JBRA Assist. Reprod. 2005;09(4):11-15
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2005.9.4.03

Proposta de Protocolo de Estudo do Biótipo Craniofacial para Banco de Sêmen

Paulo Franco Taitson,

Doutorando na área de reprodução humana. Pesquisador na área de análise e criopreservação de espermatozóides
Professor de Anatomia Aplicada ao Crescimento Crânio-Facial em nível de pós-graduação no CEO/IPSEMG

Received September 12, 2005
Accepted October 24, 2005

Endereço:
Dr. Paulo Taitson
Rua Rodrigues Caldas, 600/18
30190-120 Belo Horizonte MG
Tel: (31) 3337-1960 - e-mail: pftaitson@bol.com.br

INTRODUÇÃO
A organização de um banco de sêmen implica na conexão de uma série de engrenagens em condições adequadas para a obtenção de bons resultados de utilização. Desde 1949, quando foi mostrado que o glicerol tem interessantes e peculiares propriedades como meio crioprotetor, os protocolos para banco de sêmen tem evoluído consideravelmente. Ainda que a estrutura básica destes serviços seja similar, independentemente dos métodos de criopreservação utilizados, seu crescimento determina um incremento no número de dados a serem armazenados, necessitando constantemente de um controle mais estrito.
A resolução 1.358 do Conselho Federal de Medicina datada de 1992, que regulamenta aspectos e técnicas de reprodução assistida, é clara quando estabelece que as clinicas de reprodução humana são serviços indicados para seleção e escolha de doadores para um banco de sêmen, sendo responsáveis também pela coleta, manuseio, conservação, distribuição e transferência de material biológico para uso em técnicas de reprodução. Estes serviços devem, “dentro do possível, garantir que o doador tenha a maior semelhança imunológica e fenotípica e a máxima compatibilidade” com o casal, alem de colher do mesmo por escrito, consentimento livre e esclarecido sobre o procedimento de reprodução assistida indicado (CFM, 1992).
Quando um casal procura um serviço especializado em reprodução humana para tal seleção, diversos são os aspectos a serem observados, como adequação do tipo sanguíneo, raça, cor da pele, porte físico, tipo de cabelo, etc. Um estudo de características genéticas dos indivíduos é interessante. Sabe-se hoje, que a capacidade reprodutiva pode ser também prejudicada, quando mutações se manifestam sobre os genes responsáveis pela fertilidade. De acordo com os estudos recentes, podem ser observados 14 genes que, sofrendo mutações, tendem a afetar a fertilidade no homem (Vogt, 1997).
Algumas postulações são interessantes, quando se observa que todos os indivíduos são diferentes. Não existem duas pessoas iguais. O mesmo indivíduo é diferente de si mesmo a cada momento: momentos condicionais. A hemiface direita apresenta diferenças da hemiface esquerda. Essas diferenças individuais não são caóticas. Elas obedecem a determinadas leis. De fato, os elementos ponderáveis e mensuráveis, quando estudados num grupo de indivíduos, se distribuem, em termos de freqüências, segundo uma curva de distribuição normal de Gauss. Dentro das diferenças existem semelhanças, que permitem agrupar os indivíduos em tipos (Berardinelli, 1942).
São numerosas as classificações do biótipo craniofacial disponíveis na literatura. Até o ano de 1954, foram listadas partindo de Hipócrates e chegando a Castaldi nada menos do que vinte e quatro classificações diferentes (Machado de Souza, 1954). Até os dias de hoje, a um número crescente de estudos desta natureza envolvendo inclusive, estudos diferenciados para cada sexo (Arbenz, 1988).
Inicialmente o indivíduo deve ser orientado a sentar-se na posição ereta, com o olhar fixo no horizonte. Assim, obtem-se uma posição natural da cabeça. Os lábios devem estar relaxados. Para estabelecer esta posição natural é necessário traçar duas linhas que se cruzam em 90 graus. A primeira está no plano sagital, estendendo-se do centro da testa ao centro do mento. A outra linha é horizontal margeando os centros pupilares, de uma orelha a outra. Desta forma podem ser reconhecidas três formas da cabeça humana: dolicocéfalo (longa e estreita), braquicéfalo (larga, curta e globular) e o normocéfalo (altura e largura se igualam). Diferenças raciais são notadas quanto à classificação destas formas (Viazis, 1991).
Scheideman e colaboradores estudaram os pontos ântero-posteriores sobre o perfil facial do tecido mole abaixo do nariz. Eles colocaram um plano vertical da posição natural da cabeça através ponto subnasal e mediram as relações do lábio e do mento com esta linha. Também determinaram as relações verticais do tecido mole da face. Assim, foi possível elaborar um estudo dos tipos de perfil facial, utilizando os planos de Frankfurt, perpendicular nasal de Dreyfuss e perpendicular orbitária de Simon (Schwarz, 1958; Vion, 1994).

