin I, Pitkin R, Rennie D, Schulz KF, Simel D, Stroup DF. Improving the quality of reporting of randomized controlled trials. the CONSORT statement. JAMA. 1996; 276:637-9.

Bossuyt PM, Reitsma JB, Bruns DE, Gatsonis CA, Glasziou PP, Irwig LM, Lijmer JG, Moher D, Rennie D, de Vet HC; Towards complete and accurate reporting of studies of diagnostic accuracy: the STARD initiative. BMJ. 2003;326(7379):41-4.

Moher D, Cook DJ, Eastwood S, Olkin I, Rennie D, Stroup DF. Improving the quality of reports of meta-analyses of randomised controlled trials: the QUOROM statement. Lancet. 1999;354(9193):1896-900.

Moher D, Liberati A, Tetzlaff J, Altman DG, The PRISMA Group. Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses: The PRISMA Statement. PLoS Med. 2009;6(7): e1000097.

Moher D, Hopewell S, Schulz KF, Montori V, Gøtzsche PC, Devereaux PJ, Elbourne D, Egger M, Altman DG; Consolidated Standards of Reporting Trials Group. CONSORT 2010 Explanation and Elaboration: Updated guidelines for reporting parallel group randomised trials. J Clin Epidemiol. 2010;63(8):e1-37.

Pocock SJ, Collier TJ, Dandreo KJ, de Stavola BL, Goldman MB, Kalish LA, Kasten LE, McCormack VA. Issues in the reporting of epidemiological studies: a survey of recent practice. BMJ. 2004;329(7471):883.

Vandenbroucke JP, von Elm E, Altman DG, Gøtzsche PC, Mulrow CD, Pocock SJ, Poole C, Schlesselman JJ, Egger M; STROBE Initiative. Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE): Explanation and Elaboration. PLoS Med. 2007;4(10):e297.

Von Elm E, Altman DG, Egger M, Pocock SJ, Gotzsche PC, Vanderbroucke JP; STROBE Initiative. The Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE) Statement: Guidelines for Reporting Observational Studies. PLoS Med. 2007;4(10):e296.