JBRA Assist. Reprod. 2005;09(2):28-30
RELATO DE CASO
doi: 10.5935/1518-0557.2005.9.2.06
G & O Barra, RJ - Reprodução Humana, Av. das Américas, 4666/sls 312-313, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ, CEP 22649-900, E-mail: g&obarra@cmb.com.br
RESUMO
Relato de caso. Casal fez tratamento de FIV/ICSI, transferindo quatro embriões, dos quais resultou um recém-nascido vivo, a termo, do sexo feminino. Após três anos, optaram por doar os três embriões excedentes. Foi realizada transferência para uma mulher solteira, que aguardou em lista de espera por um ano e quatro meses, tendo também obtido resultado positivo, com gestação em curso. É discutida a necessidade de se ampliarem as informações pré-consentimento informado, de modo a favorecer a aceitação desta possibilidade pelos casais que buscam as técnicas de reprodução assistida e ficam com embriões excedentes que não desejam utilizar.
Palavras-chave: embriões excedentes, doação de embriões, fertilização in vitro.
ABSTRACT
Case report. A couple was submitted to an IVF/ ICSI cycle that resulted in a normal female baby. After 3 years they decided to donate their 3 surplus embryos and a woman who had been waiting for 1 year and 4 months received them. She has now an ongoing single pregnancy. It is discussed the necessity of a more careful and open debate towards embryo donation for couples who resumed their treatment and do not want to try more babies.
Key words: surplus embryos, embryo donation, IVF
INTRODUÇÃO
Os ciclos de fertilização assistida têm como perspectiva inerente a possibilidade de haver embriões excedentes. O congelamento de embriões é, sem dúvida, o maior motivo de preocupações e questionamentos na assinatura dos termos de consentimento informado. Há real dificuldade dos casais em definir o destino dos embriões excedentes, uma vez que tenha havido sucesso ou que o tratamento seja descontinuado. A propósito, portanto, da descrição de um caso clínico, descrevemos a necessidade de se elaborar uma melhor abordagem dos casais pré-tratamento. Em tempos de Lei de Biossegurança, onde se aborda tempo de congelamento e possibilidade de doação para pesquisa, torna-se importante uma reflexão maior sobre a doação simples, abrindo portas para uma “adoção” por indivíduos não geneticamente relacionados.
CASO CLÍNICO
Casal SLC/JM, ela 37 anos, ele 50 anos, há quatro anos sem anticoncepção, ambos sem filhos, com infertilidade sem causa aparente, realizou procedimento de ICSI em 26/12/2001. No estímulo com protocolo longo, nafarelina associada a 2.250 UI de rFSH (Gonal F®) e 750 UI de uFSH (Pergonal®), resultaram 13 oócitos metafase II injetados, com transferência de quatro embriões a fresco (oito células, G1; três embriões com seis células, G1), sendo congelados outros três embriões, excedentes, no dia da transferência, dia 3 (cinco células G1; cinco células G2 e quatro células G2). O congelamento foi realizado em máquina Cryologic, utilizando protocolo lento com propanediol. Foram seguidas as normas gerais de indução da rotura folicular e suplementação com progesterona, resultando gestação gemelar tópica, confirmada com ultra-sonografia. Um dos embriões posteriormente involuiu (10 semanas), e a gestação culminou com o nascimento de um recém-nato vivo, a termo, do sexo feminino, de parto normal, em setembro de 2002.
Em 3 de dezembro de 2004, com documento do casal autorizando a doação dos embriões, foi consultada uma lista de espera, compatibilizadas condições de tipo físico e fator Rh e consultada a cliente LP, que ansiosamente aguardava havia um ano e dois meses. A referida cliente é solteira, procurara a clínica em outubro de 2003 com 44 anos, solicitando FIV com sêmen de doador. Com as dosagens desfavoráveis e ciclos irregulares, foi-lhe proposta a alternativa do programa de doação de embriões. Manteve-se em uso de valerato de estradiol + norgestrel (Cicloprimogyna®) até fevereiro de 2005. Ao menstruar iniciou com 2 mg de estradiol/dia (Natifa®), aumentados para 6 mg/dia quando do início da progesterona (Crinone®). Foram transferidos três embriões sob visão ultra-sonográfica, com passagem fácil do cateter de Wallace. A dosagem de beta-HCG realizada 15 dias após mostrou 387 UI, tendo sido aumentada a dose de estradiol para 8 mg/dia. Ultra-som com seis semanas mostrou gestação única em evolução.
