JBRA Assist. Reprod. 2011;15(6):30-35
ARTIGO DE REVISÃO
doi: 10.5935/1518-0557.2011.15.6.07
1Mestranda do Curso de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Goiás (UFG) e biomédica do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (UFG) - Goiânia(GO) - Brasil
2Professor Titular Doutor/Mestre da Faculdade de Medicina e do Curso de Pós-graduação em Ciências da Saúde, Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO) - Brasil
3Professor Doutor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO), Brasil
4Mestranda do Curso de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Goiás (UFG) e biomédica do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas - UFG - Goiânia(GO), Brasil
5Mestranda do Curso de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Goiás - Goiânia(GO), Brasil
Instituição:
Laboratório de Reprodução Humana, Hospital das Clínicas, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Goiás, Brasil.
RESUMO
Infecções causadas por Chlamydia trachomatis são recentemente reconhecidas como as mais prevalentes e estão entre as mais prejudiciais doenças sexualmente transmissíveis no mundo. A ausência de sintomas dificulta o diagnóstico clinico das infecções clamidiais. A infecção por Chlamydia trachomatis é um grande problema de saúde pública e que não raramente tem como conseqüência a infertilidade. Um dos fatores de risco para a infecção é a prática sexual entre adolescentes. As complicações e seqüelas decorrentes de uma infecção clamidiana, quando determina doença inflamatória pélvica aguda, podem ocasionar obstrução tubária, aderências pélvicas, dor pélvica crônica, esterilidade permanente e gravidez ectópica. Em casais que buscam tratamento para infertilidade, a detecção de infecção por Chlamydia deveria ser levada em consideração como procedimento de rotina, antecedendo os métodos diagnósticos invasivos.
Palavras-chave: Chlamydia trachomatis, infecção, infertilidade.
ABSTRACT
Infections caused by Chlamydia trachomatis are now recognized as the most prevalent and are among the most damaging of all sexually transmitted diseases worldwide. Lack of symptoms makes clinical diagnosis of chlamydial infection difficult. The infection Chlamydia trachomatis is a major public health problem and not rarely as a result the infertility. One of the main risks of infection is the sexual practice among adolescents. The subsequent complications of a Chlamydia infection can reach great proportions when a Pelvic Inflammatory Disease occurs, causing blockage of the Fallopian tubes, pelvic adhesions, chronic pelvic pain, permanent sterility and ectopic pregnancy. In couples that search infertility treatment the detection of a Chlamydia infection should be taken in consideration as routine procedure, preceding invasive diagnostic methods.
Keywords: Chlamydia trachomatis, infection, infertility.
1. INTRODUÇÃO
A Chlamydia trachomatis foi primeiramente identificada em 1907 por Halberstaedter e Prowazec, mediante a identificação de inclusões citoplasmáticas em material proveniente da conjuntiva de orangotangos inoculados com tracoma humano (MS - CNDST/AIDS, 1999). Em 1911, essas inclusões citoplasmáticas foram associadas a uretrites não gonocócicas. Na década de 30, foram relacionadas ao linfogranuloma venéreo (MS - DST/AIDS, 1997). A partir da década de 1980, quando se estabeleceu o papel desses agentes na etiologia da salpinginte aguda, houve notável incremento da importância atribuída a esses microorganismos, principalmente que desses estados infecciosos podem advir numerosas seqüelas (WHO, 2001).
Infecções causadas por C. trachomatis são recentemente reconhecidas como as mais prevalentes e estão entre as mais prejudiciais doenças sexualmente transmissíveis (DST) no mundo, constituindo-se na atualidade, importante problema de saúde pública, por causar grande impacto no sistema reprodutor das mulheres (Seadi et al., 2002). É responsável por aproximadamente 90 milhões de novos casos por ano no mundo, e está relacionada à esterilidade em número bastante significativo de mulheres (Giraldo & Simões, 2000). Mais de 70% das mulheres com lesão tubária apresentam anticorpos circulantes para clamídia (Glina, 1997).
