JBRA Assist. Reprod. 2001;05(02):55-59
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2001.5.2.02

Psicometria do estresse no casal infértil

Psychometry of stress in infertile couples

J. G. Franco Jr1,2, R. L. R. Baruffi1, 1, C. G. Petersen1, V. Felipe1, E. Garbellini1

1Centro de Reprodução Humana - Fundação Maternidade Sinhá Junqueira
2Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP), Ribeirão Preto, SP

Correspondência para:
J.G. Franco Junior
Centro de Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira
Rua Dom Alberto Gonçalves 1500
CEP 14085-100 Ribeirão Preto- SP
Fone: 16-626-2909 Fax : 16-628-3755
E-mail: crh@crh.com.br e/ou franco@highnet.com.br

Resumo
O estresse provocado pela dificuldade em ter filhos pode acarretar diversas alterações emocionais (ansiedade, depressão, somatização, agressividade, etc). A finalidade deste trabalho foi desenvolver um programa de avaliação psicológica (PAP) para tentar identificar casais com um perfil do tipo estressante quando enfrentam o problema da infertilidade.
Num total de 251 casais inférteis foi submetido ao programa de avaliação psicológica (PAP) do Centro Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira. As causas de infertilidade foram masculina (43.4%) e feminina (46.6%) e 10% de ambas. A infertilidade foi primária em 76% dos casos e secundária em 24% dos casos. A idade media das mulheres foi de 34.5± 5.2 anos e a dos homens de 37.9 ± 6.8 anos. A psicometria do casal infértil foi avaliada por um questionário com 15 perguntas que foram selecionadas para detectar reações emocionais provenientes de estresse. As respostas foram quantificadas em quatro graus com relação à frequência (1 = nunca ou raramente; 2= algumas vezes; 3 = muitas vezes; 4= sempre). A soma das respostas determinaram um escore (PAP escore) com nota mínima de 15 pontos e máxima de 60 pontos. O escore do PAP = 30 pontos foi definido como anormal.
A análise estatística foi realizada pelos testes de t Student, Mann- Whitney e Fisher, com nível de significância de 5%. A contiabilidade dos questionários foi avaliada pelo coeticiente alpha de Cronbach. O escore médio (27±8) do PAP das mulheres foi significativamente superior (p < 0.01, teste de Mann-Whitney) ao dos homens (22±7).
O coeficiente alfa de Cronbach foi de 0.88, idêntico para o questionário feminino e masculino. A avaliação do PAP escore foi anormal em 31.2% das mulheres e em 12.3% dos homens.
Em conclusão os dados demonstraram que uma das características do casal infértil brasileiro é que a mulher é habitualmente mais estressada pela situação de infertilidade do que o homem. O PAP escore foi uma terramenta simples e eficiente na identificação de mulheres e/ou homens com problemas de estresse causado pela infertilidade. A equipe do Centro de Reprodução (funcionários, biólogas, enfermeiras, médicos, etc.) começou a usar na rotina diária as informações fornecidas pelo PAP escore, sendo as pacientes com PAP escore anormal orientadas e esclarecidas quanto aos fatores geradores de estresse em infertilidade. Diversos conselhos (praticar esportes, viajar, ativar projetos pessoais, etc.) são indicados com a finalidade de ajudar a combater o estresse.

Unitermos: estresse, infertilidade, psicometria

Abstract
The stress provoked by the difficulty in having children can lead to various emotional changes (anxiety, depression, somatization, aggressiveness etc.) The objective of the present study was to develop a program of psychological evaluation in an atempt to identify couples with a profile of the stressful type when they face the problem of infertility. In a total of 251 in fertile couples were submitted to the program of psychological evaluation (PPE) of the Center for Human Reproduction, "Sinhá Junqueira" Maternity Foundation. The causes ofinfertility were male-related in 43 .4% of cases, female-related in 46.6%, and both male and female-related in 10%. Infertility was primary in 76% of cases and secondary in 24%. The mean age of the women was 34.5± 5.2 years and the mean age of the men was 37.9 ± 6.8 years. The psychometry of the infertile couples was evaluated using a questionnaire with 15 questions selected in order to detect emotional reactions caused by stress. The responses were assigned four grades with respect to frequency (I = never or rarely; 2 = sometimes; 3 = many times, and 4 = always). The sum of the responses corresponded to a PPE score ranging from 15 to 60 points. A PPE score of < 30 points was defined as abnormal.
Data were analyzed statistically by the Student t-testand the Mann-Whitney and Fisher tests, with the level of significance set at 5%. The reliability of the questionnaires was determined on the basis of the alpha coefficient of Cronbach. The mean PPE score for women (27±8) was significantly higher (p < 0.01, Mann-Whitney test) than the score for men (22±7). The alpha coefficient of Cronbach was 0.88, and was identical for the female and male questionnaires. The PPEscore was considered to be abnormal for 31 .2% of the women and for 12.3% of the men.
In conclusion the data demonstrate that one of the characteristics of Brazilian infertile couples is that women are habitually more stressed by the situation of infertility than men. The PPE score is a simple and efficient tool for the identification of women and/or men with problems of stress caused by infertility. The team of the Center for Human Reproduction (employees, biologists, nurses, doctors etc.) has started to use the information provided by the PPE score in the daily routine, and patients with an abnormal PPE score are informed and counseled about the factors generating stress in infertility. Advice is provided (practicing sports, traveling, activating personal projects etc.) in order to help combat stress.

