JBRA Assist. Reprod. 1999;03(03):14-16
ARTIGO ORIGINAL
doi: 10.5935/1518-0557.1999.3.3.03
RESUMO
Um estudo prospectivo e randomizado comparou a eficiência do bloqueio ovariano com acetato de leuprolide versus nafarelin numa população cuja indicação para a reprodução assistida era o fator masculino. Num total de 238 pacientes foram rndomizadamente alocadas em dois tipos de trtamento: Grupo I (119 pacientes): nafarelin (Synarel, Searle) 200 Jig via nasal 2X por dia; Grupo II (119 pacientes): acetato de leuprlide (Luprn, Abbott) 0.5 mg subcutâneo IX por dia. Ambos os bloqueios iniciaram na 2° fase (21° dia do ciclo menstrual) e foram prlongados até o dia do hCG (5.000-10.000 UI). Todas as pacientes receberam uma dose fixa de FSH por 7 dias e no 8° dia de estimulação as doses foram adaptadas de acordo com a resposta ovariana. Quanto aos resultados percebemos que a idade das pacientes do grupo I (34.1 ± 3.79) foi similar (p=0.93) a das pacientes do Grupo II (34 ± 4.64). O númer de oócitos coletados no Grupo I (10.5 ± 5.93) também foi igual (p=0.57) ao Grupo II (10.2 ± 6.36). Em adição, não houve diferença (p=0.58) no númer de oócitos em M II entre o Grupo I (8.2 ± 4.61) e o Grupo I (7.9 ± 5.2). A taxa de fertilização e o escore embrionário foram similares (p= 0.81 e p=0.25, respectivamente) entre o Grupo I (67.5 ± 21.3% e 34.4 ± 14.4, respectivamente) e o Grupo II (68.1 ± 23% e 32.2 ± 14.7, respectivamente). Por outro lado, a taxa de gravidez por punção, gravidez por transferência e taxa de implantação entre o Grupo I (30.2%, 31.3%, 16.2%, respectivamente) e o Grupo II (24.4%, 25.2% e 12.6%, respectivamente) também foram similares (p=0.38, p=0.37 e p=0.22, respectivamente). Em conclusão os dados atuais não demonstrm diferenças significativas no bloqueio ovariano com acetato de leuprolide versus nafarelin em pacientes cuja indicação par reprodução assistida foi o fator masculino.
Unitermos: leuprolide acetate, nafarelin, ICSI
Abstract
A prospective study was conducted to compare the efficiency of ovarian blockade with leuprolide acetate versus nafarelin in a population whose indication for assisted reproduction was the male factor. 238 patients were assigned at random to two types of treatment: Group I, nafarelin (Synarel, Searle), 200 μg by the nasal route twice a day; and Group II, leuprolide acetate (Lupron, Abbott), 0.5 mg by the subcutaneous route once a day. Both types of blockade were started during the 2nd phase (21st day of the menstrual cycle) and were continued until the day of HCG (5,000-10,000 IU). Ali patients received a fixed dose of FSH for 7 days and on the 8th day of stimulation the doses started to be adapted according to ovarian response. Patients age did not differ (p=0.93) between group I (34.1±3.79) and group II (34±4.64). The number of oocytes retrieved at group I (10.5±5.93) was also similar (p=0.57) from the group II(10.2±6.36). ln addition, there is no difference (p=0.58) of the number of oocytes retrieved at metaphase II between the group I (8.2 ±4.61) and the group II (7.9±5.2). Fertilization rates and embryos scores were similar (p=0.81 and p=0.25, respectively) between group I (67.5% ±21.3 and 34.4%±14.4) and group II (68.1%±23 and 32.2%±14.7, respectively). On the other hand, pregnancy rates per punction and per embryo transfer and implantation rates between group I (30.2%, 31.3%, 16.2%, respecti vely) and the group II (24.4%, 25.2% and 12.6%, respectively) were also similar (p=0.38, p=0.37 and p=0.22, respectively). Thus far, the data do not demonstrate significant differences in ovarian blockade with leuprolide versus nafarelin in patients whose indication for assisted reproduction was the mal e factor.