A transmissão ocorre predominantemente por contato sexual e sua taxa de contágio é de 40% de homem para mulher e 32% da mulher para o homem. Associase a Neisseria gonorrhoeae em 20 a 40% dos casos de homens e 30 a 50% em mulheres (Farina et al., 2002; Duarte, 2004; Datta et al., 2007).
Nos serviços públicos, são raros os locais que oferecem sistematicamente a pesquisa deste patógeno e, nos serviços privados, normalmente se pesquisa C. trachomatis em casos sintomáticos ou quando um dos parceiros sexuais relata a presença da bactéria. Mesmo nessas situações, a pesquisa ainda não faz parte da rotina da maioria dos ginecologistas, urologistas ou médicos que atendem DST (Miranda et al., 2003).
O objetivo desse trabalho é a revisão dos aspectos relevantes da epidemiologia, diagnóstico e tratamento das infecções por C. trachomatis, na tentativa de melhor controlar a cura e o ciclo de transmissão.
2. ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS
Em 1999, segundo a Organização Mundial de Saúde, a estimativa de novos casos de infecção em adultos era de 92 milhões, sendo que 9,5 milhões ocorreriam na América Latina e Caribe. Nos Estados Unidos, estima-se entre 3 e 4 milhões o número de casos novos a cada ano. No Brasil, a Coordenação do Programa Nacional de DST/A do Ministério da Saúde estima a ocorrência de 1.967.200 casos novos a cada ano, verificando-se uma incidência de 3,5% no sexo feminino e 2,32% no sexo masculino. As estimativas dos centros de controle de doenças (CDC), nos EUA, mostram que a infecção pela clamídia está tão amplamente disseminada que existem mais casos novos desta doença do que qualquer outra DST, como sífilis, gonorréia, HPV, herpes e AIDS (Passos et al., 2003).
Nos EUA, desde 1990 vigora a lei de notificação compulsória de casos de infecção por C. trachomatis. No ano de 2002, foram reportados 834.555 casos (296,5 casos/100.000 habitantes). Se o aumento do número de casos reportados, ano após ano desde 1987 reflete, por um lado, a expansão dos programas de triagem e notificação naquele país e o desenvolvimento e o uso de testes diagnósticos mais sensíveis, verifica-se por um lado, que as taxas de infecção ainda permanecem elevadas (CDC, STD Surveillance, 2002).
No Brasil, dados estatísticos são escassos, provavelmente por não ser uma doença sexualmente transmissível de notificação compulsória. Os dados publicados na literatura representam estudos isolados, realizados em populações ou serviços específicos, porém mostram a importância dessa infecção no país. A grande variação pode estar associada com a utilização de diferentes testes no diagnóstico laboratorial e de populações com diferentes comportamentos de risco e características sócio-demográficas, sintomáticas ou não, o que dificulta a comparação dos resultados (MS - DST/AIDS, 2001).
As maiores taxas notificadas no ano de 2001 foram para adolescentes do sexo feminino (15 e 19 anos) e adultas jovens (20 e 24 anos). Os estudos internacionais de prevalência da infecção do trato genital inferior em mulheres grávidas mostram percentuais variáveis entre 4,7% a 18,8% (Andrews et al., 2000; Workowski et al., 2002; Kadzhaia et al., 2005; Shankar et al., 2006). A prevalência geral de infecção é em torno de 15%, podendo variar de 8 a 40% de acordo com a população estudada. As taxas mais altas estão relacionadas a grupos de risco (adolescência, promiscuidade, antecedentes de DST, parceiro com uretrite não gonocócica, presença de ectopia cervical e/ou cervicite mucopurulenta) (Michelon et al., 2005).
