JBRA Assist. Reprod. 2001;05(03):99-101
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2001.5.3.02

A transferência de embriões em local não contíguo ao laboratório de gametas não altera as taxas de gravidez

Performing embryo transfer in a room not contiguous to the gamete handling laboratory does not influence the pregnancy rates

M. Cavagna, D.H. Mendes-Pereira, L. Shimabukuro, E. Catafesta, M. Giacobbe, M.N. Ladeira, I.T. Aranki

Correspondência para:
Mario Cavagna
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Resumo
Os autores realizaram estudo retrospectivo comparando os resultados de transferências embrionárias realizadas em centro cirúrgico, em local contíguo ao laboratório de gametas(grupo I), e em salas de consultório da unidade de reprodução assistida, afastadas do laboratório (grupo II). Não houve diferença estatisticamente significante entre os dois grupos, no que se refere às taxas de gravidez e de implantação. Os autores concluem que a realização da transferência de embriões em sala afastada do laboratório de gametas, que comporta um trajeto maior do embriologista com o cateter de transferência, não provoca efeitos deletérios aos embriões e não intluencia os resultados.

Key words: embryo transfer, implantation rate, assisted reproduction.

Abstract
The authors evaluated retrospectively the results of embryo transfers carried out in the operating theatre under sterile conditions, close to the gamete handling laboratory (group I), and in the examination rooms not contiguous to the laboratory (group II). There were not statistically significant differences in pregnancy and implantation rates between these two groups. It is concluded that performing embryo transfers in a room not contiguous to the gamete handling laboratory does not have an adverse effect on the embryos and does not influence the pregnancy and implantation rates.

Unitermos: transferência de embriões, taxa de implantação, reprodução assistida.

Introdução
Uma das etapas mais significativas de todos os procedimentos de Reprodução Assistida (RA) é a transferência de embriões, que representa, também, a última fase de um longo ciclo de tratamento; eventuais falhas nessa etapa, portanto, comprometem todo o trabalho anteriormente realizado. A transferência de embriões, porém, foi o procedimento que menos sofreu alterações em sua técnica desde o nascimento de Louise Brown em 1978 (Steptoe e Edwards, 1978). Várias publicações registram que a transferência é etapa cuja técnica influencia fortemente as taxas de gravidez e de implantação (Sharif et al., 1995; Hale, 2001; Kably et al., 2001). De acordo com Brinsden (1999), a transferência é um procedimento que deve ser realizado em sala operatória, com os cuidados de antissepsia habituais, embora sem a necessidade da paramentação cirúrgica. Hale (2001) refere que, embora não haja pré-requisitos, a transferência sob monitorização ecográfica, a avaliação prévia do canal cervical, os cuidados para se evitar os traumas e a presença de muco no cateter, são fatores que interferem no sucesso do procedimento. Normalmente, as transferências são realizadas em ambiente contíguo ao laboratório de gametas, de modo que o embriologista possa carregar o cateter e entregá-lo ao clínico imediatamente após sua preparação. O presente trabalho foi idealizado para verificar se a transferência realizada em ambiente não cirúrgico, afastado do laboratório de gametas, obrigando o transporte do cateter carregado para outra sala, tem alguma influência sobre as taxas de gravidez e implantação nos programas de RA.

