JBRA Assist. Reprod. 1999;03(02):32-33
RELATO DE CASO
doi: 10.5935/1518-0557.1999.3.2.09
Resumo
Introdução: Demonstrar que oócitos sem zona pelúcida podem ser fertilizados normalmente utilizando normalmente utilizando a injeção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI).
Material e Métodos: Paciente J.C.N.R.A., 27 anos, submetida ao 1° ciclo de fertilização assistida devido a presença de fator masculino grave e Síndrome dos ovários policisticos (SOP). Foram captdos um total de 20 oócitos, dos quais 8 MII foram submetidos ‘a remoção das células do “cumulus oophorus” com hialuronidase para realização da ICSI. Um desses oócitos escapou da zona pelúcida, tendo sido também submetido a ICSI.
Resultados: Houve fertilização de todos os 8 oócitos submetidos ‘a ICSI. O oócito sem zona pelúcida clivou no dia 2 (2 células), apresentando morfologia normal (grau 1). No dia 3, o pré-embrião apresentava 4 células (grau I), no dia 4 apresentava 4 células (grau I), no dia 5 apresentava 8 células (grau I) e no dia 6 apresentou degeneração, não atingindo o estágio de blastocisto. Dentre os outros 7 embriões, 4 atingiram o estágio de blastocisto e foram transferidos, resultando em gravidez.
Conclusão: Este caso demonstra que os oócitos sem zona pelúcida podem apresentar clivagem adequada até o estágio de 8 células.
Unitermos: blastocisto, ICSI, Oócitos sem zona pelúcida
Abstract
Introduction: To show that zona-free oocytes can be normaly fertilized with the use of intracytoplasmatic sperm injection (ICSI).
Material and Methods: Patient J.C.N.R.A., 27 years old, submited to the first assisted fertilization cycle due to the presence of severe male factor and polycystic ovary syndrome (PCOS). A total of 20 oocytes were retrieved, of which 8 MII were subjected to removal of cumulus cells with hyaluronidase for the ICSI realization. One of these oocytes escaped from the zona pellucida and was also subjected to ICSI.
Results: All the 8 oocytes which were subjected to ICSI were fertilized. The oocyte without zona pellucida cleaved on day 2 (2cells), presenting normal morphology (grade 1). On day 3 the pre-embryo presented 4 cells (grade 1), on day 4 it presented 4 cells (grade 1 ), on day 5 it presented 8 cells (grade 1 ) and on day 6 it presented degeneration, without reaching the blastocyst stage. Among the other 7 embryos, 4 of them reached the blatocyst stage and were transferred, resulting in pregnancy.
Conclusion: This case demonstrates that zona-free oocytes can undergo normal cleavage until the 8 cell stage.
Keywords: zona-free oocytes, ICSI, blastocyst
Introdução
Com o advento da injecão intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI) tomou-se mais comum o encontro de oócitos sem zona pelúcida durante os procedimentos de reprodução assistida. A necessidade de remocão de célula do cumulus utilizando-se hialuronuidase e a remoção mecânica através de pipetas de reduzidos calibres favorecem o rompimento da zona pelúcia e consequente escape do ooplasma. Esses oócitos sem zona pelúcida são geralmente descartados, mas Ding et al. (1999) realizou a ICSI em dois casos, tendo observado desenvolvimento até o estágio de blastocisto. Também já se observou que blastocistos submetidos ‘a remoção da zona pelúcida são capazes de se implantarem normalmente e produzirem gravidezes normais (Fong et al., 1997). Sendo assim, resolvemos realizar a ICSI em oócito sem zona pelúcida, com objetivo de demonstrar que esses oócitos podem ser normalmente fertilizados utilizando-se a ICSI.