Keywords: stress, infertility, psycometry

Introdução
A reprodução é considerada uma das principais necessidades básicas do homem, e uma crise psicológica pode se instalar quando algo interfere com sua habilidade de reproduzir. A crise da infertilidade é uma experiência emocional difícil pois possui um impacto em vários aspectos da vida conjugal ou individual como as relações sociais, objetivos de vida, imagem própria, relacionamento sexual entre outras.
Devido as consequências emocionais da infertilidade, é claro que as pacientes necessitam de um suporte psicológico como parte do processo de tratamento médico, e a responsabilidade deste suporte é de todos os integrantes da equipe de um Centro de Reprodução Humana (Covington, 1997). Interações com cada membro da equipe, do funcionário administrativo ao médico, influencia a percepção da paciente dos cuidados dispensados a ela, modificando assim seu nível de estresse.
Sensibilidade, paciência e calor humano criam um ambiente de suporte para os pacientes. Em adição, apesar do objetivo primário dos médicos, enfermeiras e embriologistas ser o diagnóstico e tratamento da infertilidade, deve-se também recordar que tratamos a paciente, não a doença.
De fato, a verdadeira marca de sucesso de um Centro de Reprodução deve estar na habilidade da equipe em ajudar as pacientes a sentirem que elas e a equipe realizaram o melhor, mesmo quando o tratamento falhou (Kemeter & Fiegl, 1998). Em vista destes fatos, o Centro de Reprodução Humana da Maternidade Sinhá Junqueira iniciou um estudo visando estabelecer um programa de avaliação psicológica (PAP). Ao mesmo tempo criou-se um modelo original de quantificação do estresse (PAP escore), baseado na observação das frequentes queixas emocionais do casal infértil brasileiro diante do estresse provocado pela infertilidade.

Material e Métodos
Um total de 251 casais inférteis foi submetido ao PAP do Centro Reprodução Humana da Fundação Maternidade Sinhá Junqueira entretanto 18 homens não responderam ao questionário. Nessa população as causas de infertilidade foram distribuidas da seguinte forma : masculina (43.4%) e feminina (46.6%) e 10% de ambas. A infertilidade foi primária em 76% dos casos e secundária em 24% dos casos. A idade media ds mulheres foi de 34.5 ± 5.2 anos e a dos homens de 37.9 ± 6.8 anos.
A psicometria do casal infértil foi avaliada por um questionário com 15 perguntas que foram selecionadas para detectar reações emocionais provenientes de estresse (Tabelas I e II, ver as perguntas). As respostas foram quantificadas em quatro gralls com relação a frequência (1 =nunca ou raramente; 2= algumas vezes; 3 =muitas vezes; 4= sempre). Finalmente, a soma das respostas determinaram um PAP escore com nota mínima de 15 pontos e máxima de 60 pontos.

 

Table 1
Tabela I. Resposta da população feminina infértil para as perguntas do PAP

 

 

Table 2
Tabela II. Resposta da população masculina infértil para as perguntas do PAP

 

Rotineiramente, os questionários foram respondidos separadamente pela população feminina e masculina, após a estimulação ovariana, e antes da aplicação das técnicas de reprodução assistida. O escore do PAP = 30 pontos foi definido como anormal.
A análise estatística foi realizada pelos testes de t Student, Mann-Whitney e Fisher, com nível de significância de 5%. A confiabilidade dos questionários foi avaliada pelo coeficiente alpha de Cronbach.