Kahn et al. (2005) realizou um estudo entre 1997 a 2002 nos Estados Unidos, demonstrando a prevalência de infecção por C. trachomatis em 15,6% das 33.619 mulheres e 5,9% dos 98.296 homens atendidos, sendo que 54,0% das mulheres e 51,0% dos homens estavam co-infectados por N. gonorrhoeae. Na cidade de Manaus, a prevalência estimada em 121 amostras de mulheres atendidas em um serviço de DST foi de 20,7% (Santos et al., 2003).
Ramos et al. (2003) realizaram um estudo de base populacional em mulheres residentes em uma vila popular, que revelou uma baixa prevalência, da ordem de 0,59%. Pesquisando 79 pacientes masculinos de uma clínica de DST, deste mesmo grupo, observou-se uma positividade de 41,9% dos casos (Ramos et al., 2002). Outro estudo de base populacional realizado em Vitória (ES) em mulheres adolescentes sexualmente ativas evidenciou a prevalência de 12,2% neste grupo (Miranda et al., 2004). Na cidade de Goiânia (GO), Araújo et al. (2006) encontraram uma prevalência de 19,6% em mulheres jovens, freqüentadoras de clínicas ginecológicas (Araújo et al., 2006).
3. FATORES DE RISCO
O início precoce da atividade sexual, a multiplicidade de parceiros sexuais, ter tido mais que um parceiro sexual nos últimos 90 dias, ser solteira, não uso do preservativo nas relações sexuais, uso de contraceptivos hormonais orais por mulheres jovens, nuliparidade, uso de ducha vaginal, presença de ectopia cervical, hábito de fumar, passado de DST e falta de conhecimento sobre as DST/ Aids, são fatores comportamentais importantes que se associam à infecção por clamídia (Weir, 2004).
A pesquisa de base populacional intitulada “Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira”, coordenada pelo Programa Nacional de DST e AIDS (PN-DST/ AIDS), em 2004, mostrou que mais de 70% da população com idade entre 15 e 24 anos eram sexualmente ativos e que 36% tiveram iniciação sexual com menos de 15 anos. Cerca de 16% dos indivíduos dessa faixa etária relatou mais de dez parcerias sexuais na vida, identificando em quase 7% da amostra mais de cinco parcerias sexuais no último ano. Se for considerada a população pesquisada de 15 a 54 anos, cerca de 12% das mulheres nunca haviam sido submetidas a um exame ginecológico e 4% dos homens tiveram corrimento uretral, mas não receberam tratamento. Com relação ao uso de preservativos, somente 38,4% relataram o uso na última relação sexual, sendo a adesão maior entre os homens. Porém, quando indagados sobre o uso com parceria fixa, apenas um quarto das pessoas referiu regularidade. Mesmo com parceria eventual, apenas metade dos participantes relatou uso regular de preservativos, dados que demonstram a vulnerabilidade da população às DST e à infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) (MS - PNDST/ AIDS, 2006).
De acordo com a literatura, o mais importante dos fatores de risco é a idade, principalmente a dos adolescentes (10-19 anos) e jovens (20-24 anos), que são os grupos mais afetados. A prevalência nestes grupos excede os 10,0% podendo atingir índices de 40,0% em clínicas de DST. Um dos fatores mais notórios para explicar estes resultados são as diferenças anatômicas na cérvice uterina de mulheres jovens, favorecendo a exposição ao agente etiológico (Black, 1997).
