JBRA Assist. Reprod. 1997;01(01):44-45
RELATO DE CASO

doi: 10.5935/1518-0557.1997.1.1.11

Nascimento após criopreservação de espermatozóides por doença maligna e doação de óvulos

Birth after sperm cryopreservation due to malignant disease and egg donation

J.G. Franco Jr, R.L.R. Baruffi, A.L. Mauri, C.G. Petersen, R.R.B. Ferreira, G. Ursolino, J. Cornicelli

Centro de Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira - Ribeirão - SP

Correspondência:
J. G. Franco Jr
Centro de Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira
R. Dom Alberto Gonçalves 1500, Ribeirão Preto, Brasil
FAX: (55)-16-6263644 / Fones: (55)-16-6281196 / 16-6262909

Resumo
As técnicas de reprodução assistida são aplicadas com frequência em casais inférteis, muitas vezes atinge um ou os dois parceiros, sendo em algumas ocasiões modificadas com o tempo. O relato descreve um caso especial onde o marido crio preservou espermatozóides por doença maligna, e a esposa, após várias tentativas sem sucesso com técnicas de reprodução assistida invasiva, acabou optando pelo programa de doação de óvulos. A paciente engravidou após a primeira tentativa com doação de óvulos, tendo ocorrido o nascimento de uma criança do sexo masculino na 35 semana de gestação.

Abstract
Assisted reproduction techniques are frequently applied to infertile couples, often involving one or both partners and often being modified with time. We report a special case in which the husband cryopreserved his sperm due to malignant disease and his wife, after a few unsuccessful attempts with invasive assisted reproduction techniques, ended by opting for a program of egg donation. The patient became pregnant after the first attempt with egg donation and gave birth to a boy after 35 weeks of pregnancy.

Introdução
As técnicas de reprodução assistida são aplicadas com frequência nos casais inférteis, sendo que em algumas ocasiões sua utilização pode atingir um dos parceiros e por uma situação especial (quimioterapia após tumor testicular). Por outro lado, modificações na sua indicação podem ocorrer com o passar do tempo (fertilização “in vitro”, injeção intracitoplasmática de espermatozóides), até a solução definitiva do problema de infertilidade conjugal (doação de óvulos).

Apresentação do caso
Em 1994, a paciente M.L. de 38 anos e seu marido D.G. de 39 anos procuraram o Centro de Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira solicitando congelamento de esperma. O marido apresentava um tumor no testículo esquerdo cuja indicação médica era de orquidectomia e quimioterapia. Assim sendo, antes da quimioterapia, o esperma foi criopreservado (total de “pailletes”: 9, as concentrações iniciais variaram de 2.5 106 até 29 106) pela técnica de congelamento vertical (Baruffi R.L.R. et al., 1994), entretanto a sobrevida espermática após dois descongelamentos de prova foi de 30% e 33%. Por outro lado, a paciente usava DIU desde o início do casamento há seis anos, porém com essa nova situação solicitou a imediata aplicação de uma técnica de reprodução assistida. Os exames iniciais mostraram os seguintes aspectos: a histerossalpingografia evidenciou obstrução tubária à esquerda, a histeroscopia identificou uma pequena sinéquia no corno uterino esquerdo, e as dosagens do hormônio folículo estimulante, do hormônio luteinizante e da prolactina foram normais. Indicou-se o programa de fertilização “in vitro” (FIV) pela baixa sobrevida espermática ao descongelamento e pela idade da paciente.
Em 1994 foram realizadas duas séries sem sucesso de FIV. A estimulação ovariana foi executada com a associação de análogos de GnRH e gonadotrofinas. Na primeira, foram colhidos 5 óvulos com formação de 1 embrião (taxa de fertilização de 20%), na segunda 6 óvulos e 2 embriões (taxa de fertilização de 33.3%).
Em 1995, executaram-se três séries sem sucesso do programa de injeção intracitoplasmática de espermatozóides (ICSI) conforme os critérios já descritos por Franco Jr e cols. (1995), pois as taxas de fertilização no programa de FIV foram baixas. A estimulação ovariana foi adaptada com doses crescentes de gonadotrofinas, contudo a eficiência de resposta ovariana foi discreta (terceira série: 8 oócitos / 4 embriões; quarta série: 10 óvulos / 4 embriões; quinta série: 5 óvulos / 1 embrião).
Em março de 1996, a paciente completou 40 anos e solicitou o programa de doação de oócitos, que obedeceu os critérios já descritos por Franco Jr e cols. (1993). Em dezembro de 1996, teve uma parto operatório (35 semanas) com nascimento de criança do sexo masculino com peso de 2880g e altura de 46 cm.

Discussão
A criopreservação de espermatozóides em paciente com lesão testicular que necessite cirurgia radical, radioterapia ou quimioterapia é uma prática correta e antiga. Entretanto, nem sempre a obtenção das amostras é suficiente para o uso da inseminação artificial clássica. Esse caso é um exemplo da aplicação das principais técnicas de reprodução asssistida, numa situação onde o número de espermatozóides criopreservados esgotava-se com o tempo pela baixa qualidade das amostras descongeladas.
Em 1994, Baruffi et al. relataram uma taxa média de sobrevida dos espermatozóides após o descongelamento de 77.4 ± 11%. Dessa forma, valores entre 30% e 35% foram reduzidos e poderiam comprometer o sucesso de técnicas de reprodução assistida que utilizem número elevados de espermatozóides como a inseminação artificial.
O número limitado de espermatozóides exigiu a aplicação inicial do programa de FIV, contudo os níveis baixos de fertilização de 20% e 33.3% motivaram a indicação do programa de ICSI. O insucesso com a aplicação destas técnicas resultou na aplicação do programa de doação de oócitos que felizmente foi bemsucedido.

Referências
Baruffi R.L.R., Mauri A.L., Petersen C.G., Campos M.S., Freitas E.F., Franco Jr J.G. - Programa de inseminação artificial heteróloga com sêmen criopreservado. Rev. Bras. Ginec. Obstet. 16: 234-237, 1994.

Franco Jr J.G., Baruffi R.L.R., Mauri A.L., Petersen C.G., Campos M.S., Aguiar F., Oliveira J.B.A. - Doação de oócitos como tratamento da infertilidade em pacientes com insuficiência ovariana precoce. Rev. Bras. Ginecol. Obstet., 15: 181-185, 1993.

Franco Jr J.G., Petersen C.G., Mauri A.L., Baruffi R.L., Freitas E.F., Ursolino G. - Tratamento do fator masculino grave em infertilidade pela injeção intracitoplasmática de espermatozóides. Primeiras gestações obtidas com a coleta de espermatozóides do testículos. Rev. Bras. Ginec. Obstet., 17: 967-976, 1995.