Material e Métodos
Foram avaliados, retrospectivamente, os resultados de 60 transferências de embriões. Destas, 30 foram realizadas em nosso centro cirúrgico, em sala contígua ao laboratório de gametas, de modo que após o carregamento do cateter, este foi imediatamente entregue ao médico para a transferência (grupo I); 30 foram realizadas nos consultórios de nossa unidade de RA, de modo que após o carregamento, os cateteres foram transportados, pelo embriologista, até uma sala distante do laboratório de gametas (grupo II). A distância entre o laboratório de gametas e as salas de consultório é de aproximadamente 10 metros. A idade das pacientes do grupo I variou de 27 a 42 anos (média: 33,08); no grupo II, a idade variou entre 25 a 42 anos (média: 33,56). O critério para decidir o local da transferência foi a atividade do centro cirúrgico: quando havia aspirações foliculares a serem realizadas, as transferências foram feitas nas salas de consultório, para agilizar os procedimentos. Todas as transferências foram realizadas com o cateter Tom Cat (Kendall, USA) e em todos os casos foi realizada a transferência de prova após a aspiração folicular. Nessa ocasião, é realizada a histerometria com o cateter de transferência, de modo que no momento da transferência real o embriologista entregue ao médico o cateter já marcado para ser posicionado a uma distância de 1 cm. do fundo uterino. Como é de rotina em nossa unidade de RA, a transferência é feita com a paciente em posição ginecológica, procedendo-se à limpeza do colo com gase embebida em meio de cultura; o muco cervical é cuidadosamente aspirado. O pinçamento do colo uterino e a transferência sob visão ecográfica são utilizados apenas se a transferência de prova se revela difícil. Os dados obtidos foram avaliados estatisticamente com o teste do qui-quadrado.

Resultados
No total de 60 pacientes estudadas, verificou-se a ocorrência de 21 gestações clínicas, perfazendo uma taxa de gravidez de 35% por transferência. O número de embriões transferidos, por paciente, variou de 1 a 4 (média: 2,9). O número total de embriões transferidos foi 175, dos quais 29 se implantaram, pedazendo uma taxa de implantação global de 16,5%. No grupo I, foram transferidos 85 embriões (média: 2,8 por paciente). Houve 10 gestações clínicas, com uma taxa de gravidez por transferência de 33,3%; 16 embriões se implantaram, com uma taxa de implantação de 18,8%. No grupo II, foram transferidos 90 embriões (média: 3,0 por paciente). Houve II gestações clínicas, com a implantação de 13 embriões, com taxas de gravidez e implantação de 36.6% e 14,4%, respectivamente. Não houve diferença estatisticamente significante nas taxas de gravidez e implantação entre os dois grupos (p=0,71 e p=0,49 para as taxas de gravidez e implantação respectivamente). Os resultados estão si ntetizados na tabela abaixo (Tabela I).

 

Table 1
Tabela I. Taxas de gravidez e implantação

Discussão
Existem vários fatores que podem influir no sucesso da transferência embrionária. Kovacs (1999) pesquisou, em clínicas de RA da Austrália, 12 aspectos relacionados à transferência de embriões, aqui transcritos na ordem de importância observada pelo autor:

