JBRA Assist. Reprod. 1997;01(01):32-34
ARTIGO ORIGINAL
doi: 10.5935/1518-0557.1997.1.1.08
Centro de Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira de Ribeirão Preto
Resumo
Introdução: Observou-se o propofol para anestesia ambulatorial e aplicação de técnicas de reprodução assistida.
Material e Métodos: Um total de 50 pacientes, submetidas a aplicação de técnicas de reprodução assistida, no Centro de Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira, apresenta ASA I, com idade média de 30±4 anos, pesando 50.77 ± 4.05 Kg e foram anestesiadas com propofol (diprivam) 2.5 mg por Kg. Os parâmetros vitais observados antes, durante e após a anestesia foram os seguintes: pressão arterial (sistólica, média e diastólica) freqüência e ritmo respiratório. Além disso, foram também observados: o tempo médio de duração do procedimento, da perda e recuperação da consciência, e o tempo necessário para a alta hospitalar, assim como o número de doses subseqüentes após a indução e a presença de efeitos colaterais.
Resultados: Não ocorreram alterações nos parâmetros vitais cardio-circulatórios e respiratórios. A alta hospitalar ocorreu em média 90 minutos após a anestesia, com todas as pacientes em boas condições.
Conclusão: O propofol apresentou vantagens, como principal agente anestésico venoso, nas anestesias ambulatoriais onde técnicas de reprodução assistida o exigiram.
Unitermos: anestesia ambulatorial, propofol, reprodução assistida
Abstract
Introduction: Propofol was observed for ambulatory anaesthesia to the application of techniques of assisted reproduction.
Material and Methods: A total of 50 patients submitted to the application of techniques of assisted reproduction, in the Human Reproduction Center of Sinhá Junqueira Maternity, presenting ASA I, with an average of 30±4 years old, weighing 50.7±4.1 kg were submitted to anesthesia with propofol 2.5mg kg1. The vital parameters observed before, during and after the anaesthesia were the following: arterial pressures (systolic, medium and diastolic) frequency and cardiac rhythms, peripheral oxymetry and frequency and respiratory rhytmys. Besides that, it was also observed: the average time of procedure length, of the loss and recovery of conscience and the necessary time to the hospital discharge, in same way as the number of subsequent doses after the induction and the presence of side effects.
Results: No alterations in the vital cardiocirculatory and respiratory parameters have occurred. The hospital discharge occurrred about 90 minutes after the anaesthesia, with all patients in good conditions.
Conclusion: The propofol showed advantages, as the principal venous anaesthetic agent in the ambulatory anaesthesia where assisted reproduction techniques demanded it.
Keywords: ambulatory anaesthesia, propofol, assisted reproduction
Introdução
A anestesia em regime ambulatorial exige um rápido despertar do medicamento utilizado,possibilitando uma alta precoce. Essa técnica deve proporcionar analgesia adequada com amnésia e um mínimo de efeitos colaterais indesejáveis (Saraiva, 1976; Urbach et al., 1977).
O propofol, quando comparado aos vários anéstesicos venosos, apresenta uma rápida regressão anéstesica, possibilitando uma pronta recuperação da consciência e coordenação psicomotora, permitindo a alta hospitalar precoce (Jones, 1982; Ursolino et al., 1990; Paulin, 1994).
O objetivo deste trabalho é determinar o valor do propofol como agente venoso principal, na anestesia em regime ambulatorial, para a aplicação de técnicas em reprodução assistida.
Material e Métodos
Um total de 50 pacientes foram submetidas as técnicas de reprodução assistida invasiva no Centro de Reprodução Humana da Maternidade Sinhá Junqueira. A população apresentou ASA I, com média de idade de 30±4 anos, pesando 50,77±4,05 Kg (Tabela I), foram submetidas a anestesia com propofol (Diprivan) 2,5 mg. Kg-1 e dosagens subsequentes (um terço da dosagem inicial) quando necessário. A medicação de pré-indução constou de fentanil 2ug. Kg-1 e atropina 0,5 mg endovenosa cinco minutos antes do propofol.

