JBRA Assist. Reprod. 1998;02(03):16-23
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.1998.2.3.03

Estudo prospectivo e randomizado da estimulação ovariana para ICSI com FSH recombinante versus FSH urinário altamente purificado

A prospective and randomized study of ovarian stimulation of ICSI with recombinant FSH versus highly purified urinary FSH

J.G. Franco Jr*, R.R. Baruffi, J. Coelho, A.L. Mauri, CG. Petersen, P. Contart, G. Ursolino

*Professor de Tocoginecologia do Curso de Ciências Médicas da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP)

Correspondência para:
J.G. Franco Junior
Centro de Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira
Ribeirão Preto - SP
Rua D. Alberto Gonçalves 1500
CEP 14085-100
Fones: 016-6262909 / 6281196
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Resumo
Introdução: Comparar de forma prospectiva e randomizada o uso de FSH recombinante (r-FSH; Gonal-F) versus FSH urinário altamente purificado (u-FSH-HP) na estimulação ovariana de pacientes submetidas ao programa de ICSI.
Material e Métodos: Um total de 120 pacientes com idade ≤ 37 anos usaram de forma randomizada r-FSH (grupo I = 60 pacientes) ou u-FSH-HP (grupo II = 60 pacientes). Inicialmente, todas receberam um regime fixo de FSH por 7 dias, e no oitavo dia de estimulação, as doses foram adaptadas conforme a resposta ovariana. A gonadotrofina coriônica humana foi utilizada na dose de 5,000 UI a 10,000 UI em ambos os grupos quando no mínimo 1 f olículo apresentou diâmetro 16 17 mm.
Resultados: A resposta ovariana entre os grupos I e II não diferiu significativamente quanto ao número de folículos ≥ 16mm (grupo I = 6.2 ± 3.2; grupo II = 6.7 ± 2,9; p = 0.26), ao número de oócitos coletados (grupo I = 10.7 ± 6.8; grupo II = 10.5 ± 5.7; p = 0.91), ao número de oócitos em metáfase II (grupo I = 9.2 ± 5.8; grupo II = 8.2 ± 4.8; p = 0.56) e ao número de oócitos imaturos (grupo I = 1.8 ± 0.9; grupo II = 1.9 ± 1.7; p = 0.62). A taxa de fertilização normal após ICSI não variou significativamente em ambos os tratamentos (grupo I = 69.4 ± 25; grupo II = 66.5 ± 23; p = 0.38). Em ambos os grupos, não ocorreram casos de cancelamento da estimulação ovariana e de síndrome de hiperestimulação ovariana severa. O número total de embriões obtidos nas pacientes que utilizaram r-FSH (grupo I = 6.3 ± 4.5) foi semelhante (p= 0.46) aquelas que usaram u-FSH-HP (grupo II = 5.5 ± 3.7), assim como o número de embriões transferidos (grupo I = 2.8 ± 0.8; grupo II = 2.6 ± 0.9; p = 0.27). As taxas de implantação (26.1 %), gravidez clínica por punção (36.7%) e por transferência embrionária (37.9%) foram superiores nas pacientes que empregaram r-FSH quando comparadas com aquelas que receberam u-FSH-HP (19.5%, 31.7%, 32.2%, respectivamente), entretanto essas diferenças não foram significativamente diferentes. As taxas de aborto não diferiram (0.32) entre os dois grupos (grupo I = 4.5% versus grupo II= 15.7%).
Conclusão: Não foram observadas diferenças significativas na estimulação ovariana com r-FSH versus u-FSH-HP em pacientes submetidas ao programa de ICSI.