1. Remoção de hidrossalpinges antes do tratamento;
2. Ausência de sangue no cateter;
3. Tipo do cateter utilizado;
4. Não tocar o fundo do útero;
5. Evitar o pinçamento do colo;
6. Remoção do muco cervical;
7. Avaliação ecográfica da cavidade uterina prévia ao tratamento;
8. Deixar o cateter no local por pelo menos um minuto;
9. Repouso após a transferência;
10. Transferência de prova prévia ao tratamento;
11. Transferência sob visualização ecográfica;
12. Administração de anti-inflamatórios para evitar a contratilidade uterina.
Dentre esses fatores, a transferência de prova, colocada apenas em décimo lugar na pesquisa de Kovacs, nos parece que teve sua importância subestimada. Acreditamos que a transferência de prova seja fundamental para o sucesso da transferência real, sendo rotineiramente empregada em nossa clínica. Pode ser realizada no momento da aspiração folicular, como fazemos, embora alguns trabalhos preconizem sua realização em ciclo anterior ao tratamento (Mansour et al., 1990; Knutzen etal., 1992), ou mesmo imediatamente antes da transferência real (Sharif et al., 1995). Através da transferência de prova, podemos avaliar o grau de dificuldade, a melhor maneira de introduzir o cateter, determinar sua curvatura, verificar se há necessidade de pinçamento do colo e eventualmente programar a transferência sob visão ecográfica. Consideramos que essa prática permite uma transferência mais adequada e melhora as taxas de gravidez, em concordância com trabalhos realizados inclusive em nosso meio (Perin e Maluf, 2001).
Procuramos, com o presente trabalho, avaliar um outro fator que poderia interferir com o sucesso do tratamento: o local da transferência de embriões. A maioria dos serviços de RA possui sala contígua ao laboratório de gametas, onde são, normalmente, realizadas as aspirações foliculares e as transferências.
Com tal procedimento, o cateter é carregado pelo embriologista e imediatamente entregue ao médico para a transferência. O procedimento realizado em local distante do laboratório, poderia determinar efeitos deletérios, provocados pelo transporte do cateter contendo os embriões até o local da transferência. Esse fato comporta um tempo maior de exposição à temperatura ambiente, o que poderia prejudicar a qualidade embrionária pelo resfriamento dos embriões. Além disso, a transferência em centro cirúrgico é realizada em condições de assepsia claramente mais rigorosas em relação àquela realizada em uma sala de consultório. Em nossa unidade de RA, porém, quando a sala cirúrgica está sendo utilizada para as aspirações foliculares, as transferências são realizadas nas salas de consultório, relativamente afastadas do laboratório de gametas. Os resultados dessa investigação mostram que as taxas de gravidez e de implantação não sofrem alterações estatisticamente significativas quando a transferência é realizada em local afastado do laboratório. O trajeto do laboratório à sala de transferência não parece afetar a qualidade dos embriões; para que ocorressem efeitos negativos sobre os embriões, estes deveriam permanecer à temperatura ambiente por mais de dois minutos (Brinsden, 1999), sendo esse, provavelmente, o principal aspecto a ser considerado. Nota-se, aí, mais uma vez, o valor da transferência de prova, capaz de predizer eventuais dificuldades e permitir estratégias para contorná-las, de modo a se evitar perda de tempo na tentativa de se introduzir o cateter através do canal cervical. Brinsden (1999) recomenda, ainda, que as luzes da sala operatória se mantenham apagadas até que o cateter chegue ao cirurgião, sendo acesas somente no momento da transferência. Entretanto, nossos resultados mostram que a transferência realizada em ambiente cirúrgico, onde as condições de assepsia são mais rigorosas, não parece influenciar positivamente as taxas de implantação, comparando-se à transferência em salas de consultório. Esse fato nos leva a concluir que a transferência de embriões realizada em local afastado do laboratório de gametas não acarreta efeitos adversos às taxas de gravidez e implantação nos tratamentos de RA.

Referências
Brinsoen P. - Oocyte recovery ano embryo transfer techniques . In: Brinsoen, P. R. ano Rainsbury, P. A. - A textbook of in vitro fertilization and assisted reproouction - 2nd edition. Lancs : Parthenon Publishing, p. 171.

Hale L. - Embryo transfer: how to ensure correct placement in utero. Reprod. Fertil. Dev., 13 :95-98, 2001.

Kably A., Castelazo E., Vaca O., Barroso G. - Embryo transfer: a critical step in assisted reproduction. Ginecol. Obstet. Mex., 69:118-121, 2001.

Knutzen V., Stratton C.J., Sher G. et al. - Mock embryo transfer in early luteal phase the cycle before in vitro fertilization ano embryo transfer: a oescriptive study. Fertil. Steril., 57:156-162, 1992.

Kovacs G.T. - What factors are important for succesful embryo transfer after in-vitro fertilization? Hum. Reprod., 14:590-592, 1999.

Mansour R., Aboulghar M., Serour G. - Dummy embryo transfer: a technique that minimizes the problems of embryo transfer and improves the pregnancy rate in human in vitro fertilization. Fertil. Steril., 54:678-681, 1990.

Perin P.M., Maluf M. - O valor preditivo da transferência oe prova na avaliação do grau de dificuldade da transferência embrionária real em um programa de fertilização in vitro humana. Reprod. Clim., 16:98-105, 2001.

Sharif K., A fnan M., Lenton W. - Mock transfer with a full bladder immediately before the real transfer for in-vitro fertilization treatment: the Birmingham experience of 113 cases. Hum. Reprod., 10:1715-1718, 1995.

Steptoe P.C., Edwaros R.G. - Birth after there-implantation of a human embryo. Lancet, 2:366, 1978.