Keywords: acetato de leuprolide, nafarelin, ICSI
Introdução
Os agonistas do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH-a) são modificações do decapeptideo, GnRH, e sua ação é baseada num bloqueio reversível da liberação das gonadotrofinas hipofsárias, o que resulta na supressão da função ovariana. Na última década, a maioria dos centros de fertilização in vitro (FIV) tem empregado os GnRH-a para supressão hipofsária antes da administração das gonadotrofinas. O pré-tratamento com GnRH-a aumenta o número de folículos em desenvolvimento, previne o pico prematuro de LH e reduz o número de ciclos cancelados.
Vários GnRH-a têm sido desenvolvidos, com diferentes potenciais biológicos, meia-vida plasmática e vias de administração. Devido a inconveniência das injeções diárias o GnRH-a intranasal pode ser uma alternativa de admnistração simples e não invasiva.
O objetivo deste estudo foi comparar o acetato de nafarelin (Synarel, Searle) ao acetato de leuprolide (Lupron, Abbott) usado como adjuvante na indução da ovulação em pacientes submetidas ao programa de injeção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI).
Material e Métodos
Um total de 238 pacientes submetidas ‘a estimulação ovariana para ICSI foram de forma prospectiva e randomizada divididas em dois grupos: Grupo I: acetato de nafarelin 20 μg via nasal duas vezes ao dia; Grupo II: acetato de leuprolide 0.5 mg via subcutâneo uma vez ao dia. Ambos os bloqueios iniciaram na 2° fase (21° dia do ciclo menstrual) e foram prolongados até o dia do hCG (5.000 - 10.000 UI)
Habitualmente, 14 dias após o uso do análogo e estabelecido o bloqueio (menstruação), iniciou-se o uso de FSH recombinante na dose fixa de 150 ou 225 UI pelo período de 7 dias. No oitavo dia da estimulação ovariana, teve início a monitorização do desenvolvimento folicular somente por ultra-som vaginal, sendo as doses de FSH puro adaptadas com a resposta ovariana, quando o mínimo de 3 folículos com diámetro ≥ 17 mm foram observados, gonadotrofina coriônica humana (hCG) foi administrado na dose de 5.000-10.000 UI.
Os oócitos foram coletados dos folículos através de punção transvaginal guiado por ultra-som, 34-36 horas após hCG. Após identificação no fluido folicular, os oócitos foram classificados pela maturidade. O complexo cúmulus-corona foi removido pela exposição em solução de hialuronidase type IV (H-4272, Sigma Chemical Co, USA) na concentração de 80 UI/ml. Os oócitos desnudados foram incubados em meio IVF-50 (Scandinavian IVF Science AB, Sweden) até o momento do ICSI.
Na separação dos espermatozóides do fluido seminal foi usado gradientes descontínuos de Sperm-Prep-100TM (Scandinavian IVF Science AB, Sweden), nas frações 40% e 90%.
A ICSI foi performada em um microscópio invertido Olympus IMT-2 equipado com sistema de lentes Hoffman, e acoplado com um micromanipulador automático e injetores.
Uma solução de 10% polivinilpirrolidina (PVP-ICSI-100, Scandinavian IVF Science AB, Sweden) diluída em IVF-50 foi usada para imobilizar os espermatozóides. A solução viscosa de PVP é produzida especialmente para o procedimento de ICSI, e testada previamente para a presença de DNA e endotoxinas (Svalander et al., 1995).
O primeiro corpúsculo polar foi posicionado ‘as 6:00 horas, e a micropipeta com espermatozóide, introduzida horizontalmente na posição de 3:00 horas dentro do ooplasma . Gentil sucção é aplicada cuidadosamente para quebrar o oolema e evidenciar a presença de ooplasma dentro da micropipeta, confirmando a deposição intracitoplasmática do espermatozóide. O espermatozóide imobilizado é inserido junto com o ooplasma aspirado, com um mínimo volume possível de PVP (Svalander et al., 1995). Os oócitos são observados 16 a 18 horas do procedimento para determinar a presença ou ausência de pronúcleos. O processo de fertilização normal é definido pela formação de dois pronúcleos distintos, seguido pelo aparecimento de clivagem embrionária após 24 horas da fertilização. A transferência de embriões (TE) foi realizada rotineiramente após 48 horas em cultura e os embriões supranumerários são criopreservados no final do segundo dia.