Unitermos: FSH recombinante, FSH urinário altamente purificado, estimulação ovariana, ICSI

Abstract
Introduction: A prospective and randomized study of ovarian stimulation with human recombinant FSH (r-FSH; Gonal-F) versus highly purified urinary FSH (u-FSH-HP; Metrodin-HP) was conducted on patients submitted to an ICSI program.
Material and Methods: A total of 120 patients aged 37 years or less were stimulated in a randomized manner with r-FSH (group I = 60 patients) or u-FSH-HP (group II = 60 patients). All received a fixed dose of FSH for 7 days and on the 8th day of stimulation the doses started to be adapted according to ovarian response. HCG at the dose of 5 000 IU to 10 000 IU was administered to both groups when at least 1 follicle presented a diameter ≥ 17 mm.
Results: The ovarian response did not differ significantly between groups I and II in terms of number of follicles ≥ 16 mm (group I = 6.2 ± 3.2; group II = 6.7 ± 2.9; p = 0.26), number of oocytes collected (group I = 10.7 ± 6.8; group II = 10.5 ± 5.7; p = 0.91), number of oocytes in metaphase II (group I = 9.2 ±5.8; group II = 8.2 ± 4.8; p = 0.56) or number of immature oocytes (group I = 1.8 ± 0.9; group II = 1.9 ± 1.7; p = 0.62). The normal fertilization rate after ICSI did not differ significantly between treatments (group I = 69.4 ± 25; group II = 66.5 ± 23; p = 0.38). No cases of cancellation of ovarian stimulation or of severe ovarian hyperstimulation syndrome occurred in either group. The total number of embryos obtained from patients who used r-FSH (group I = 6.3 ± 4.5) was similar (p = 0.46) to the number obtained from patients who used u-FSH-HP (group II = 5.5 ± 3.7), as also was the number of transferred embryos (group I = 2.8 ± 0.8; group II = 2.6 ± 0.9; p = 0.27). Implantation rate (26.1 %) and clinical pregnancy rates per puncture (36.7%) and per embryo transfer (37.9%) were higher in patients who used r-FSH than in patients who used u-FSH-HP (19.5%, 31.7%, and 32.2%, respectively), but the differences were not statistically significant. The abortion rate (p=0.32) did not differ between groups (group I = 4.5% versus group II = 15.7%).
Conclusion: Thus far, the data do not demonstrate significant differences in ovary stimulation with r-FSH versus u-FSH in patients whose indication for assisted reproduction was the male factor.

Keywords: recombinant FSH, highly purified urinary FSH, ovarian stimulation, ICSI

