JBRA Assist. Reprod. 2011;15(6):28-29
ARTIGO DE OPINIÃO
doi: 10.5935/1518-0557.2011.15.6.06
1Genesis - Centro de Assistência em Reprodução Humana, Brasília, Distrito Federal, Brasil
Transmitir em poucas páginas e com fidedignidade tudo o que se pensa, realiza e conclui em uma pesquisa científica é feito que tangencia a arte e desafia a técnica, mas que encontra pilares no desenvolvimento pelo treinamento, em curva contínua de aprendizado. Fazê-lo de forma transparente é condição sine qua non para a correta compreensão dos resultados por leitor qualquer, que permita reproduzí-los ou incorporá-los ao conhecimento explícito, de forma a traduzí-los em benefícios práticos.
A redação científica inadequada dificulta a avaliação dos resultados da pesquisa, impossibilita a avaliação de sua consistência e pode condenar o estudo à irreprodutibilidade, o que, na seara da ciência, sepulta sua credibilidade. Frente à inconsistência dos registros científicos em periódicos médicos gerais e especializados, frequentemente constatada, editores e pesquisadores em epidemiologia, estatística e metodologia têm se reunido nos últimos 15 anos para a elaboração de listas de verificação de itens importantes para a boa redação científica. Centenas de revistas internacionais já adotam tais recomendações em seus guias para autores.
O documento Consolidated Standards of Reporting Trials (CONSORT), desenvolvido em 1996 (Begg et al, 1996) e recentemente atualizado (Moher et al, 2010), foi o primeiro a estabelecer diretrizes para a melhoria da redação, com foco em ensaios clínicos randomizados, oferecendo ampla lista de verificação de itens essenciais ao registro adequado, assim como o fluxograma dos passos necessários para o julgamento ad libitum da confiança e validade dos resultados.
Também em 1996, a conferência para estabelecimento do Quality of Reporting of Meta-analyses (QUOROM) padronizou recomendações para melhorar a qualidade dos registros de meta-análises de ensaios clínicos aleatórios (Moher et al, 1999), documento que, revisto recentemente, incorporou as revisões sistemáticas à sigla e foi renomeado de PRISMA - Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses (Moher et al, 2009).
Em 1999, na tentativa de repetir os bons resultados das iniciativas antecessoras, pesquisadores reuniram-se em Roma, durante colóquio promovido pela Cochrane Collaboration, para tentar diminuir a baixa qualidade metodológica e a falta de padronização de registros avaliando testes diagnósticos, redigindo os Standards for Reporting of Diagnostic Accuracy - STARD Statement (Bossuit et al, 2003).
Por fim, frente à comum ausência ou falta de clareza na exposição de informações importantes em estudos observacionais publicados em periódicos de diversas especialidades (Pococck et al, 2004), nasceu a iniciativa Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE), que focou suas recomendações no que deve constar no registro de estudos observacionais de coorte, transversais ou de caso-controle (Vandenbroucke et al, 2007; von Elm et al, 2007).
É importante compreender que os documentos citados não visam formalizar a descrição de estudos ou limitar o uso de ferramentas estilísticas, que dão identidade aos estudos e os caracterizam como produtos de determinados grupos ou autores. Os itens de verificação listados não precisam, por exemplo, constar na ordem em que são apresentados nos statements e a distribuição das informações necessárias ao longo do texto cabe ao autor, permanecendo apenas o crivo do editor, a quem se faculta a imposição do estilo da revista pretendida. Importa que o leitor compreenda os passos dados para realização do estudo, para que possa alinhar suas conclusões às conclusões do pesquisador e idealizar novos estudos para responder às lacunas deixadas. O processo de eleição, recrutamento e exclusão dos sujeitos, o cálculo do tamanho da amostra e poder que a justifique, os acertos e dificuldades técnicas identificados ao longo do trabalho, as inovações e o reconhecimento das limitações do estudo devem encontrar clarividência na sua redação.
O crescimento da atividade científica no Brasil é notório, assim como dos nossos veículos de divulgação, como o JBRA - Assisted Reproduction, que recentemente se tornou o principal veículo de divulgação da nossa especialidade na América Latina, a partir de sua eleição como documento oficial da Red Latinoamericana de Reproducción Asistida. É hora de pensarmos em aprimorar nossa redação, ainda que não como regra, aproximando nossas publicações científicas das recomendações contidas nas tantas diretrizes mencionadas. Dessa forma, aproximarnos-emos do reconhecimento pela comunidade internacional e, quem sabe, abriremos portas para participações dos encontros que discutirão diretrizes futuras.