JBRA Assist. Reprod. 2005;09(s1):41-43
ARTIGO DE OPINIÃO

doi: 10.5935/1518-0557.2005.9.s1.10

Aspectos psíquicos x reprodução assistida Estudo de caso - Vínculo primitivo e interação negativa para o sucesso.

Psychic aspects x assisted reproduction

R.M. MELAMED, L.M. ROSSI-FERRAGUT, T. AOKI, A. LACONELLI JR., E. BORGES JR.

Correspondência para:
Lia Mara Rossi-Ferragut Fertility - Centro de Fertilização Assistida e Vídeo-endoscopia Pélvica Avenida Brigadeiro Luís Antonio, 4258-São Paulo

http://www.fertility.com.br e-mail: fertility@fertility.com.br

RESUMO
A proposta deste trabalho é pensar as questões emocionais relacionadas a infertilidade e a interação negativa para o sucesso na reprodução assistida. A experiência clínica tem nos levado a alguns aspectos em comum na vida afetiva das mulheres que buscam os processos de reprodução assistida e apresentam dificuldades em fixar os embriões e levar adiante a gestação. Pretendemos enfocar estes conflitos e levantar possíveis saídas, através de uma melhor compreensão dos mecanismos internos e externos que integram esta situação.

ABSTRACT
The aim of this study was to think about emotional questions related with couple infertility and the negative interaction impairing the success of IVF treatment. Our clinic experiente lias been showed some usual psychic aspects in affective life in these women who has looking for assisted reproduction and has no showed success in terms of implantation and pregnancy. Our purpose is emphasize these problems and suggest some solutions, through better comprehension of internal and external mechanisms in this situation.

“... somos tecidos de símbolos de um lado a outro, nossos átomos, nossas células, nossos fins ideais. Esses símbolos carregam consigo sua história, o sentido de sua gênese. Eles constituem uma unidade, mas com face dupla: o que eles permitem que apareça esconde o que não são mais. Mas é apenas o que eles não são mais que revela o que eles realmente são.” (Abraham & Torok,1995)

O trabalho psicológico no processo de reprodução assistida tem por objetivo tratar o que não se vê, ou seja, à causa não aparente, que dificulta o sucesso nos procedimentos, ou na busca do que é revelado como desejo.

Os aspectos psíquicos transcendem o que podemos ver e aparentemente controlar. Mudamos os rumos de nossas vidas, de nossa história e da história social.

Há tempos, a mulher vem transformando seu papel no núcleo familiar possibilitando mudanças que acarretam na elaboração de algumas novas questões. Ser mãe e mulher na sociedade atual exige uma mobilidade interna e externa que é muitas vezes dificultada por conflitos de ordem prática e emocional, impedindo assim a conciliação entre essas várias funções e os interesses da mulher.

Pretendemos enfocar estes conflitos e explanar possíveis saídas, através de uma melhor compreensão dos mecanismos internos (individuais e familiares) e externos (sociais e profissionais) que integram esta situação.

Fadada a carregar a culpa e/ou a responsabilidade por seus atos e possíveis conseqüências referentes à sua vida reprodutiva, a mulher, quando opta em procriar cedo, acredita estar obrigada a abandonar sua profissão para ser boa mãe. Ao optar pela gestação mais tardia, após o estabelecimento emocional e profissional, enfrenta os dilemas da gestação na idade mais avançada.

Assim sendo, dentre as sensações geradas na mulher encontraremos o falso sentimento de culpa, fonte de depressão e falta de confiança em si e na vida, descrito da seguinte forma “a verdadeira culpabilidade é ou deveria ser um momento em que desenvolvem-se novas forças de ação” (Dolto, 1988). Muito embora este procedimento nem sempre seja perceptível, o falso sentimento de culpa mobiliza energia do sujeito de forma a mantê-lo diante do sofrimento e da dor.

A experiência clínica tem nos levado a alguns aspectos em comum na vida afetiva das mulheres que buscam os processos de reprodução assistida e apresentam dificuldades em fixar os embriões e levar adiante a gestação.

Ao falarmos da vida afetiva de um pessoa, é necessário entendermos sua história que inicia-se muito antes do momento atual. Esse é um dos principais motivos pelos quais acreditamos ser importante acrescentar neste texto um pequeno recorte onde enfocaremos tal aspecto, aceitando que o filho biológico nasce depois do filho psicológico.