Tabela I. Características da amostra
Os parâmetros vitais observados antes, durante e após a anestesia foram os seguintes: pressão arterial sistólica, média e diastólica (Dinamap TM 845), frequência e ritmo cardíaco (Cardioscópio Fumbec em D II), oximetria periférica (Nellcor pulse oximeter, Model N-100C), frequência e ritmo respiratório.
O tempo médio de duração do procedimento, da perda e recuperação da consciência foram analisados através do comando verbal. O tempo necessário para a alta hospitalar foi avaliado através da orientação da paciente no tempo e no espaço, sua deambulação e equilíbrio. Ao mesmo tempo, anotou-se o número de doses de propofol subsequentes à indução e o seu intervalo médio de tempo.
Durante todo o ato anestésico cirúrgico mantiveramse todas as pacientes com um catéter nasofaríngeo com oxigênio 100% (2L/min).
Resultados
Não ocorreram alterações significativas nas pressões arteriais. A freqüência cardíaca aumentou em média 20% após a medicação de pré-indução, voltando aos valores próximos aos iniciais após as doses de propofol. Não se detectou nenhum caso de disritmia. A frequência e a amplitude respiratórias diminuíram, discretamente, após as doses de propofol. Não foram observados casos de apnéia que merecessem suporte ventilatório. Não se encontraram valores abaixo de 90% de saturação de hemoglobina, analisados pela oximetria digital periférica.
A duração média dos procedimentos foi de 29,33±15,06 min (mínimo de 16 e máximo de 42 min), a perda de consciência (Tabela II) ocorreu após 29,86±13,8s. O tempo total de recuperação da consciência (Tabela III) teve média de 8±4,04 min. O tempo necessário para a alta hospitalar (Tabela IV) foi em média de 90±23 min. A maioria das pacientes obteve classificação boa tanto para a orientação quanto para o equilíbrio (Tabela V).

Tabela II. Distribuição dás pacientes segundo o tempo da perda da consciência

Tabela III. Distribuição das pacientes segundo o tempo de recuperação da consciência após a dose inicial

Tabela IV. Distribuição das pacientes segundo o tempo necessário para alta hospitalar

Tabela V. Distribuição das pacientes segundo os critérios de alta hospitalar (orientação, deambulação, equilíbrio)
Em cerca de 49 pacientes houve a necessidade, na maioria dos casos, de repetir a dose (Tabela VI), uma a duas vezes, com intervalos médios de 55 min.(mínimo de 3 min. e máximo de 7 min.)

Tabela VI. Distribuição das pacientes segundo a necessidade de repetição da dose inicial
Discussão
O estresse da paciente que é submetida ‘a aplicação de técnicas de reprodução assistida, deve ser mínimo. O propofol (Diprivan) sendo um medicamento que não se acumula, que possui baixa toxicidade, com pequena interferência nos aparelhos cardiocirculatórios e respiratórios (Jones, 1982; Ursolino, 1990; Paulin, 1994), apresentou-se como o medicamento ideal para este procedimento em regime ambulatorial (Ursolino, 1990; Paulin, 1994).
A marcante estabilidade da tensão arterial (Ursolino, 1990, Paulin, 1994), na totalidade dos casos, foi observada mesmo nos casos em que as doses foram repetidas, mais de uma vez (Ursolino et al., 1990). Com relação a frequência cardíaca, ocorreu uma ligeira diminuição da mesma após a administração do propofol, fato observado em situacões anteriores (Ursolino et al., 1990), mas esse efeito não se fez acompanhar de mudanças na morfologia do traçado eletrocardiográfico, sendo equilibrado pela prévia atropinização (Ursolino et al., 1990, Paulin, 1994). A administracão de oxigênio, por catéter nasal, compensou a diminuicão da amplitude e da frequência respiratória após as doses de propofol, levando a oximetria periférica nunca a valores abaixo de 90%. A não observação de casos de apnéia, que necessitassem de suporte ventilatório, confirma observações anteriores (Ursolino et al., 1990).
O tempo médio de 29,86s para a perda de conciência e o tempo médio de 8 minutos para a recuperação total da consciência são curtos, mas foram suficientes para proporcionar conforto para as pacientes durante o procedimento. Desde que o período de plano anestésico foi fugaz, houve a necessidade de doses suplementares de um terço de dosagem inicial (98% dos casos) como complemento da anestesia para o procedimento. O uso de doses subsequentes não proporcionou efeitos colaterais indesejáveis, mesmo nos casos em que foram empregadas duas ou mais doses complementares.
Por outro lado, confirmando observações anteriores (Ursolino et al., 1990), as condições clínicas da maioria das pacientes quanto a orientação, deambulação e equilíbrio permitiram que a paciente deixasse o hospital em média 90 min após o procedimento. Entretanto, houve a orientação para que não exercessem qualquer atividade que exigisse raciocínio, concentração ou atividade motora intensa.
Finalmente, o presente estudo permitiu concluir que o propofol funcionou como um agente venoso seguro e eficiente, na aplicação das técnicas de reprodução assistida, causando mínima interferência nos parâmetros hemodinâmicos e respiratórios, permitindo uma alta hospitalar em tempo bastante reduzido.
Saraiva R.A. - Estágios clínicos da regressão da anestesia. Rev. Bras. Anest., 26: 37-43, 1976.