JBRA Assist. Reprod. 2005;09(s1):39-40
ARTIGO DE OPINIÃO

doi: 10.5935/1518-0557.2005.9.s1.09

0 Embriologista e a Reprodução Assistida: "Admirável Mundo Novo"

Raquel de Lima Leite Soares Alvarenga

Pronúcleo-Núcleo Brasileiro de Embriologistas em Medicina Reprodutiva Rua Benjamin Flores 105/501, Belo Horizonte - MG - http://pronucleo.cjb.net

Louise Brown nasceu três minutos antes da meianoite de 25 de julho de 1978, num pequeno hospital situado em Oldham, no norte industrial da Inglaterra. Seu nascimento foi resultado da fusão do conhecimento de Patrick Steptoe, ginecologista, pioneiro em laparoscopia, e Robert Edwards, cientista que pesquisava a fertilização e desenvolvimento de óvulos e embriões in vitro em Cambridge. Após quase dez anos de muito esforço, repetidos fracassos, críticas da comunidade científica e leiga e pouco dinheiro, eles criaram o bebê do século e os alicerces da Reprodução Assistida (Steptoe & Edwards, 1978). Vinte e três anos é muito tempo para a ciência, principalmente no campo da Reprodução. Mais de duas décadas depois do primeiro bebê de proveta ser concebido com êxito in vitro, o avanço desta disciplina especializada tem sido mais que espetacular.

Em 1992 a comunidade científica recebeu, entusiasmada, os primeiros resultados de ICSI: a fertilização normal conseguida através da injeção de um único espermatozóide no citoplasma do óvulo. Quase dez anos depois, esta técnica já é utilizada em praticamente todos os casos de infertilidade devido a fator masculino, e muitos mais, nos quatro cantos do mundo (Palermo et al, 1992).

O PGD (Diagnóstico Pré-implantação) já pode ser oferecido a casais portadores de doenças genéticas sérias, devolvendo-lhes a chance de gerar crianças saudáveis (Handyside et al, 1990).

O congelamento de óvulos e tecido ovariano vem oferecer uma chance para mulheres jovens portadoras de neoplasias ter filhos no futuro, assim como a criopreservação de sêmen e tecido gonadal no caso dos homens (Chen, 1986; Newton et al, 1996; Avarbock et al, 1996; Brook et al, 2001).

A clonagem e a transferência nuclear poderá permitir que casais sem gametas possam gerar filhos portando sua carga genética (Campbell et al, 1996; Wilmut et al,1997)

Há setenta anos atrás, Aldous Huxley, em “Admirável Mundo Novo”, descreveu determinados profissionais, aos quais chamou “ Fecundadores”.

“Quando o diretor de Incubação e Condicionamento entrou na sala, trezentos Fecundadores, curvados sobre os instrumentos, estavam mergulhados no silêncio em que mal se ouviam as respirações, naquele desligamento, murmúrio ou zumbido da mais absorta concentração... Os sobretudos dos trabalhadores eram brancos, e tinham nas mãos luvas de borracha de palidez cadavérica. A luz era gelada, morta , fantástica. Só nos tubos amarelos do microscópio é que encontrou uma substância rica e viva..

- Estadisse o Diretor ao abrir a porta, - é a Sala da Fecundação.

Estas, mostrou com um movimento do braço, são as incubadoras. Abrindo uma porta de separação mostroulhes pranchas e prateleiras de tubos de ensaio numerados. O suprimento de óvulos para a semana. Mantidos à temperatura do sangue; explicou, enquanto os gametas masculinos, e então abriu outra porta, devem ser conservados a trinta e cinco graus em vez de trinta e sete...