 

Figure 1

 

Na vista frontal, o observador deverá notar se existe simetria facial bilateral, relações de tamanho das estruturas laterais da face para com a linha mediana. Não existe assimetria facial perfeita, todavia os detalhes devem ser anotados. Variações diminutas na topografia craniana acarretam substanciais modificações na descrição da face de um indivíduo. A altura relativa do complexo nasomaxilar comparado com a mandíbula pode exercer um efeito marcante no padrão facial global.
Existem três regiões na vista anterior da face que podem ser estudadas: a testa, a face média e a face inferior (borda inferior do nariz ate o mento). Observar se as três regiões são do mesmo tamanho ou uma delas é maior. Com relação à testa notar a presença das protuberâncias frontais. Na face média observar a distancia interpupilar e intercantal. Alguns autores dividem ainda a face média em largura facial esquerda, largura facial direita e largura da boca. Notar a consistência da mandíbula (Farkas, 1982).
O autor apresenta a seguir, dados que norteiam o valor do estudo do biótipo crâniofacial na tentativa de se aproximar ainda mais as características do casal para com o doador. A dificuldade quanto à seleção é clara, devido às peculiaridades de cada indivíduo. Este protocolo (denominado estudo de compatibilidade do casal) deve ser feito tanto no doador quando admitido em um serviço de banco de sêmen, quanto no casal indicado para inseminação ou fertilização in vitro heterólogas.

DISCUSSÃO
Muitos fenômenos que são vistos no crescimento do corpo como um todo são expressos, embora que de certa forma diferente, no crescimento da face. O surto de crescimento mais notável no período da adolescência na face ocorre no ramo da mandíbula. Observase que o comportamento do crescimento da face está, de algum modo, entre o crescimento do neurocrânio e o crescimento físico em geral. Isto se aplica não apenas à proporção de crescimento alcançado nas idades precoces, mas também ao período da adolescência (Van der Linden, 1990).
A variação é uma lei básica da ciência. O conjunto de variações estruturais, funcionais e genéticas e patológicas sempre está presente em uma população de qualquer espécie devido à capacidade de adaptação ao ambiente mutável. Isso aumenta a possibilidade de sobrevivência para os indivíduos que têm características mais adequadas às necessidades do tempo. A face humana certamente tem sua parcela de variações. Na verdade, provavelmente existem tipos mais básicos e divergentes de padrões faciais do ser humano. Isso ocorre porque houve adaptações faciais e cranianas incomuns relacionadas a expansão do cérebro humano.
Existe uma ampla gama de diferenças faciais porque o cérebro, proporcionalmente, é muito grande e variável quanto à configuração. Também existe muito mais probabilidade de haver tipos diferentes de maloclusões na face humana, pelo mesmo motivo. Na verdade, as tendências atuais para compreensão das singularidades da face humana são construídas sobre o desenho básico de nossa face, devido às relações incomuns inerentes ao seu projeto. Não existe hoje um sistema taxonômico abrangente para catalogar e dar nomes aos tipos faciais com base em variações evolutivas.
Conclui-se assim, que a utilização de um estudo de compatibilidade do casal baseado no seu biótipo craniofacial pode ser útil na seleção e caracterização de doadores e casais em um banco de sêmen.

REFERÊNCIAS
Arbenz G. O. Medicina Legal e Antropologia Forense. São Paulo: Atheneu, 1988.

Berardinelli W. Tratado de biotipologia e patologia constitucional. 4 ed., Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1942.

Conselho Federal de Medicina. Resolução número 1358, de 11 de novembro de 1992. São Paulo: CFM, 1992.

Farkas L. G. Anthropometric of the head and face in medicine. New York: Elscuiez North Holland, 1982.

Machado de Souza O. Nota sobre o valor de caracteres não métricos para o diagnostico sexual do crânio. Rev. Antropol., 2: 1-39, 1954.

Scheiderman G. B., Bell W. H., Legan H. L., Finn R. A., Reisch J. S. Cephalometric analysis of dentofacial normals. Am. J. Orthod. Dentofacial Orthop., 78:404-420, 1980.

Schwarz A. Rontg enostatik. Munchen: Urban & Schwarzenberg, 1958.

Sousa L. R., Bonilla-Musoles F., Pellicer A., Simon C., Remohi J. Manual prático de reprodução humana. Rio de Janeiro: Revinter, 1998.

Van der Linden, F. P. G. M. Crescimento e ortopedia facial. São Paulo: Quintessence, 1990.

Viazis, A. D. The cranial base triangle. J. Clin. Orthod., 25:565-570, 1991.

Vion, P. E. Anatomia cefalométrica. São Paulo: Santos, 1994.

Vogt PH. Genetics of idiopathic male infertility: Y chromossomal azoospermia factors (AZFa, AZFb, AZFc). Baillieres Clin Obstet Gynecol 1997;11:773-95.