JBRA Assist. Reprod. 1998;02(01):23-24
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.1998.2.1.05

A administração de hCG melhora as taxas de gravidez na fertilização "in vitro" (FIVET) com ciclos naturais?

Does the administration of hCG improve the pregnancy rates in "in vitro" fertilization (IVF) in natural cycles?

M. Cavagna, G.C. Lombroso Finzi, C. Scarduelli, M. Anselmino, G. Tesoriere, E. Sezzi, A. Caccamo

Correspondência para:
Mario Cavagna
R. Viradouro, 58 - Apto 111
04538-110 São Paulo - SP
Telefax: (011) 8296079

Resumo
Introdução: O objetivo deste trabalho é comparar as taxas de fertilização, clivagem e gravidez por transferência de embrião em ciclos naturais de FIVET na presença de pico espontâneo de LH e quando se administra hCG antes da aspiração folicular.
Material e Métodos: Foram avaliados, através de estudo retrospectivo, 72 oócitos recuperados em ciclos naturais de 58 pacientes, submetidas à FIVET por infertilidade de causa tubária. Foram colhidos 25 oócitos após pico espontâneo de LH (grupo A) e 47 oócitos após administração de hCG (grupo B). Comparou-se, entre os dois grupos, as taxas de fertilização, clivagem e gravidez.
Resultados: No grupo A, houve a fertilização de 15 oócitos (60%), dos quais 13 (86%) formaram embriões que foram clivados e transferidos, obtendo-se 2 gravidezes (15,4% por transferência). No grupo B, observou-se a fertilização de 41 oócitos (87,2%), dos quais 36 (87,8%) formaram embriões que clivaram; 32 pré-embriões foram transferidos, obtendo-se 7 gravidezes (21,9% por transferência). A taxa de fertilização no grupo B foi significantemente mais alta (p<0,01).
Conclusão: Nos casos em que se indica o ciclo natural para a FIVET, o emprego do hCG para a maturação folicular final e programação da aspiração folicular, promove uma maior taxa de fertilização e apresenta vantagens consideráveis em relação ao pico espontâneo de LH.

Unitermos: fertilização "in vitro", ciclo natural

Abstract
Introduction: The aim of this study was to compare the efficacy of hCG administration versus spontaneous LH peak in IVF in unstimulated cycles, comparing the fertilization, cleavage and pregnancy rates.
Material and methods: In a retrospective analysis, we studied a total of 72 oocytes collected in IVF in natural cycles from 58 patients, all suffering from tubal infertility; 25 oocytes were collected after spontaneous LH peak (group A) and 47 were collected after hCG administration (group B). A comparative study between the two groups was performed.
Results: In group A, we observed the fertilization of 15 oocytes (60%). Cleavage ocurred in 13 of them (86%); we performed the transfer of 13 pre-embryos, and 2 pregnancies were achieved (15,4% per transfer). In group B, we observed the fertilization of 41 oocytes (87,2%) and cleavage of 36 (87,8%); we performed the transfer of 32 pre-embryos, and 7 pregnancies were achieved (21,9% per transfer). The fertilization rate was significantly higher for group B (p<0,01).
Conclusion: The results of this study indicate that when hCG is administered before oocyte retrieval, we can perform a more efficient egg recovery procedure and achieve higher fertilization rates, in comparison with spontaneous LH peak.

Keywords: "in vitro" fertilization, natural cycle

Introdução
Atualmente, com as novas drogas indutoras da ovulação existentes no mercado e a maior acurácia na monitorização da hiperestimulação ovariana controlada, a utilização de ciclos naturais para a FTVET parece ter poucas indicações. Entretanto, em casos selecionados, o emprego do ciclo natural pode ser válido (Paulson et al., 1992; Cavagna et al., 1997). Nestes casos, a aspiração do folículo é feita após a ocorrência do pico espontâneo do LH ou após a indução da maturação folicular final através da administração de hCG (Paulson et al., 1989).
O objetivo deste estudo é o de comparar as taxas de fertilização, clivagem e gravidez por transferência de embrião em ciclos naturais de FTVET na presença de pico espontâneo de LH e quando se administra hCG previamente à aspiração folicular.

