JBRA Assist. Reprod. 2000;04(02):83-85
ATUALIZAÇÃO

doi: 10.5935/1518-0557.2000.4.2.07

Aspectos emocionais mobilizados pela fertilização assistida

Emocional aspects due assisted fertilization

R. M. M. Melamed, E. Borges Jr., A. Faconelli Jr., L.M. Rossi-Ferragut

Correspondência para:
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Resumo
Este artigo teve por objetivo levantar um questionamento acerca das questões emocionais relacionada à infertilidade e ao processo de reprodução assistida. O diagnóstico de infertilidade afronta o desejo do casal e a consequência imediata pode ser representada por uma profunda angústia. O foco de atenção está direcionado para os casais que buscam técnicas de reprodução assistida. Casais que já passaram por tratamento anterior atribuem o insucesso da fertilização aos profissionais envolvidos com o procedimento, buscando assim uma forma de diminuir a própria angústia diante do desprazer e de todos os outros sentimentos negativos. Conclui-se portanto que, se as questões emocionais envolvidas nesse processo não forem tratadas, ficarão mantidos os sentimentos de vazio e frustração.

Unitermos: aspectos emocionais, IVF

Abstract
The aim of this article was to discuss about emotional aspects and its relation with infertility and assisted reproduction processo The infertility diagnosis, normally is against to couple desire and the consequence can be an immense aftliction. The main attention is under couples who are looking for assisted reproduction technologies and already have done prior treatment without success. They have attributed the failure to professionals who have worked in this area. With this, they believe decreasing their proper affliction due negative feelings. We have concluded that, if emotional questions involved in this process will be not treating, frustration feelings will remain

Key words: emocional aspecta, IVF

Introdução
o profissional que acompanha casais inférteis está lidando com problemas que superam a condição física. Infertilidade não é encarado como doença. De fato, em muitos casos, nenhuma evidência de anormalidade é encontrada e esse estado não coloca em risco a saúde física. No entanto, se considerarmos saúde como um estado de completo bem estar social, físico e mental e não somente ausência de enfermidade ou doença, podemos considerar que nos casais inférteis, este estado encontra-se absolutamente comprometido. Frequentemente, estados de angústia e de frustração, a perda do controle emocional, o isolamento social e familiar e até inadequação sexual são situações frequentes e podem agravar a situação do casal. Nessa situação a relação médico-paciente passa a ter fundamental importância e é necessário que se tenha conhecimento dos fatores emocionais que envolvem o casal que procura um serviço de reprodução assistida.
Assim sendo, o objetivo desta apresentação é provocar um processo reflexivo diante das questões emocionais relacionadas à infertilidade e ao processo de reprodução assistida.

Infertilidade propriamente dita
Mariani et al. (1983) demonstram que um casal exposto à relações sexuais rotineiras sem contraceptivos, tem cerca de 20% de possibilidade de gestação ao mês. No período de um ano essa possibilidade pode atingir cerca de 85 a 90%, significando que a chance de não conseguir uma gestação por ano é de 10-15% em condições normais. Diante desses dados, um casal pode ser considerado infértil quando a gestação não ocorre após um ano de tentativas sem a utilização de métodos anticoncepcionais (Rutherford, 1997). Em relação à etiologia da infertilidade, em média, 40 % das causas de infertilidade conjugal são atribuídas aos fatores femininos, 40% aos fatores masculinos e 20% devem-se a causas combinadas, com fatores masculinos e femininos presentes.
Segundo Pellicér et al., 1996, um dos principais fatores que afetam a fertilidade do casal é a idade materna avançada. É sabido que ocorre uma diminuição gradativa na capacidade reprodutiva após os 35 anos, que se acentua após os 40 anos. Os distúrbios da fertilidade envolvem as mesmas considerações diagnósticas e terapêuticas como outro problema médico. O que torna esta condição única e mais complexa é o envolvimento de duas pessoas na sequência da investigação e tratamento.