Ainda quando crianças brincamos com nosso futuro, planejamos nosso estar ao mundo, o poder aquisitivo, a profissão e também a família, os filhos, seus nomes, suas funções... “o desejo é encarnado juntamente com as primeiras células do feto, e as relações pré-simbólicas com a mãe e com o pai existem na vida intra-uterina” (Dolto,1999). Assim sendo criamos uma condição diante da qual a criança terá algumas metas a cumprir. Este processo ocorreu igualmente com nossos pais que tiveram o seu início inscrito na vida dos nossos avós e assim sucessivamente.

Percebemos, portanto, que de alguma maneira existe um papel a ser cumprido e nem sempre diante de tal script o filho é possível.

Estudos psicanalíticos revelam que “no desenvolvimento emocional individual, o precursor do espelho é o rosto da mãe. Gradativamente a separação entre o não-eu e o eu se efetua, e o ritmo dela varia de acordo com o bebê e o meio ambiente”. Estamos aqui falando da formação do eu, a partir de um processo de identificação primária com a mãe ou seu substituto. A mãe reflete em seu rosto aquilo que sente e vê em relação ao seu bebê e este pode encontrar-se no olhar materno (Safra, 1995).

Ao atentarmos ao processo de desenvolvimento emocional e da sexualidade da menina perceberemos alguns pontos que posteriormente interferirão em sua possibilidade de vir a ser, inclusive, mãe. Muito embora acreditamos que a criação de uma criança deveria estar baseada não somente nos livros mas, fundamentada nas suas necessidades potenciais e na sua capacidade, é nos livros que encontramos alguns tópicos importantes. O pai da psicanálise nos deixou a mensagem de que “a menina necessita passar por dois processos de mutação: primeiro o desenvolvimento da sexualidade feminina se vê complicado pela necessidade de renunciar a zona genital originalmente dominante, quer dizer o clitóris, em favor de uma nova zona a genital; a segunda é a troca do primitivo objeto materno para o pai”.

Para a criança, adultos são todos poderosos com a palavra como lei. Assim sendo: “os vínculos da família atual (interjogos e sua economia afetiva), inspira-se freqüentemente nos vínculos vividos e fantasiados pelos pais na relação com os medos das famílias de origem” (Eiguer, 1995).

Os medos estão associados à três possibilidades - uma delas é um resíduo do passado (do sujeito ou do grupo ao qual pertence - um segredo ou um fantasma que permeia a vida da pessoa), ou outra possibilidade está relacionada ao presente (às instabilidades e incertezas) e por fim o medo do fracasso e de conseqüências negativas no futuro, (diante do medo de não engravidar ou engravidar, além de deixar de cumprir sua função social, poderemos ter também o medo diante das mudanças que a criança trará à sua vida pessoal, ao relacionamento com o marido, com seus pais e com os pais do marido). Qualquer mudança, por vezes, requer grande mobilização de energias, reconhecimento e um suposto enfrentamento dos medos, podendo gerar instabilidade nas relações existentes, principalmente se em suas relações iniciais o sujeito não encontrou no objeto, continência. Autores sugerem que a ‘função de continência, a capacidade de Reverie, o que poderia permitir o estabelecimento do conteúdo do sujeito com a sua própria realidade psíquica” (Safra, 1995; França, 1997).

Caso este processo deixe de ocorrer poderemos encontrar mulheres que fiquem detidas no vínculo primitivo com a mãe, sem alcançar jamais uma genuína re-orientação frente ao homem e pior, frente a si mesma e seus supostos desejos.

No atendimento psicoterapêutico com casais que buscam na reprodução assistida a possibilidade de realização do desejo de ter filhos, deparamo-nos em alguns casos, com aspectos anteriormente apontados que poderiam ser entendidos como impeditivos ou dificultadores de se obter um resultado satisfatório se não trabalhados.

Tal fato, foi por nós vivenciado concretamente e será relatado a seguir.

Após o segundo procedimento de ICSI sem sucesso, um casal busca o atendimento psicológico. Percebe-se que o marido tenta pedir socorro, pois todo seu poder de convencimento e sedução estavam esgotados. Para ele ainda era possível dar continuidade ao tratamento. No entanto, a esposa via esta possibilidade como remota.