4. CONSEQÜÊNCIAS NA VIDA REPRODUTIVA DA MULHER
O maior impacto da infecção clamidial se dá no aparelho reprodutor feminino (Black, 1997). A ausência de sintomas dificulta o diagnóstico clínico das infecções clamidiais. As complicações e seqüelas decorrentes de uma infecção clamidiana, quando determina DIP (doença inflamatória pélvica), podem ocasionar obstrução tubária, aderências pélvicas, dor pélvica crônica, esterilidade permanente e gravidez ectópica. A DIP causada pela C. trachomatis é a causa evitável mais importante de infertilidade. Das mulheres com infecção geniturinária por clamídia, 20% desenvolverá DIP, 4% dor pélvica crônica, 3% infertilidade e 2% resultados gestacionais adversos. A imunopatogênese da infecção é um dos pontos focais principais das pesquisas atuais. As estratégias atuais de controle das infecções dependendo de rastrear as pacientes sintomáticas, não teve êxito. O desenvolvimento da biologia molecular para o diagnóstico foi um importante avanço para os programas de rastreamento populacional (Paavonen & Eggert-Kruse, 1999).
A associação entre anticorpos para C. trachomatis e obstrução tubária é conhecida desde 1979 (Punnonen et al., 1979). Mais de 50% das mulheres com oclusão tubária apresentam evidência sorológica de infecção prévia por C. trachomatis (Warford, 1999). A infecção tubária persistente é comum, mesmo após a antibioticoterapia. Fatores imunopatológicos do hospedeiro estariam associados à evolução para DIP (Mardh, 2004).
Os sintomas, quando ocorrem, são corrimento vaginal e disúria. Na vigência de DIP, os sintomas podem ser ausentes ou súbitos, caracterizados por dor uterina e ou pélvica. Os sinais clínicos são cervicite mucopurulenta, friabilidade cervical, piúria com cultura negativa e mais de dez leucócitos polimorfonucleares (PMNS) por esfregaço de Gram (Black, 1997). O sintoma predominante na vigência de peri-hepatite é a dor abdominal superior. Esta condição ocorre quase que exclusivamente em mulheres cujo agente infeccioso espalhou-se para a superfície do fígado a partir das trompas de falópio inflamadas (Warford, 1999).
Em gestantes, a infecção varia de 2 a 35% e estas apresentam risco aumentado de natimortos e de morte neonatal, assim como de DIP no pós-parto. Os períodos gestacionais são significativamente mais curtos na vigência de infecção. A infecção por C. trachomatis é a causa mais comum de conjuntivite neonatal e uma das causas de pneumonia na primeira infância (Black, 1997).
Infecções por C. trachomatis estão associadas ao risco aumentado de transmissão do vírus HIV. Isto se dá pela reação inflamatória causada pela infecção clamidial que promove o acesso de linfócitos CD4 ao local. A concomitância de infecção clamidial e HIV resultam em aumento da replicação viral (Mahony et al., 2003). De um modo geral, infecções do trato genital aumentam o risco de aquisição do HIV e outras DST em cerca de 10 vezes. Por outro lado, a prevenção e tratamento das DST podem reduzir a infecção pelo HIV em 40% (Black, 1997).
5. MÉTODOS DIAGNÓSTICOS
O diagnóstico da infecção pela C. trachomatis ainda é crítico, devido à freqüência de infecções assintomáticas, podendo ser detectada por vários procedimentos, que incluem desde a cultura da bactéria até os testes mais atuais de amplificação de DNA. Todos eles apresentam vantagens e desvantagens. A escolha de um método para diagnóstico da infecção clamidial deve considerar a disponibilidade de um teste específico, os custos, o desempenho no laboratório e a prevalência da infecção clamidial na população estudada (Hammerschlag, 1999; Nelson & Helfand, 2001).
As clamídias são bactérias relativamente lábeis e a viabilidade destas podem ser mantidas conservando-se a amostra clínica refrigerada e minimizando-se o tempo entre coleta e o processamento no laboratório. A realização do cultivo celular de C. trachomatis é recomendada exclusivamente com amostras de sítios de infecção como a endocérvice, a urretra anterior masculina e a conjuntivite. Secreções abundantes e corrimentos devem ser retirados antes da coleta a fim de eliminarem-se agentes inibidores ou contaminantes. Para envio e conservação, a amostra é colocada em meios de transporte específicos (Black, 1997; Mahony et al., 2003).