Resultados
A idade das pacientes do Grupo I (34.1 ± 3.79) foi similar (p=0.93) adas pacientes do Grupo II (34 ± 4.64). O número de oócitos coletados no grupo I (10.5 ± 5.93) também foi igual (p=0.57) ao Grupo II (10.2 ± 6.36). Em adição, não houve diferença (p=0.58) no número de oócitos em M II entre o Grupo I (8.2 ± 4.61) e o Grupo II (7.9 ± 5.2).
A taxa de fertilização e o escore embrionário foram similares (p= 0.81 e p=0.25, respectivamente) entre os Grupo I (67.5 ± 21.3% e 34.4 ± 14.4, respectivamente) e os Grupo I (68.1 ± 23% e 32.2 ± 14.7, respectivamente). Por outro lado, a taxa de gravidez por punção, gravidez por transferência e taxa de implantação entre os Grupo I (30.2%, 31.3%, 16.2%, respectivamente) e o Grupo II (24.4%, 25.2% e 12.6%, respectivamente) também foram similares (p=0.38, p=0.37 e p=0.22, respectivamente).
A taxa de aborto foi de 8.3% no Grupo I e de 6.9% no Grupo II e a taxa de gestação ectópica foi de 2.7% no Grupo I e de 3.4% no Grupo II (Tabela I).

Tabela I. Resultados clínicos e laboratoriais
Discussão
O GnRH-a tem sido utilizado com sucesso nos esquemas de indução da ovulação em programas de reprodução assistida para prevenir um pico prematuro de LH e para um melhor controle do desenvolvimento e maturação folicular. Este estudo foi realizado para comparar dois diferentes GnRH-a, o acetato de leuprolide e o acetato de nafarelin, com duas diferentes vias de administração.
Yuzpe et al. (1995) analisaram a eficácia do acetato de nafarelin intranasal em duas diferentes dosagens 400 μg/dia versus 600 μg/dia num protocolo longo de segunda fase. O bloqueio ovariano após 11 dias de medicação foi similar em ambos os grupos, 82% no grupo de 400 μg/dia versus 87% no grupo de 600 μg/dia. No presente estudo optamos pela utilização de 20 μg aplicados duas vezes ao dia.
Penzias et al. (1992) num estudo com 42 pacientes que foram submetidas a primeira tentativa de FIV foram de maneira randomizadas divididas para receberem acetato de nafarelin ou acetato de leuprolide e observaram que as pacientes que receberam o nafarelin necessitaram de menos hMG e que possuiam uma quantidade superior de embriões disponíveis para criopreservação do que aquelas que receberam o leu pro lide.
Por outro lado, Goldman et al. (1994) compararam o acetato de nafarelin com o acetato de buserelin, ambos em forma de spray nasal em pacientes submetidas a FIV Nesta população não houve diferenças significativas na resposta das pacientes medidas pelo cancelamento de ciclos, número de oócitos coletados, taxa de fertilização e bem como no que se refere as taxas de gestações. Em outro estudo, comparando o nafarelin com o buserelin, Lockwood et al., 1995 também não observaram diferenças nas taxas de gestação entre os dois GnRH-a.
Em adição, Dantas et al. (1994) realizaram um estudo randomizdoem 24 mulhers submtidas a FIV parareceberem 20 μg duas vezes ao dia versus o acetato de leuprolide 1mg/dia/SC. Nesta população eles também não observaram diferença entre o número de folículos, oóitos coletados, taxa de fertilização, número de embriõs transferidos, número de embriões congelados e taxa de gestação.
Entretanto, Martin et al. (1994) avaliaram de forma retrospectiva 510 ciclos consecutivas de FIV que receberam nafarelin (284 pacientes) e leuprolide (226). A taxa de parto por coleta de oócitos foi superior (p < 0.05) no grupo de nafarelin (34%) quando comparada com o grupo de leuprolide (24%).
Na avaliação do presente estudo não observamos diferença nas pacientes que receberam o nafarelin e o leuprolide no que se refere ao número de oócitos coletados, número de oócitos em M II, taxa de fertilização, escore embrionário, taxa de gravidez por punção, gravidez por transferência e taxa de implantação.
Em conclusão, os dados atuais não demonstram diferenças significativas no bloqueio ovariano com acetato de Ieuprolide versus nafarelin em pacientes cuj a indicação para reprodução assistida foi o fator masculino, entretanto o uso do spray nasal do nafarelin teria uma vantagem teórica de diminuir a necessidade de medicamentos injetáveis e poderia ser mais conveniente e prático para algumas pacientes.