O desejo de conceber
Na busca do bebê, várias emoções podem estar presentes na vida do casal que recebe o diagnóstico de esterilidade e se depara com uma realidade que afronta o desejo do casal, tendo como consequência principal e imediata, a angústia e incapacidade.
Em 1926, Freud 3 definiu os estados de angústia como reveladores da existência de: "uma característica específica de desprazer, atos de descarga e a percepção destes atos", e ainda como "um sinal dado pelo ego de forma a acionar a instância prazer-desprazer".
No presente contexto no que se refere ao consciente, o prazer estaria associado à gestação e ao nascimento do filho e o desprazer à impossibilidade de realizar este desejo.
Nesse raciocínio, duas são as alternativas: conformar-se com o diagnóstico e canalizar energias para outras fontes de prazer ou partir para os tratamentos de reprodução assistida, insistindo na realização deste desejo.
Objetivando um foco maior de atenção nos casais que buscam a reprodução assistida, é necessário lembrar que a promoção de grupos de discussão e aconselhamento que possam dar suporte para o entendimento do processo a que se submeterá, com reais possibilidades de êxito em cada um dos métodos pode ser uma das grandes questões para o sucesso terapêutico.
Em termos psicológicos, os reais desejos que mobilizam a busca pela Medicina Reprodutiva também devem ser listados e analisados. Ter desejos caracteriza uma condição inata do ser humano que exibe uma função simbólica e uma potência imaginária, provocando diferentemente em cada um, uma afetividade particular.
Uma vez em contato com nossos próprios desejos, extrapolamos as possibilidades do real e agimos independentemente da realidade. De acordo com a psicanálise, são os desejos os principais responsáveis por todas as relações que estabelecemos na vida. O sujeito humano constitui-se a partir do lugar que ocupa no desejo dos outros. As relações parentais são assim determinantes na vida da pessoa, desde antes de seu nascimento.
Desta forma, o desejo de ter um filho é exibido como um desejo de ampliar as relações parentais contrapondo-se como a esterilidade, por outro lado, como um fator impeditivo.
Querer ter um filho reflete os impulsos das satisfações narcísicas e da possibilidade de recriar os antigos relacionamentos, além de cumprir a função parental esperada pela sociedade. Brazelton & Cramer, 1992 sugerem que "entre outros motivos narcisistas que alimentam o desejo de ter um filho podemos incluir o desejo que a pessoa tem de conservar uma imagem idealizada de si mesma como ser completo e onipotente, o desejo de duplicar a si mesma ou espelhar-se e o desejo de realizar os próprios ideais".
A princípio, o bebê pode ser percebido e descrito como prolongamento dos próprios pais, um apêndice, não sendo considerado como indivíduo.
A literatura sugere ainda, algumas das características do desejo narcísico presente no processo de gestação e nascimento do filho, dentre eles destacamos:
_ desejo de fundir-se com o outro indivíduo;
_ desejo de espelhar-se na criança;
_ realização de ideais e oportunidades perdidas.
Caberá portanto à criança ser portadora das características e do nome da família, responsável pelo cumprimento dos sonhos frustrados e expectativas do casal. Várias formas e possibilidades de futuro são edificadas a partir dos sonhos e fantasias e dentro deste sistema, a criança possui um futuro inconscientemente pré-determinado.
Como relatado até então, o desejo de ter um filho é alimentado por muitos motivos e impulsos diferentes. Em condições normais e racionais de vida, a gravidez e o parto constituem um episódio natural.

