JBRA Assist. Reprod. 2000;04(02):86-86
OPINIÃO
doi: 10.5935/1518-0557.2000.4.2.08
Venho comentar artigo publicado recentemente por Franco Jr. J. G. nesta revista (JBRA vol. 3 (3) 29 :32 - 1999). No interessante e abrangente artigo sobre as más-respondedoras, é comentado o uso de anti-oxidantes, como a L-arginina, no intuito de melhorar a resposta ovariana.
Acredito ser importante esclarecer que a substância citada "óxido nitroso"- vem a ser um gás anestésico de uso frequente (N02) mas que não tem função neuromoduladora como relatado. Alguns trabalhos o implicam como mecanismo de abortamento em dentistas que o utilizavam na sua prática como anestésico. O neuromodulador a ser citado é o óxido nítrico (NO), um neurotransmissor não ortodoxo, que tem sido relacionado a diversas funções fisiológicas como a vasodilatação e a modulação funções de leucócitos entre outras, além de funções em alguns sistemas endócrinos. A arginina é o aminoácido a partir do qual , sob ação da enzima NOS (nitric oxide synthase), é liberado o óxido nítrico (e a citrulina). O óxido nítrico é um gás que se difunde livremente pelas membranas celulares, onde irá estimular diretamente uma enzima (soluble gualylate cyclase) a produzir GMP- cíclico e a partir deste, desencadear diversas funções celulares. Desta forma, o NO não necessita de receptores para estimular uma resposta nas células que atinge.Isto permitiria que pudesse sincronizar um grupo de células que não estivessem diretamente conectadas (Gally, 1990). Além disso, foi demonstrada a ação do NO sob outros sistemas endócrinos (Kato). Estas possibilidades nos fizeram estudar os efeitos do óxido nítrico no sistema Iiberador de GnRH. O padrão pulsátil de liberação deste hormônio requer a sincronização de um grupo de células para a liberação de GnRH sob forma de um pulso. Assim, foram conduzidos uma série de estudos que demonstraram sua importância para a pulsatilidade do GnRH (Moretto, 1992 a,b; Negro Vilar, 1992).Outras publicações tem demonstrado efeitos interessantes do NO sobre os ovários, sugerindo também a sua participação na foliculogênese (ref. disponíveis). Esta área de atuação do NO certamente nos interessa bastante, para melhorar a resposta ovariana para as técnicas de reprodução assistida.A sobrecarga de arginina foi descrita como teste funcional para o hormônio do crescimento (GH). A participação do GH em esquemas de estimulação ovariana foi proposta recentemente. Entretanto, o alto custo, bem como a falta de comprovação dos seus benefícios em pacientes com resposta normal ao teste da clonidina, dificultam sua aplicação de rotina, mesmo em más-respondedoras. A sobrecarga de arginina poderia então ser uma alternativa mais acessível para pacientes selecionadas. Os autores citados por Franco Jr. parecem realmente indicar um papel do NO na melhora de resposta ovariana, mas precisamos de trabalhos que comprovem estes benefícios. Além disso, precisamos saber quem realmente seria beneficiado com o aumento do NO (via arginina) e a melhor forma de fazê-lo.