Ainda apoiado contra as incubadoras, forneceu-lhes uma breve descrição do moderno processo da fecundação; naturalmente falou-lhes primeiro de sua introdução cirúrgica ... continuou com uma técnica de preservação do ovário secionado em vida e em pleno desenvolvimento; passou a considerar as condições ótimas de temperatura, salinidade, viscosidade, referiu-se ao líquido no qual se conservam os óvulos desprendidos e maduros, e, levando os alunos às mesas de trabalho, mostrou-lhes claramente como esse líquido era retirado dos tubos de ensaio, como era derrubado gota a gota nas lâminas especialmente aquecidas dos microscópios; como os ovos que continha eram inspecionados contra anormalidades, contados e transferidos para um receptáculo poroso; como ( e então ele os levou a observar essa operação ) esse receptáculo era imerso num caldo morno contendo espermatozóides que aí nadavam livremente-”numa concêntração mínima de cem mil por centímetro cúbico”, insistiu; e como, passados dez minutos, o frasco era retirado e seu conteúdo examinado de novo; como era imerso outra vez se algum dos óvulos não fosse fecundado e, se necessário, ainda outra vez; como os óvulos fèrtilizados voltavam às incubadoras...

Um ovo, um embrião, um adultonormalidade.... Progresso. “(Aldous Huxley - Admirável Mundo Novo, 1931)

Como se tivesse entrada numa máquina do tempo, Huxley vislumbrou o futuro - nosso presente.

A embriologia clínica é a área da biologia que se dedica a realizar in vitro a fertilização e desenvolvimento embrionário inicial para fins terapêuticos e diagnósticos. O embriologista clínico (o “Fecundador” de Huxley) é o profissional de saúde que realiza estes procedimentos, independente de sua formação.

No Brasil ainda não há instituição universitária superior específica para a formação nesta área, existindo uma carência de profissionais especializados. Na maioria das vezes o treinamento é realizado informalmente, com protocolos de outras instituições sendo copiados mecanicamente.

O Pronúcleo - Núcleo Brasileiro de Embriologistas em Reprodução Assistida é a primeira sociedade brasileira e latinoamericana a congregar estes profissionais e estabelecer objetivos para promover seu fortalecimento ético e científico, visando criar um patamar superior de qualidade na área.

Tão proféticos os textos de “Admirável Mundo Novo”! Há limite para o futuro desta área? E qual nosso exato papel nele? Podemos fazer? Devemos fazer?

O Dr. José Gonçalves Franco Jr., editor do Jornal Brasileiro de Reprodução Assistida, e o Dr. Edson Borges Jr., atual presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, ambos Sócios Beneméritos do Pronúcleo, gentilmente cederam algumas páginas deste periódico para o Pronúcleo. Vamos utilizar este espaço tão importante para publicar nossos trabalhos, divulgar protocolos e técnicas, compartilhar dúvidas e fracassos, mas também nossos sucessos...

Agradecemos à SBRA e a todos aqueles que possibilitaram ao Pronúcleo chegar até aqui. Temos confiança que ainda muitos mais irão nos ajudar a chegar até muito além do que agora podemos imaginar...

“Fecundadores” do Brasil, aguardo-vos neste jornal e em nosso web site : http://pronucleo.cjb.net Até mais!

REFERÊNCIAS
Avarbock M. R., Brinster C.J., Brinster R. L..- Reconstitution of spermatogenesis froco frozen spermatogonial stem cells. Nature Med, 2: 693-6, 1996.

Brook P. F., Radford J.A., Shalet S. M., Joyce A.D., Gosden R. G.. - Isolation of geriu cells froco human testicular tissue for low temperature storage and autotransplantation. Fertil Steril, v. 75, n. 2, Feb 2001.

Chen, C. Pregnancy after human oocyte cryopreservation. Lancet 1: 884-886, 1986.

Handyside A. H., Kontogiannni E. H., Hardy K., Winston R. M. L.. - Pregnancies froco biopsied human pre-implantation embryos sexed by y-specific DNA amplification. Nature (London) 344, 768-770, 1990.

Huxley A.. - Admirável Mundo Novo (Brave New World). Cia. Brasileira de Divulgação do livro BRADIL, Rio de Janeiro, 1969.

Newton H., Aubard Y., Rutherford A., Sharma V., Gosden R. G..- Low temperature storage and grafting of human ovarian tissue. Hum Reprod li: 1487-1491, 1996.

Palermo G., Joris H., Devroey P., Van Stehteghetn A. C.. - Pregnancies after intracytoplasmic injection of single spermatozoon into an oocyte. Lancet 340:17, 1992.

Steptoe P. C., Edwards R. G.. - Birth after reimplantation of a human embryo. Lancet 2:366, 1978.