JBRA Assist. Reprod. 1997;01(02):65-67
ARTIGO ORIGINAL
doi: 10.5935/1518-0557.1997.1.2.05
Fertility - Centro de Fertilização Assistida Video-Endoscopia Pélvica - São Paulo - SP
Resumo
Introdução: Os critérios estritos de avaliação da morfologia do espermatozóide permitiram a obtenção de valores prognósticos de fertilização “in vivo” e “in vitro”. O objetivo deste trabalho é avaliar a importância da morfologia estrita em procedimentos de fertilização utilizando a técnica de injeção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI).
Material e Métodos: Total de 102 pacientes fori submetido à avaliação morfológica dos espermatozóides, segundo os critérios estritos de Teigerberg-Kruger. Foram verificadas as taxas de fertilização após a ICSI em cada grupo e subgrupos propostos por Kruger.
Resultados: Dos 102 pacientes, 20 (19,6%) apresentaram menos de 4% de formas normais (Grupo I); 77 (75,4%) apresentavam de 4 a 14% de formas normais (Grupo II) e 5 (5%) apresentavam acima de 14% de formas normais (Grupo III). A taxa de fertilização para cada grupo foi de 81,4 ± 20,7% (Grupo I); 75,3 ± 28,4% (Grupo II) e 74,8 ± 17% (Grupo III).
Conclusão: A morfologia estrita não tem influência na taxa de fertilização quando se emprega a técnica de ICSI.
Unitermos: estrito critério, morfologia espermática, taxa de fertilização, ICSI
Abstract
Introduction: Morphological evaluation of spermatozoa based on strict criteria gives prognostic values on in vivo and in vitro fertilization. The objective of the present paper is evaluating the prognostic value of strict criteria when ICSI techniques are performed.
Material and Methods: A total of 102 patients were submitted to morphological spermatozoa evaluation based on strict Tygerberg criteria. Fertilization rates were obtained after ICSI procedures in each group and subgroup proposed by Kruger.
Results: 20 patients (19,6%) presented as P pattern (group I), 77 patients (75,4%) presented as G pattern (group II) and 5 patients (5%) presented as normal forms ≥ 14% (group III). Fertilization rates were respectively: 81,4 ± 20,7% (group I); 75,3 ± 28,4% (group II) e 74,8 ± 17% (group III).
Conclusions: Strict criteria has no influence on fertilization rates when ICSI technic was performed.
Keywords: strict criteria, sperm morphology, fertilization rate, ICSI
Introdução
O papel da morfologia do espermatozóide na fertilização mereceu pouca atenção durante longo período de tempo. A maioria das publicações referia-se somente à contagem e/ou à motilidade do espermatozóide (Aitken et al., 1982; Singer et al., 1980; Zaini et al., 1985). Com a introdução de critérios morfológicos padronizados e, particularmente, com o critério estrito de Tygerberg (Menkeveld, 1987), baseado em evidências biológicas de normalidade, tornaram-se mais acessíveis a avaliação e o diagnóstico do grau de fertilidade do paciente, e mesmo o prognóstico de fertilização “in vivo” e “in vitro”. A introdução de técnicas de fertilização assistida, permitindo que barreiras naturais de acesso do espermatozóide ao ooplasma fossem eliminadas, fez com que avaliações prognósticas baseadas nesses critérios estritos fossem revistas.
O objetivo deste trabalho foi avaliar a importância da morfologia estrita nas taxas de fertilização nos procedimentos de injeção intra-citoplasmática de espermatozóide (ICSI).
Material e Métodos
Foram estudados 102 pacientes com avaliação morfológica dos espermatozóides, segundo os critérios estritos de Tygerberg-Kruger. Todos os pacientes foram encaminhados para ICSI e verificadas as taxas de fertilização de acordo com os grupos e subgrupos propostos por Kruger (1988).
Resultados
Dos 102 pacientes, 20 (19,6%) apresentavam menos de 4% de formas normais (Grupo I); 77 (75,4%) apresentavam de 4 a 14% de formas normais (Grupo II) e 5 (5%) apresentavam acima de 14% de formas normais (Grupo III). A taxa de fertilização para cada grupo foi, respectivamente, de 81,4±20,7% (Grupo I); 75,3±28,4% (Grupo II) e 74,8±17% (Grupo III).
Discussão
De acordo com os critérios estritos de Tygerberg, o espermatozóide é normal quando sua cabeça tem configuração levemente ovalada, com o acrossoma bem definido, perfazendo de 40-70% da parte distal da cabeça, sem gotas citoplasmáticas que ultrapassem mais da metade da cabeça, sem anormalidades de peça intermediária e da cauda, com o comprimento da cabeça devendo estar entre 3 e 5 µm, e a largura entre 2 e 3 µm. A forma borderline é considerada anormal.
Utilizando estes critérios, uma população com taxas normais de fertilização em FIV mostra mais que 14% de formas normais. Números iguais ou abaixo de 14% indicam deterioração progressiva de morfologia do espermatozóide e, conseqüentemente, de sua função. Posteriormente, Kruger identificou dois subgrupos neste grupo anormal: pacientes que apresentam de 5 a 14% de formas normais têm padrão de bom prognóstico (padrão G), e pacientes com 4% ou menos de formas normais têm padrão de prognóstico ruim (padrão P) para FIV.
O valor prognóstico dos critérios estritos de Tygerberg foram demonstrados analisando-se os resultados de FIV do Hospital de Tygerberg (Kruger, 1986). A taxa de fertilização foi de 82,5%, com taxa maior ou igual a 15% de espermatozóides morfologicamente normais. Quando a taxa de espermatozóides normais foi inferior ou igual a 14%, a taxa de fertilização caiu para 37%. No subgrupo padrão G, a taxa de fertilização foi de 63,9%, enquanto no subgrupo padrão P, de 7,6%.
Oehninger et al. (1988) referem taxas de fertilização em FIV de 94,3% em pacientes com mais de 14% de espermatozóides morfologicamente normais. Pacientes com morfologia de espermatozóides padrão G apresentaram taxas de fertilização em FIV de 87,8%, e aqueles com morfologia padrão P dos espermatozóides, tiveram taxa de fertilização de 14,5%. Estes dados comprovam a importância das características morfológicas dos espermatozóides como fator prognóstico de fertilização, quando utilizados métodos de fertilização “in vitro”, (Tabela I).

Tabela I. Relação entre porcentagem de formas normais e taxa de fertilização.
Os procedimentos de fertilização assistida, particularmente a injeção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI) constituem um “bypass” no processo de fecundação, permitindo que sejam desnecessárias as interrelações entre o espermatozóide e a zona pelúcida e a membrana ooplasmática (Palermo et al., 1992).
As taxas de fertilização, estatisticamente semelhantes neste artigo nos diferentes grupos, divididos de acordo com sua morfologia estrita, prova que esta não tem influência quando empregada a técnica de ICSI, diferentemente de quando se empregam procedimentos de fertilização “in vitro”.