Introdução
Em 1960, Gemzell et al. relataram a primeira gestação com hormônio folículo estimulante (FSH) humano extraído das glândulas pituitárias. Posteriormente, as gonadotrofinas foram retiradas da urina de mulheres na pós-menopausa (gonadotrof ina menopausal humana, HMG), nessa preparação existe uma mistura de doses equivalentes de FSH e LH (hormônio luteinizante).
Por outro lado, diversos trabalhos clínicos indicaram um efeito deletério de níveis elevados de LH durante o desenvolvimento folicular e no período pré-ovulatório (Stanger e Yovich, 1985; Howies et al., 1987). Assim como, associaram níveis elevados de LH com probabilidades baixas de gestação e alto nível de aborto (Homburg et al., 1988; Regan et al., 1990). Esse dados, sugeriram que deveria ser evitada a administração de LH exógeno durante o processo de estimulação ovariana, e consequentemente, preparações contendo apenas FSH poderiam ser a melhor alternativa para o processo de estimulação ovariana (Daya, 1995a).
Em 1980, surgiu uma nova preparação farmacêutica o u-FSH (Metrodin, Serono), de origem urinária porém com atividade específica mínima de LH (<0.7 UI) e com proteínas co-purificadas urinárias não-FSH >95%. Posteriormente, o u-FSH foi usada com sucesso para a estimulação ovariana na doença dos ovários policísticos (Flamigni, 1980), e para a produção de múltiplos folículos nos programas de fertilização "in vitro" (FIV) (Shaw et al., 1985).
Em 1993, com uma nova metodologia de extração e purificação do u-FSH urinário obteve-se o chamado u-FSH-HP (Metrodin-HP, Serono), ou seja, o hormônio folículo estimulante urinário altamente purificado com atividade específica de LH < 0.001 e proteínas copurifícadas urinárias não-FSH < 1 % (Le Cotonnec et al., 1993). Em 1994, Wikland et al. apresentaram taxas de parto por punção superiores a 30% com o emprego de u-FSH-HP em programas de FIV.
Recentemente, com a biotecnologia do DNA recombinante foi possível produzir o FSH recombinante (r-FSH) para emprego terapêutico sem necessidade de extração de fluidos humanos (Loumaye et al., 1995) e com ausência de atividade específica de LH e de proteínas co-purifiçadas urinárias não-FSH.
Em 1995, o "Recombinant Human FSH Study Group" comparou o r-FSH com u-FSH porém em pacientes submetidas ao programa de FIV. Os dados mostraram comportamento idêntico entre as duas gonadotrof inas quanto ao número de óvulos colhidos (r-FSH = 9.3 ± 5.0, u-FSH = 10.7 ± 5.3, p = 0.35), taxas de gestação clínica por ciclo (r-FSH = 20%, u-FSH = 16%, p= 0.64) e outros parâmetros.
Em 1997, Bergh et al. estudaram r-FSH (Gonal-F) versus u-FSH-HP em uma população submetida 'as técnicas de reprodução assistida, observando que as taxas de gestação clínica por ciclo iniciado e por transferência de embrião foram estatisticamente idênticas entre os dois tipos de FSH (r-FSH = 36% e 45% versus u-FSH-HP = 47% e 49%, respectivamente). Entretanto, o r-FSH foi mais efetivo que o u-FSH-HP na indução da resposta multifolicular ovariana, e consequentemente, mais efetivo na obtenção de óvulos (r-FSH = 12.2 ± 5.5 oócitos versus u-FSH-HP = 7.6 ± 4.4 oócitos, p <0.0001).
Recentemente, Frydman et al. (1998) compararam r-FSH versus u-FSH-HP num grupo de pacientes superovuladas para aplicação de técnicas de reprodução assistida, observando um número significativamente (p < 0.0001) maior de oócitos recuperados no grupo que usou r-FSH (11.0 ± 5.9) do que no que empregou u-FSH-HP (8.8 ± 4.8). Entretanto, transferindo-se o mesmo número médio de embriões no grupo com r-FSH (2.2 ± 1.1) e naquele com u-FSH-HP (2.0 ±1.3), as taxas de gravidez clínica em evolução por ciclo foram idênticas para os dois grupos (18%).
A finalidade deste estudo foi avaliar de forma prospectiva e randomizada a estimulação ovariana com FSH recombinante humano (r-FSH; Gonal-F) versus FSH urinário altamente purificado (u-FSH-HP; Metrodin-HP) numa população de pacientes submetidas juntamente com seus maridos ao programa de injeção intracitoplasmática de espermatozóides (ICSI).