DISCUSSÃO
A resolução 1358 do CFM, de 1992, estabelece que os embriões excedentes devem ser preservados por período de tempo indeterminado ou até que seja estabelecida uma legislação, enquanto define três destinos para os embriões: o congelamento indeterminado, a transferência para a mulher do casal, na concordância de ambos, ou a liberação para adoção, dentro de normas sigilosas. Não estão previstos o descarte e o não-congelamento. É aceito o uso das técnicas para mulheres solteiras.
O comportamento da população brasileira que busca as clínicas de reprodução não é conhecido oficialmente. Não sabemos também o número de embriões congelados no país. Entretanto, é fato que aumentam as filas de espera para doação de oócitos e de embriões. E o problema não é nacional, pois Kovacs et al. (2003) relatam o descarte de 3.000 embriões em 10 anos, enquanto a fila de espera em Melbourne é de cerca de três anos. Os problemas de doar dizem respeito em grande parte à noção de que a carga genética define a parentalidade, daí decorrendo uma certa culpa ao “delegar” o seu “próprio”, sem controle face ao destino futuro de um “potencial” filho (Fuscaldo, 2005).
Nosso casal doador, decidido a não ter outros filhos, relutou até a decisão de doar, mantendo seus embriões preservados, embora tal opção tivesse sido apresentada desde antes do procedimento inicial. Muito da sua insegurança dizia respeito aos “medos” em relação à sua carga genética, à fantasia de encontrar um potencial filho/a em uma rua qualquer, em uma cidade qualquer. Em determinado momento, levantaram inclusive a possibilidade de “transferir os embriões na menstruação”. Por fim, definiram que “assim seria melhor”, que não se sentiriam perturbados, que sua religiosidade não estaria em cheque, que viam melhor a doação do que a persistência do congelamento ou a execução e uma prática em que eles entendiam que “não davam qualquer chance” aos embriões.
Por que pode ser tão penoso doar e aceitar que uma criança eventual pode ser trazida à vida, para pessoa ou casal que ansiosamente deseja assumir a responsabilidade de amá-la e conduzi-la pela vida? Será melhor simplesmente não congelar ou descartar os embriões excedentes para “não haver preocupação” com uma filiação apenas suposta, e que nem pode se concretizar na realidade?
Por que, na vigência de uma comoção jornalística por outro lado, a imprensa leiga trata de embriões destinados para pesquisa e diferencia o material genético da filiação com uma aparente aceitação populacional maior? É uma mudança de pensamento ou estamos tratando de um assunto “teórico” com pessoas que não vivem o problema? Qual a diferença entre doar gametas, óvulos ou espermatozóides para outros casais, ou doar embriões ou até mesmo órgãos e tecidos? É preciso, certamente, que se encare e discuta mais amplamente estes tópicos. A realidade, hoje, da sociedade, construída com famílias diferentes entre o vínculo genético e o parental através das técnicas de reprodução assistida aponta para tal necessidade de discussão, definindo possibilidades e limites. Além de reduzir o número de embriões congelados, tal prática pode atender inúmeros mulheres/casais que se beneficiariam. Compete à sociedade como um todo esta reflexão, que não pode estar limitada aos especialistas em reprodução humana.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fuscaldo, G. Ethical, legal, social, counseling. Spare embryos: 3000 reasons to rethink the significance of genetical relatedness. RBM Online, 2005,10(2):164-168.
Glover, V. Causing death and saving lives. Harmondsworth: Penguin Books, 1977.159-163.
Golombok, S. Unusual families. RBM Online, 2005,10 supp 1:9-12.