As amostras inadequadas afetam as taxas de positividade, a sensibilidade e especificidade não só da cultura, mas também dos ensaios imunoenzimáticos e da maioria dos testes de imunofluorescência. Mesmo as tecnologias mais sensíveis, como os testes de amplificação do DNA, que não requerem corpos elementares intactos, uma vez que poucas cópias de DNA são suficientes para um resultado positivo, são afetadas pela qualidade da amostra (Welsh et al., 1997).
Os testes mais recentes baseiam-se na amplificação de ácidos nucléicos, como a reação em cadeia da polimerase (PCR), a reação em cadeia da ligase (LCR), a amplificação mediada pela transcrição (TMA) e o “strand displacement assay” (SDA) (Stary, 2002). Estes testes baseiam-se na amplificação de seqüências alvo específicas de um único gene.
5.1. Cultura celular
A cultura da secreção endocervical ou uretral foi durante muitos anos considerados o “padrão ouro” para o diagnóstico da infecção clamidial, devido a sua especificidade de 100%. A partir da década de 80, novos testes foram desenvolvidos visando superar as limitações da cultura. Os primeiros testes foram os ensaios de detecção de antígenos, como a imunofluorescência direta (IFD) e os ensaios imunoenzimáticos (EIA) seguidos pelos ensaios de detecção de ácidos nucléicos (hibridização, captura híbrida) (Black, 1997; Stary, 1999).A cultura é realizada pela inoculação do espécime em monocamadas de cultura celular. As linhagens celulares mais utilizadas são as de McCoy, BGMK e HeLa 299. O procedimento envolve a visualização, por imunofluorescência ou coloração com Giemsa ou iodo, das inclusões citoplasmáticas após 48 a 72 horas de incubação. O uso de anticorpos fluorescentes grupo-específicos permite uma caracterização morfológica e imunológica, constituindose no método de escolha para identificação de isolados de C. trachomatis (CDC, STD Surveillance, 2002).A vantagem da cultura é a baixa probabilidade de contaminação e a preservação do microrganismo para estudos adicionais, como o teste de suscetibilidade à terapia antimicrobiana e genotipagem (Black, 1997). Devido à alta especificidade, até meados de 1998, era a única metodologia aceita para fins médico-legais em suspeita de estupro e abuso sexual, conforme recomendação do CDC. Se a cultura não for disponível, pode-se utilizar, para este fim, um teste de amplificação de ácido nucléico, desde que seja confirmado por outro teste de princípio diferente (CDC, 1998).Como desvantagem é um procedimento dispendioso, demorado (3 a 7 dias) e requer pessoal técnico especializado, sendo atualmente restrito a laboratórios de referência (Black, 1997).De acordo com o Guia da Prática Clínica, publicado pelo CDC, um diagnóstico é definitivo quando a cultura é positiva ou um teste não-cultural é confirmado por um segundo teste não-cultural (CDC, 1991). A associação de duas técnicas não-culturais positivas é aceita como padrãoouro expandido.