Material e Métodos
No período de julho de 1997 até junho de 1998, um total de 120 casais foram incluídos no programa de ICSI. Em seguida, de forma prospectiva e randomizada, 120 pacientes com idade ≤ 37 anos foram estimuladas para coleta de óvulos com r-FSH (Grupo I = 60 casos) ou u-FSH (Grupo II = 60 casos) após bloqueio de segunda fase (início no 21 ° dia do ciclo) com acetato de leuprolide (Lupron, Abbott) na dose de 0.5mg por dia até o dia da administração de gonadotrofina coriônica humana (HCG). Na estimulação ovariana foram usadas doses fixas (r-FSH ou u-FSH-HP) de 150 UI/dia ou 225 UI /dia, por via subcutânea, durante os primeiros 7 dias, no oitavo dia teve início o controle ultrasonográfico com a adaptação da dose em função da resposta ovariana. As doses fixas iniciais foram administradas em função da idade (150 UI para pacientes com ≤ 30 anos e 225 UI para pacientes entre 31 a 37 anos). O desenvolvimento folicular foi monitorado através de ultra-sonografia vaginal, e a HCG foi empregada na dose de 10,000 UI quando no mínimo 1 folículo mediu ≥ 17 mm. A espessura endometrial foi medida num plano central do eixo longitudinal do corpo uterino.
Em casos de risco para a síndrome de hiperestimulação ovariana (SHO) o seguinte protocolo de prevenção foi realizado : 1. Usou-se 5 000 UI de HCG; 2. Infundiuse albumina (dose total = 20g) no ato de captação ovular quando o volume ovariano era ≥ 50 cm3 no dia do HCG ou coletou-se mais que 20 óvulos; 3. Manutenção da 2a fase apenas com progesterona oleosa (50mg/ dia).
Os oócitos foram coletados dos folículos através de punção transvaginal guiada por ultra-som, 34-36 horas da administração de HCG. Após identificação no fluido folicular, os oócitos foram classificados pela maturidade. O complexo cúmulus-corona foi removido pela exposição em solução de hialuronidase tipo IV (H-4272, Sigma Chemical Co., USA) na concentração de 80 UI/ml. Os oócitos desnudados foram incubados em meio IVF-50 (Scandinavian IVF Science AB, Sweden) até o momento do ICSI.
Na separação dos espermatozóides do fluido seminal foi usado gradientes descontínuos de Sperm-Prep-100TM (Scandinavian IVF Science AB, Sweden), nas frações 40% e 90%. A ICSI foi performada em um microscópio invertido Olympus IMT-2 equipado com sistema de lentes Hoffman, e acoplado com um micromanipulador automático e injetores. Uma solução de 10% com polivinilpirrolidina (PVP-ICSI-100, Scandinavian IVF Science AB, Sweden) diluída em IVF-50 foi usada para imobilizar os espermatozóides. A solução viscosa de PVP é produzida especialmente para o procedimento de ICSI, e testada previamente para a presença de DNA estranho e endotoxinas (Svalander et al. 1995).
O primeiro corpúsculo polar foi posicionado às 6:00 h, e a micropipeta com espermatozóide, introduzida horizontalmente na posição de 3:00 h dentro do ooplasma. Uma gentil sucção é aplicada cuidadosamente para quebrar o oolema e evidenciar a presença de ooplasma dentro da micropipeta, confirmando a deposição intracitoplasmática do espermatozóide. O espermatozóide imobilizado é inserido junto com o ooplasma aspirado com um mínimo volume possível de PVP (Svalander et al., 1995). Os oócitos são observados após 16 a 18 horas do procedimento para determinar a presença ou ausência de pronúcleos. O processo de fertilização normal é definido pela formação de dois pronúcleos distintos, seguido pelo aparecimento de clivagem embrionária após 24 horas da fertilização. Os embriões são rotineiramente transferidos após 48 horas em cultura e os embriões supranumerários são criopreservados no final do segundo dia.
A análise estatística foi realizada através dos testes de Student "t", Mann-Whitney and Fisher Exact.

Resultados
Um total de 120 pacientes foram submetidas ao programa de ICSI após o uso de uma tabela de randomização onde foram divididas naquelas que empregaram r-FSH (grupo I = 60 casos) e nas que usaram u-FSH-HP (grupo II = 60 casos).
Na Tabela I estão descritas as características demográficas da população estudada. A idade média e o desvio padrão das pacientes que receberam r-FSH (31.4 ± 3.3) não foi significativamente diferente (p=0.26) daquelas que usaram u-FSH-HP (30.7 ± 3.7). O índice de massa corporal foi semelhante (p=0.60) entre os grupos I e II. A distribuição de casos de infertilidade primária e secundária foi idêntica (p=0.49) nos grupos com r-FSH e u-FSH-HP. Da mesma forma, a duração da infertilidade não diferiu (0.86) entre as pacientes que usaram r-FSH (4.7 ± 2.8) e u-FSH-HP (4.6 ± 3.0).