De origem oriental, filha mais velha, a esposa mantinha-se calada a maior parte do tempo: “ela não tem que ficar assim, não deu certo, bola prá frente ! Vamos tentar novamente”, dizia o marido sem dar-se conta do quão prejudicial poderia ser o fato de impedir a expressão dos sentimentos dela.

Com um pedido de socorro no olhar, a esposa angustiada tentava conter as lágrimas. O luto não podia ser vivido?! A submissão é freqüente no comportamento das mulheres orientais em relação aos maridos. A função masculina é bastante valorizada e cabe a mulher o papel de servir. O filho varão de preferência, o primogênito, deverá assumir a família de origem na ausência do progenitor, passando então a “herdar” seus bens e os cuidados de todos como o pai o faria. A mulher deverá ser um bom ventre e dar ao homem o filho que carregará seu nome.

De acordo com o marido, ela mantinha-se muito ligada ao núcleo familiar, sendo sobrecarregada de responsabilidades e obrigações, porém constantemente sendo tratada como incompetente principalmente pela figura materna.

Cada sujeito da díade, lidava com a angústia de formas diferentes - ele ria e não parava de falar, ela chorava e com a voz embargada depois de algum tempo conseguiu dizer: “Tenho medo de decepcionar novamente”.

De qual momento de sua vida esta mulher falava? Na verdade, do momento atual impossibilitada de realizar o desejo do marido, pois não fixou em seu útero o embrião transferido, deixando de levar à diante a gestação e/ou do seu próprio nascimento onde era supostamente esperado um menino.

Retorne-mos à psicanálise. “Por trás do encadeamento das associações livres (conteúdos manifestos), o analista busca a atitude afetiva que rege esse encadeamento e que é por assim dizer, sua lei de inteligibilidade” (Abraham & Torok,1995).

Diante da condição atual em que encontrava-se esta mulher o filho não era viável, visto que seria necessário refazer os vínculos familiares e seus fantasmas.

Dando ao marido o filho homem, estaria colocando em risco o “amor” da mãe; deixando de fazê-lo, o papel de incompetente seria mantido. Este papel, apesar de doloroso era um lugar já conhecido.

Os laços de família, projetados para cada sujeito, de alguma forma determina seu futuro. Após algumas sessões de psicoterapia, a esposa passou a apropriar-se do “direito de ser” - utilizando a palavra para expressar seus sentimentos inclusive apontando semelhanças com seu marido e seus pais, que com freqüência, reportavam-na à condição de incompetente decidindo inclusive o que ela deveria sentir.

Incomodado com as atitudes da esposa, o marido sugeriu interromper as sessões de análise, sem se dar conta que a possibilidade do vir a ser estava começando a surgir. A história desta mulher estava sendo reformulada através do processo analítico. Durante o tratamento, transferiu e encontrou continência para seus medos, necessidades, desejos e fantasias donde o filho psicológico então nascera e certamente o biológico poderia passar a existir.

Alguns laços afetivos tornam-se nós efetivos, que impedem a fluidez do que supostamente desejamos ser.

A condição do suposto desejo é ressaltada, pois encontramos casais que conscientemente desejam o filho, porém ao longo do processo psicoterapêutico percebe-se que este mobiliza muitas angústias, medos, fantasmas e fantasias. Percebemos então, que a suposta natureza é bloqueada e nem sempre a ajuda da ciência por si só favorece a condição de gestar e dar a luz; fazemos pois, parte de um todo e funcionamos constantemente como um Corpo Gestante.

REFERÊNCIAS
Abraham N. & Torok, M. - A casca e o núcleo - Escuta - São Paulo; Tradução: Coracim, Maria José R. Faria, 1995.

Dolto F. - Dificuldade de Viver psicanálise e prevenção das neuroses / Artes médicas- Porto Alegre, 1988.

Dolto, F. - As etapas decisivas da infância - Martins Fontes - São Paulo, 1999.

Eiguer A. - O parentesco fantasmático - Transferência e contra transferência em terapia familiar psicanalítica - Casa do Psicólogo - São Paulo, 1995

França M. A. - Bion em São Paulo: Ressonâncias - Coordenação: Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo - SP / Imprensa Oficial do Estado, 1997.

Safra G. - Momentos Mutativos em psicanálise - Uma visão Winnicottiana - Casa do Psicólogo, 1995.