5.2. Pesquisa de anticorpos específicos
Os métodos sorológicos mais comuns são: a fixação do complemento, a imunofluorescência indireta (IFI), que utiliza células infectadas com o sorotipo L2, e o enzimaimunoensaio heterogêneo. Estes utilizam antígenos grupo-específicos e/ou espécie-específicos para detectar imunoglobulinas de classe IgG, IgA e IgM individualmente, ou classes de imunoglobulinas.A presença de anticorpo IgM e/ou IgA e um aumento significativo (pelo menos dois títulos) de IgG entre uma amostra colhida na fase aguda e outra na convalescente evidenciam uma infecção recente (Warford, 1999).O teste de MIF (microimunofluorescência) desenvolvido por Wang é o método de escolha para o diagnóstico de infecção clamidial. O princípio da técnica é o mesmo da IFI, mas difere nos antígenos, que são utilizados em quantidades mínimas, representando todas as espécies e sorotipos da clamídia (agrupados opcionalmente por afinidades). É considerada a mais sensível entre as técnicas sorológicas, porém é laboriosa e de alto custo (Warford et al., 1999).Pesquisa realizada na Holanda, envolvendo 295 pacientes inférteis, compara o teste de anticorpos para clamídia com a histerossalpingografia (HSG) para a avaliação do fator tubário, mostrando iguais valores preditivos entre os dois métodos. O teste de anticorpos para clamídia causa mínimo desconforto à paciente em comparação com a HSG e oferece resultados semelhantes, servindo como meio de triagem para a indicação da laparoscopia (Veenemans, 2002).Os métodos sorológicos, embora extensamente utilizados, não são recomendados para o diagnóstico de infecções urogenitais por causa da freqüência de exposição aos sorotipos da C. trachomatis e pela ocorrência de reações cruzadas com outras espécies, especialmente a C. pneumoniae, tornando difícil valorizar determinações de anticorpo em uma única amostra (Grayston, 1992). Estes ensaios, no entanto, encontram aplicabilidade no diagnóstico de infecção clamidial em neonatos (detecção de IgM) (Numazaki, 1998) e na investigação de infecções sistêmicas como pneumonia, linfogranuloma venéreo, fator de infertilidade tubária e gravidez ectópica, quando seus títulos apresentam-se elevados (Mahony et al., 2003). Os métodos sorológicos encontram sua melhor aplicação em levantamentos epidemiológicos (Black, 1997; Warford et al., 1999).
5.3. Pesquisa de antígenos
Os testes de detecção antigênica apresentam sensibilidade que varia entre 55 a 96% para a imunofluorescência direta (IFD) e entre 44 a 92% para ensaio imunoenzimático (EIA). A técnica de IFD requer microscopista treinado capaz de distinguir entre partículas clamidiais e material não específico fluorescente (Black, 1997; Warford et al, 1999). A experiência na interpretação da imunofluorescência é fundamental, porque a ligação inespecífica do anticorpo a outros microrganismos pode ocorrer, levando a um resultado falso-positivo (Hall, 1997).Além dos testes de detecção direta de antígenos usuais de C. trachomatis existem ainda, vários testes comerciais denominados testes rápidos, de baixo custo, adaptados para execução fora do laboratório e para liberação imediata do resultado a fim de instituir tratamento ao paciente ainda no momento da consulta. Esses testes apresentam sensibilidade variável de 60 a 70%, comparando às técnicas de amplificação de ácidos nucléicos, e especificidade inferior a 100% (Mahony et al., 2003).
5.4. Técnicas moleculares
Devido à alta prevalência da infecção clamidial, o mercado crescente e a deficiência dos métodos tradicionais do diagnóstico deste agente etiológico, um grande número de testes comerciais, que envolvem a detecção de ácidos nucléicos, têm sido desenvolvidos.O desenvolvimento de testes baseados na tecnologia de amplificação de ácidos nucléicos foi o avanço mais importante no campo do diagnostico clamidial desde o isolamento do organismo em cultura de células in vitro.Cinco métodos comerciais de amplificação de ácidos nucléicos estão licenciados pelo FDA (Food and Drug Administration) para detecção de C. trachomatis a partir de amostras clínicas: reação em cadeia da polimerase (PCR) (Amplicor C. trachomatis Assay - Roche Molecular Systems), a reação em cadeia da ligase (LCR) (LCX C. trachomatis Assay -Abbott Laboratories) e o amplificação mediada pela transcrição (TMA) AMP-CT e, APTIMA Combo 2 (Gen-Probe); e , amplificação por deslocamneto da cadeia (SDA) Probe Tec (BD Diagnostics Systems) (Black, 1997; Mahony et al., 2003).A técnica que está sendo utilizada há mais tempo é a PCR (Hallsworth et al., 1995). A especificidade e a sensibilidade da técnica de PCR dependem dos primers utilizados, da técnica de referência, do tipo de material, da população a ser analisada, da preparação da amostra e do método de detecção do produto amplificado, considerando-se a presença de inibidores (Toye et al., 1998). Os métodos moleculares trouxeram um incremento de 20-30% de eficiência na identificação de pacientes infectados com relação às outras metodologias (Black, 1997; Warford et al., 1999). Em decorrência, o teste “padrão-ouro”, que anteriormente era o cultivo celular, ganhou expansão. O padrão ouro atual para diagnóstico de infecção por C. trachomatis inclui um teste de amplificação de ácidos nucléicos (NAAT) juntamente com o cultivo celular a fim de detectar amostras que são negativas por NAAT devido à presença de inibidores (Black, 1997; Mahony et al., 2003).