 

Table 1
Tabela I. Dados demográficos da população estudada

 

Por outro lado, o número de ampolas de FSH de 75 UI (grupo I = 25.5 ± 13 vs grupo II = 25.3 ± 10.8; p= 0.70) e o número de dias de tratamento com FSH (grupo I = 10.1 ± 1.8 vs grupo II = 10.3 ± 1.9; p= 0.64) não foram significativamente diferentes entre as pacientes que empregaram r-FSH e u-FSH-HP. Além disso, a espessura endometrial no dia da administração de HCG distribuiu-se de forma homogênea (p=0.39) nas duas populações estudadas (grupo I = 9.6 ±1.0 vs grupo II = 9.7 ±1.5).
A Tabela II mostrou que a resposta ovariana avaliada pelo número de folículos ≥ 16mm não diferiu significativamente (p= 0.26) entre os dois grupos (grupo I= 6.2 ± 3.2; grupo II= 6.7 ± 2:9), também não foram observadas diferenças entre o número de oócitos coletados (grupo I = 10.7 ± 6.8 vs grupo II = 10.5 ± 5.7; p = 0.91), oócitos em metáfase II (grupo I = 9.2±5.8 vs grupo II = 8.2 ± 4.8; p = 0.56) e oócitos imaturos (grupo I = 1.8 ± 0.9 vs grupo II = 1.9 ± 1.7; p = 0.62). A taxa de fertilização normal (2 PN) dos oócitos após ICSI não variou significativamente em ambos os tratamentos.

 

Table 2
Tabela II. Resposta ovariana num programa de ICSI nas pacientes submetidas 'a estimulação ovariana com r-FSH e u-FSH-HP

 

Não houve ciclo de estimulação ovariana cancelado em ambos os grupos. No grupo I, administrou-se albumina em 31.6% dos casos e no grupo II em 25% dos casos. Não ocorreram casos de síndrome de hiperestimulação severa em ambos os grupos.
Na Tabela III, observa-se que o número total de embriões obtidos nas pacientes que utilizaram r-FSH (group I = 6.3 ± 4.5) foi semelhante (p = 0.46) aquelas que usaram u-FSH-HP (grupo II = 5.5±3.7).0 número médio de embriões transferidos nas pacientes que receberam r-FSH (grupo I = 2.8 ± 0.8) foi semelhante (p=0.27) ao daquelas que empregaram u-FSH-HP (grupo II = 2.6 ± 0.9). As taxas de implantação (26.1%), gravidez clínica por punção (36.7%) e por transferência embrionária (37.9%) foram superiores nas pacientes que empregaram r-FSH quando comparadas com aquelas que receberam u-FSH-HP (19.5%, 31.7%, 32.2%, respectivamente), entretanto essas diferenças não foram significativamente diferentes. As taxas de aborto não diferiram (0.32) nos dois grupos (I = 4.5% versus II = 15.7%).

 

Table 3
Tabela III. Resultados laboratoriais e clínicos das pacientes submetidas à estimulação ovariana com r-FSH ou u-FSH-HP

 