Diagnóstico e Tratamento da Infertilidade:
Somente processos fisiológicos absolutamente perfeitos permitem o estabelecimento de uma gestação. No transcorrer deste complexo trajeto molecular, muitas alterações podem ocorrer o que implicaria no não aparecimento de uma gravidez e consequentemente em uma condição de infertilidade. Uma vez realizado o diagnóstico, é necessário que os fatores prognósticos para o casal sejam ressaltados. Um dos mais importantes fatores, é sem dúvida a idade da paciente e a reserva ovariana, influenciando de forma contundente nas indicações e nos resultados dos tratamentos em infertilidade.Aconselha-se, inicialmente o emprego do tratamento clássico anterior à indicação de técnicas variadas de reprodução, no qual o médico interfere de alguma maneira manuseando gametas ou pré-embriões. A indicação da reprodução assistida não deve obedecer somente critérios técnicos, mas também levar em consideração a opinião do casal, que, para tanto, necessita conhecer detalhadamente os programas propostos.
Na entrevista de seleção dos casais para os procedimentos de fertilização assistida os pacientes devem assinar um termo de consentimento onde são esclarecidos sobre as técnicas a que vão se submeter, as chances de sucesso, os riscos e os efeitos colateriais que podem advir do tratamento. Assim como a fertilização assistida é um processo realizado passo a passo. Verificamos que as taxas de sucesso (do FIV) estão entre 25% e 35% de acordo com a estatística mundial. Poderíamos levantar muitas questões sobre o que ocorre com os casais que fazem parte dos 65%, ou seja com os que se depararam mais uma vez com o insucesso e com a frustração diante do possível sentimento de vazio que poderíamos denominar de luto. Levando-se em conta que a responsabilidade médica Iimitase à manipulação de game tas e pré-embriões e a transferência ao útero, caberia aos profissionais da área de saúde mental trabalhar os principais aspectos emocionais envolvidos neste processo, infelizmente não levados em conta.
Tais aspectos emocionais estão presentes na vida e são muito mais antigos que sua existência biológica. A história de cada um (da mulher e do homem) inscrita pela família de origem, determina o lugar ocupado pelo sujeito no núcleo atual (desempenhamos inconscientemente um papel pré-determinado) e às vezes, o filho pode não ser possível por razões de censura inconsciente. De acordo com Szejer & Stewart, 1997 a censura inconsciente não funciona no absoluto, mas articulada com uma situação particular, num contexto histórico dado". O ser humano é dotado de instâncias psíquicas formadas por diferentes conteúdos inconscientes e constituídas e por conteúdos não presentes no campo atual da consciência (os recalcados). Esta característica diferencia os seres humanos dos outros seres vivos.
Ao pensar na condição dos casais que buscam a fertilização "in vitro", além da observação do comportamento, postura, questionamento e dúvidas dos mesmos, por vezes a ansiedade fica evidenciada e misturada a outros sentimentos tais como angústia, culpa e o desejo, nem sempre tão evidentes. Verificamos que os casais que já passaram pelo tratamento anteriormente atribuem o insucesso da FIV aos profissionais (equipe médica) envolvidos no tratamento e buscam assim, no outro, uma forma de diminuir a própria angústia diante do desprazer e todos os sentimentos negativos que deste poderão advir. Tal como colocado por Freud, 1981 em Além do princípio do prazer, "as excitações internas que provocam desprazer são tratadas como se não fossem de dentro, mas de fora".
Concluímos, portanto, que se não tratadas as questões envolvidas neste processo com um todo, o vazio da dor e da frustração se manterá.
Para descrever este vazio que causa dor recorremos a um poema:
"E o que é uma renda? Não mais que uma linha, cordão ou fita, que contorna buracos, fazendo desenhos. Com esse contorno desfilam flores, folhas, arabescos, gregas uma infinidade de formas, mas o buraco continua lá. E o que acontece se, por acidente, ofio é puxado ?" Não sobra nada dos desenhos, apenas o fio. A renda com seus desenhos, é devolvida em sua condição de buraco, ao espaço vazio " Pinotti et al.,1996.

Referências
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Pinotti J. A., Grassiotto O. R., Bacha A. M. - A mulher conhecendo sua saúde. Editoração feita pelos laboratórios: SERONO, Rhodiafarma, Pharmacia UPJOHN. São Paulo, 1996.

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