Relato de Caso
Paciente J. C. N. R. A., 27 anos , submetida ao 1° ciclo de fertilização assistida devido ‘a presença de fator masculino grave e SOP (Síndrome do Ovário Policistico). Foram captados 20 oócitos, dos quais 8 MII foram submetidos ‘a ICSI após remoção das células do “cumulus oophorus” com hialuronidase (80 unidades/ml, type I-S, from bovine testes; Sigma, St Lous, MO, USA) e utilizando-se pipetas de Pasteur flambadas de calibres de redução progressiva. Um desses oócitos escapou da zona pelúcida, tendo sido também submetido ‘a ICSI, pois apresentava morfologia aparentemente normal e presença do primeiro corpúsculo polar.
Dezoito horas pós-inseminação (hpi), observou-se a fertilização de todos os 8 oócitos submetidos ‘a ICSI. Os pré-embriões foram então transferidos para gotas de 25(il de meio de cultura (HTF Medium; Irvine Scientific, Santa Ana, CA, USA), cobertas por óleo mineral (sigma Mineral Oil; St Louis, MO, USA) No dia 3, os embriões foram então transferidos para gotas de 25μl de meio de cultura para desenvolvimento de blastocistos (Blastocyst Medium; Irvine Scientific, Santa Ana, CA, USA) suplementado com 15% de soro sintético e cobertas com óleo mineral. O óvulo sem zona pelúcida submetido a procedimento de ICSI apresentou fertilização detectada pela presença de 2 pronúcleos 18 hpi (Figura I-A). A clivagem inicial, 2 células, ocorreu no dia 2 (42 hpi) (Figura I-B), apresentando morfologia normal (grau I). No dia 3 o embrião apresentou 4 células, grau I (66hpi) (Figura I-C), mantendo a mesma morfologia no dia 4 (90hpi). No dia 5 (114hpi), o embrião atingiu o estágio de 8 células (Figura I-D) e no dia 6 (138hpi) iniciou o processo de compactação atingindo o estágio de massa compacta com limites indefinidos, não atingindo o estágio de blastocisto (Figuras I-E e I-F). Dentre os outros 7 embrões, 4 atingiram o estágio de blastocisto e foram transferidos, resultando em uma gravidez única.
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Figura I. Estágios de desenvolvimento do processo de fertilização de oócito sem zona pelúcida (zigoto até blastocisto)
Discussão
Sabe-se que a zona pelúcida apresenta funções importantes tanto no processo de fertilização quanto na proteção do embrião durante os estágios iniciais de desenvolvimento. A presença de receptores na superfície da zona pelúcida, chamados de ZP3, favorecem a ligação do espermatozóide e consequentemente fertilização do óocito. Após a penetração do espermatozóide, ocorre então a reação zonal, a qual é responsável pelo endurecimento da zona pelúcida, impedindo a ocorrência da polispermia.
Durante os primeiros estágios de clivagem, os blastômeros se encontram fracamente aderidos, e a zona pelúcida evita a desagregação dos mesmos. Após a compactação dos blastômeros e desenvolvimento do blastocisto essa função se faz necessária, sendo que gravidezes tem sido descritas após transferências de blastocisto sem zona pelúcida (Fong et al., 1997).
Para a realização da ICSI, funções importantes da zona pelúcida para o processo de fertilização do óocito não se fazem necessárias, pois apenas um espermatozóide é injetado diretamente dentro do ooplasma. Entretanto, a ausência da zona pelúcida pode prejudicar o processo de polarização dos blastômeros e consequentemente a compactação e o desenvolvimento de blatocistos (Ding et al., 1999).
Este caso demonstrou que oócito sem zona pelúcida podem apresentar clivagem embrionária adequada até o estágio de 8/16 células. Fong et al. (1997) demonstram que a fertilização desses oócitos pode resultar em em desenvolvimento de blastocistos. Entretanto, estudos são necessários para verificar-se gravidezes advindas de óocitos sem zona pelúcida apresentam desenvolvimento normal. Assim sendo, poderemos utilizar rotineiramente esses óocitos para realização da ICSI.