Discussão
Nas últimas décadas, inúmeros trabalhos foram publicados comparando a eficácia entre diferentes tipos de gonadotrofinas que paulatinamente foram desenvolvidas pela indústria farmacêutica (Polan et al., 1986; Scoccia et al., 1987, Lavy et al., 1988; Anderson et al., 1989,Tanbo et al., 1990;Daya et al., 1995a; Out et al., 1995; Recombinant Human FSH Study Group, 1995; Balasch et al., 1996; Bergh et al., 1997; Out et al., 1997; Bagratee et al., 1998; Coelingh et al., 1998). Entretanto, o tema continua controvertido, com poucas avaliações do tipo meta-análise (Daya et al., 1995b).
A população analisada nesse trabalho seria teoricamente ideal (≤ 37 anos) para a observação de uma possível diferença de resposta ovariana entre gonadotrofinas, pois é composta de pacientes que até prova em contrário não apresentaram sinais de alterações do fator ovulatório e que sabidamente seriam mais sensíveis para essas medicações. Do ponto de vista farmacológico, a diferença entre essas duas drogas (r-FSH e u-FSH-HP) deveria ser evidenciada pela resposta ovariana, antes de qualquer análise de taxas de implantação ou gravidez. Todavia, os resultados obtidos mostraram que a resposta ovariana (número de folículos obtidos, número de oócitos totais, número de oócitos em metáfase II ou imaturos) não foi significativamente diferente quando se compararam as pacientes que usaram r-FSH versus as que utilizaram u-FSH-HP. Da mesma forma, semelhantes conclusões foram relatadas pelo Recombinant Human FSH Study Group (1995) quando compararam r-FSH com u-FSH (não altamente purificado) porém em população submetida ao programa de FIV.
Especificamente, nesse trabalho não foram observados casos de SHO severa, deve-se citar que desde a adoção em nossa unidade de um protocolo para prevenir SHO, a incidência de SHO severa está em torno de 0.5%.
Por outro lado, quando se observam as propriedades fisicoquímicas de r-FSH e u-FSH-HP, nota-se que são muito semelhantes, ficando até difícil formular a hipótese de que uma destas drogas seria mais eficiente do que a outra (Tabela IV). Além disso, nos estudos em que se detectou uma maior eficácia do r-FSH sobre outras gonadotrofinas urinárias, essa diferença foi justificada pela presença de substâncias inibidoras da atividade de FSH quando o FSH é obtido da urina, ou por diferenças no perfil das isoformas, ou pela presença de menos formas oxidadas no r-FSH (Matikainen et al., 1994, Bergh et al., 1997, Lambert et al., 1998). Entretanto, essas explicações são meras hipóteses, e até o momento, não há fatos consistentes que possam explicar uma maior performance clínica do r-FSH sobre o u-FSH-HP na estimulação ovariana.

 

Table 4
Tabela IV. Propriedades fisicoquímicas de r-FSH e u-FSH-HP (Howies, 1996)

 

Habitualmente, a aceitação de uma hipótese Ho (não há diferença entre a eficácia de r-FSH versus u-FSH-HP) quando na verdade essa é falsa, induziria ao chamado erro tipo II. Para evitar o erro tipo II seria sempre aconselhável aumentar o número de pacientes estudadas. Entretanto, quando se comparam gonadotrofinas recombinantes ou urinárias, já existe um bias constante e inevitável que é a quantificação obrigatória da dosagem de gonadotrofinas pelo bioensaio em rato (Steelman-Pohley assay). Esse procedimento possui uma variabilidade de ± 20%, ou seja, uma ampola de qualquer gonadotrofina rotulada como de 75 UI FSH poderia conter algo em torno de 60 a 90 UI de FSH (Bergh et al., 1997). Em outras palavras, a eficácia na comparação entre diferentes gonadotrofinas poderia apresentar importantes variações que estariam muito mais ligadas aos problemas da sua quantificação do que propriamente por sua nova caracterização físico-química. Infelizmente, esse bias não pode ser afastado até o momento, dificultando a interpretação das conclusões obtidas nos estudos comparativos entre gonadotrofinas, a menos que num futuro próximo as gonadotrofinas passem a ser quantificadas numa base molar.
Em resumo, esse trabalho não observou diferenças significativas na estimulação ovariana com r-FSH versus u-FSH-HP, em pacientes com ≤ 37 anos, e onde o fator masculino era o único fator etiológico da infertilidade. Além disso, seria interessante lembrar que esse trabalho foi executado em um único centro, e sem o suporte de nenhuma organização.
Finalmente, como no Brasil existe uma diferença significativa entre os preço de r-FSH e u-FSH-HP, mesmo quando se comparam ampolas com idêntica quantidade de unidades internacionais, seria correto sugerir para a indústria farmacêutica que procure igualar o preço dessas gonadotrofinas, até que uma real diferença na eficácia seja definitivamente comprovada.

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