6. PREVENÇÃO E TRATAMENTO
Como descrito por Jawetz et al. (1998) as clamídias possuem uma característica interessante de se manterem em equilíbrio entre o hospedeiro e o parasito, o que pode resultar na ocorrência prolongada da infecção. Normalmente, o agente infeccioso persiste na presença de títulos elevados de anticorpos. O tratamento com agentes microbianos, como tetraciclinas, doxiciclinas, amoxilinas e eritromicinas durante longos períodos, e hoje em dia por azitromicinas, que ser mostram até mais eficazes e com menos efeitos adversos que os medicamentos com posologia longa, podem eliminar o microorganismo do hospedeiro infectado (Pitsouni et al., 2007). A chance de recorrência, utilizando a azitromicina, é de 5,0% a 13,0% em adolescentes tratadas (Martin et al., 1992).
Para prevenção e tratamento de infecções por C. trachomatis, também são necessárias mudanças comportamentais, que reduzem o risco de adquirir a infecção bem como outras doenças sexualmente transmissíveis; e a identificação e tratamento de parceiros com a infecção genital antes que eles possam transmitir o agente etiológico. Diversas mudanças comportamentais como o adiamento da primeira relação sexual, diminuição do número de parceiros sexuais e o uso de preservativos, são essenciais para evitar ou minimizar a infecção por C. trachomatis. O uso de microbicidas vaginais como esponjas vaginais contendo espermicida monoxynol 9 também são indicadas para a prevenção da infecção (Patton et al., 1992; Roddy et al., 1998). Lembrando que o tratamento do parceiro sexual é essencial para diminuir o risco de reinfecção do paciente (Paavonen & Krause, 1999).
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Através desta revisão sobre o tema é possível perceber as principais repercussões clínicas e agravos à saúde causados pela C. trachomatis, sendo assim, imprescindível a qualificação de programas de controle e prevenção de DSTs e aplicação de medidas de prevenção em nível de atenção primária, as quais não exigem sofisticação tecnológica, podendo contribuir para uma redução deste importante problema de saúde pública.
Em casais que buscam tratamento para infertilidade, a detecção de infecção por clamídia deveria ser levada em consideração como procedimento de rotina, antecedendo os métodos diagnósticos invasivos.
É possível que a existência de programas de educação e rastreamento sistemático de todas as mulheres após a primeira relação sexual possa modificar o quadro atual. Além disso, falhas na educação básica da população, a falta de conhecimento, a precariedade no sistema de saúde e a co-infecção com outras doenças sexualmente transmissíveis ainda estão relacionados aos altos índices de infecção por C. trachomatis. Desta forma, é necessária uma conscientização ainda maior por parte dos governos quanto ao processo de educação e informação para a saúde dos cidadãos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Andrews WW et al. The Preterm Prediction Study: association of second-trimester genitourinary chlamydia infection with subsequent spontaneous preterm birth. Am J Obstet Gynecol. 2000; 183(3): 662-68.
Veenemans L. Chlamydia test for infertility screening. Hum Reprod. 2002; 17: 695-8.