Resultados
O escore médio (27 ± 8) do PAP das mulheres foi significativamente superior (p < 0.01, teste de Mann-Whitney) ao dos homens (22 ± 7). Nas Tabelas I e II estão as respostas (graus 1 a 4) para cada uma das perguntas formuladas para a população feminina e masculina.
Em seguida, comparou-se a população feminina com a masculina quanto a dois tipos de respostas : natural (somatória das resposta com 1 e 2 pontos) e de estresse (somatória das respostas com 3 e 4 pontos).
A análise estatística desses dados foi realizada pelo teste de Fisher e mostrou os seguintes resultados : A população feminina apresentou níveis de resposta do tipo estresse estatísticamente (p<0.0001) superiores à população masculina, ou seja, as mulheres brasileiras ficam mais estresssadas que os homens brasileiros pelo fato de não terem filhos (pergunta 01). A população feminina mostrou níveis de resposta do tipo estresse estatísticamente (p=0.0016) superiores à população masculina quando são questionadas por familiares e amigos sobre a ausência de filhos (pergunta 02). A população feminina teve níveis de resposta do tipo estresse superiores (p=0.04) à população masculina quanto ao aspecto de ficarem chateadas por ocasião do convite para o aniversário de uma criança (pergunta 03). A população feminina apresentou níveis de resposta do tipo estresse significamente (p=0.006) superiores à população masculina quando a pergunta era referente ao fato de ficarem aborrecidos ao tomarem conhecimento da gravidez de uma pessoa amiga ou parente (pergunta 04). A população feminina mostrou níveis de resposta do tipo estresse estatisticamente superiores (p<0.001) à população masculina quando tomam conhecimento que menstruaram no ciclo de tratamento (pergunta 05). A população feminina apresentou comportamento estatísticamente (p=0. 13) semelhante à população masculina quanto ao aspecto de apresentarem alterações do relacionamento sexual pela ausência de filhos (pergunta 06).
A população feminina teve níveis de resposta do tipo estresse estatíticamente (p=0.02) superiores à população masculina quanto ao aspecto da falta de filhos estar prejudicando a atividade profissional (pergunta 07). A população feminina apresentou níveis de resposta do tipo estresse estatísticamente superiores (p<0.0001 à população masculina, quanto ao sentimento de inferioridade em relação a outra pessoa do mesmo sexo quejá possui filhos (pergunta 08). A população feminina mostrou comportamento idêntica (p=0.56) à população masculina quando a pergunta referia-se aos receios para o tratamento (pergunta 09). A população feminina apresentou níveis de resposta do tipo estresse estatísticamente (p=0.01) superiores à população masculina quando a possibilidade de ficar "louca" pela falta de filhos (pergunta 10). A população femina mostrou níveis de resposta do tipo estressante estatísticamente superiores (p=0.0001) à população masculina quanto ao fato de apresentarem sintomas físicos provenientes das tensões provocadas pela ausência de filhos. O homem brasileiro é menos sensível e não costuma apresentar esses sintomas (pergunta 11). A população feminina teve níveis de resposta do tipo estressante estatísticamente superiores (p=0.0003) à população masculina quanto ao aspecto de apresentarem uma sensação de vazio interior pelo fato de não ter filhos (pergunta 12). A população feminina apresentou níveis de resposta do tipo estressante semelhante à população masculina (p=0.56) quanto ao fato do relacionamento do dia a dia ficar prejudicado pela ausência de filhos (pergunta 13). A população feminina mostrou níveis de resposta do tipo estressante idênticos à população masculina (p=0. 13) quanto ao aspecto depressivo do isolamento pela ausência de filhos (pergunta 14). A população femiflina teve níveis de resposta do tipo estressante superior à população masculina (p < 0.0001) com relação ao fato de pensar diariamente em sua dificuldade em ter filhos (pergunta 15).
Por outro lado, as perguntas que mais frequentemente resultaram em respostas do tipo estressante tanto nas mulheres quanto nos homens foram as seguintes : I - Durante o dia a dia, você pensa na sua dificuldade em ter filhos (mulheres : 44.6%; homens : 21 .6%); II - Toda vez que a menstruação ocorre você fica deprimida (mulheres : 39.8%; homens : 16.3% compartilham essa depressão); III - Você sente uma sensação de vazio interior pelo fato de não ter filhos (mulheres : 37%; homens : 21.9%). IV- Os familiares e amigos costumam perguntar sobre o fato de não possuirmos filhos e quando isso ocorre não me sinto bem (mulheres : 36.2%; homens : 23.2%);
O coeficiente alfa de Cronbach foi de 0.88, idêntico para o questionário feminino e masculino. Os questionários foram homogêneos pois a exclusão de qualquer pergunta não alterou drasticamente o valor de alfa (Tabela III).