Material e Métodos
Foram avaliados, através de estudo retrospectivo, 72 oócitos recuperados em ciclos naturais de 58 pacientes, submetidos a FTVET por infertilidade de causa tubárea.
A monitorização foi feita através de controle ecográfico transvaginal diário a partir do 8º dia do ciclo. Quando o diâmetro folicular médio atingia 15 mm, as pacientes eram solicitadas a realizar, em casa, teste urinário para a detecção do pico de LH (Evaplan, Boehringer), 3 vezes ao dia (7:00, 15:00 e 23:00 horas); com o diâmetro folicular médio igual ou maior que 18 mm, o teste de LH era realizado a cada 3 horas, das 7:00 até as 24:00 horas. Se um dos testes resultava positivo, a aspiração folicular era realizada após 22 a 24 horas. Quando, na presença de folículo > 18 mm, o teste das 24:00 horas ainda mostrava-se negativo, administrava-se, por via intramuscular, 5000 UI de hCG (Profasi, Serono) e praticava-se a aspiração do folículo 36 horas após. Foram colhidos 25 oócitos após pico espontâneo de LH (grupo A) e 47 oócitos após administração de hCG (grupo B).
Todas as amostras de sêmen eram normais de acordo com os parâmetros da OMS e foram preparadas com a técnica do "swim-up". Para a análise dos resultados, utilizou-se o teste do qui quadrado e o teste exato de Fisher (Siegel, 1988).

Resultados
No grupo A (Tabela I), houve a fertilização de 15 oócitos (60%), dos quais 13 (86%) se clivaram e foram transferidos, obtendo-se 2 gravidezes (15,4% por transferência). No grupo B, observou-se a fertilização de 41 oócitos (87,2%), dos quais 36 (87,8%) se clivaram; 32 pré-embriões foram transferidos, obtendo-se 7 gravidezes (21,9% por transferência).

 

Table 1
Tabela I.

Discussão
Uma das grandes dificuldades do emprego de ciclos naturais para a realização da FTVET é o fato de que a aspiração folicular e, conseqüentemente, os procedimentos laboratoriais de manipulação dos gametas, podem ser realizados em horários inconvenientes, gerando problemas que muitas vezes se refletem na qualidade do procedimento. Este problema pode ser contornado quando, na presença de um folículo cujo diâmetro médio atinja 18 mm e na ausência de pico espontâneo de LH, se administra o hCG para desencadear a maturação folicular final. Isto permite a programação dos procedimentos clínicos e laboratoriais nos mesmos moldes dos ciclos induzidos.
Nossas observações também mostram resultados significativamente melhores no que se refere à taxa de fertilização quando se emprega o hCG. A taxa de gravidez por transferência, embora tenha sido maior no grupo B, não apresentou uma diferença estatisticamente significante. Entretanto, a maior taxa de fertilização indica uma melhor qualidade oocitária com a utilização do hCG. Quando se empregam os testes urinários para a detecção do pico de LH, não é possível determinar com exatidão o momento em que a onda pré-ovulatória teve o seu início, fato este que pode interferir na qualidade do oócito recuperado.
Além disso, nos casos em que ocorreram eventuais distúrbios na liberação do LH, como onda de amplitude e (ou) duração inadequadas, a administração de hCG é capaz de corrigir tais anomalias, garantindo um oócito de qualidade superior.
Desta forma, concluimos que nos casos em que se indica o ciclo natural para a FIVET, o emprego do hCG, para a maturação folicular final e programação da aspiração folicular, apresenta vantagens consideráveis em relação ao pico espontâneo de LH.

Referências
Cavagna M., Lombroso Finzi G.C., Scarduelli C., Anselmino M., Tesoriere G., Sezzi E., Caccamo, A. - Fertilização "in vitro" e transferência de embriões (FIVET) em ciclos naturais: Nossa experiência de 5 anos. J. Brasileiro Reprod. Assist., 1: 56-58, 1997.

Paulson R., Sauer M.V., Lobo R.A. - In vitro fertilization in unstimulated cycles: a new application. Fertil. Steril., 51: 1059-1060, 1989.

Paulson R., Sauer M.V., Francis M.M., Macaso T.M., Lobo R.A. - In vitro fertilization in natural cycles: the University of Southern California experience. Fertil. Steril., 57: 290-293, 1992.

Siegel S., Castellan Jr. N.J. - Nonparametrics statistics. New York: Mc Graw Hill, p. 399, 1988.