 

Table 3
Tabela III. Variações do coeficiente alfa de Cronbach com a retirada de uma das perguntas

 

Finalmente, a avaliação do PAP escore foi anormal em 31 .2% das mulheres e em 12.3% dos homens.

Discussão
O escore médio no PAP das mulheres foi significativamente superior ao dos homens. Esses dados demonstraram que uma das características do casal infértil brasileiro é que a mulher é habitualmente mais estressada pela situação de infertilidade do que o homem.
Além disso, algumas perguntas do questionário PAP foram capazes de identificar respostas estressantes da população feminina significativamente diferente da masculina. O fato de não ter filhos pertuba a mulher brasileira em um grau mais elevado do que o homem brasileiro, mas não se pode esquecer que 9.9% deles estão irritados quanto a situação de infertilidade.
As cobranças por familiares e amigos provoca respostas estressantes em ambas as populações : feminina (36.2%) e masculina (23.2%). A identificação desse fato facilita a discussão da equipe com o casal infértil, para encontrar uma forma confortável de lidar com essa situação estressante. Por outro lado, estímulos provocados pela pressão social (festas de aniversário, conhecimento de parentes ou familiares com gravidez recente) também foram capazes de identificar uma porcentagem importante de respostas do tipo estressante na população infértil, sendo novamente as mulheres mais sensíveis do que os homens.
Por outro lado, a menstruação foi uma fator significativo de depressão na população feminina (39.8%), apesar de que aproximadamente 16.3% dos homens serem solidários nesse momento. Oddens et al. (1999) afirmaram que um em cada quatro (24.9%) pacientes apresentaram escores indicativos de problemas depressivos.
Com relação ao relacionamento sexual a literatura descreve com insistência que este estaria prejudicado com a situação de infertilidade (Tarlatzis et al., 1993), entretanto, nesse relatório apenas 9.9% das mulheres e 6% dos homens brasileiros manifestaram-se como prejudicados sexualmente pela infertilidade.
A contribuição da mulher na renda familiar continua sendo um fato em crescimento no Brasil, os dados desse relatório evidenciaram que a atividade profissional não está sendo prejudicada de forma significativa nas mulheres e homens brasileiros com problema de infertilidade. Talvez muitos casais encontrem na atividade profissional uma forma de atenuar o estresse provocado para dificuldade de ter filhos.
Um sentimento de inferioridade em relação a pessoa do mesmo sexo porém com filhos é significativamente mais nítido na população feminina infértil do que na masculina. Isso atingiu apenas 6.5% dos homens.
O agravamento ansiedade do casal infértil pela falta de filhos poderá em algumas ocasiões gerar reações somáticas. A população feminina teve um índice significativamente maior de somatização que a masculina. Tal fato, confirma a tendência da mulher brasileira em ser mais susceptível do que o homem brasileiro ao enfrentar o fantasma da infertilidade.
A sensação de vazio interior pelo fato de não ter filhos e o pensamento diário na dificuldade em ter filhos é significativamente superior nas mulheres inférteis versus os homens inférteis, tais fatos mostraram mais uma vez a suscetibilidade feminina para o estresse da infertilidade.
Finalmente, o PAP escore foi uma ferramenta simples e eficiente na identificação de mulheres e/ou homens com problemas de estresse causado pela infertilidade. A equipe do Centro de Reprodução (funcionários, biólogas, enfermeiras, médicos, etc.) começou a usar na rotina diária as informações fornecidas pelo PAP escore, sendo as pacientes com PAP escore anormal orientadas e esclarecidas quanto aos fatores geradores de estresse em infertilidade. Diversos conselhos (praticar esportes, viajar, ativar projetos pessoais, etc.) são indicados com a finalidade de ajudar a combater o estresse.
Entretanto, apesar do PAP escore fornecer informações importantes para individualizar uma estratégia da equipe frente ao estresse provocado pela situação de infertilidade, a avaliação psicológica especializada sempre será bem-vinda nos casos selecionados (PAP escore anormal).

Referências
Covington S. N. - Reproductive medicine and mental health professionals: The need for collaboration in a brave new world. Orgyn 3: 19-21, 1997.

Kemeter P., Fiegl J. - Adjusting to life when assisted conception fails. Hum Reprod; 13: 1099-11 05, 1998.

Oddens B. J., den Tonkelaar L, Nieuwenhuyse H. - Psychosocial experiences in women facing fertility problems - a comparative survey. Hum Reprod 14:255-261, 1999.

Tarl atzis J., Tarlatzis B. C., Diakogiannis L, Bontis J., Lagos S., Gavriilidou D., Mantalenakis S. - Psychosocial impacts of infertility on Greek couples. Hum Reprod 8: 396-401 1993.