JBRA Assist. Reprod. 2005;09(s1):50-52
RELATO DE CASO

doi: 10.5935/1518-0557.2005.9.s1.13

Nascimento de feto a termo após congelamento de oócitos

Born of fetus to term after egg freezing

R. Azambuja1, 1,2, M. Badalotti1, 1, A. Petracco1

1Fertilitat- Centro de Medicina Reprodutiva. Av. (piranga 6690/801. CEP: 90510-000 - Porto Alegre, R.S. - Brasil Fone/Fax: 51-33391142.
2Institute for Reproductive Medicine & Science. St. Barnabas Medical Center. West Orange, NJ 07052, USA

RESUMO
A criopreservação de oócitos permite o prolongamento da capacidade reprodutiva pelo armazenamento de material genético fertilizável, especialmente em situações com risco de comprometimento da função ovariana, tais como rádio e quimioterapia, e também evita os dilemas éticos quanto ao destino dos embriões armazenados. Enquanto a criopreservação de espermatozóides e embriões humanos está suficientemente estabelecida, permitindo excelentes resultados em todo o mundo, a criopreservação de oócitos evolui a passos lentos e o seu domínio permanece como um objetivo a ser alcançado.O casal, ela com 31 anos de idade e ele com 38, com infertilidade severa por oligospermia, retorna à clinica para tentar nova gestação, utilizando oócitos congelados. O endométrio foi preparado com o uso de 17β Estradiol (Estrofen - Medley - Brasil). Três dias antes da transferência, a paciente iniciou o uso de progesterona oral na dose de 600mg ao dia (Utrogestan - Enila- Brasil). Dois dias antes da transferência, os oito oócitos foram descongelados. Seis oócitos sobreviveram ao descongelamento, dos quais cinco foram submetidos à ICSI. Obteve-se 100% de fertilização e clivagem. No segundo dia foram transferidos quatro embriões, três deles com duas células e um com três células, todos grau II. O suporte hormonal foi mantido com l Omg ao dia de 17β Estradiol e 600mg ao dia de Utrogestan por via oral. O saco gestacional foi observado com seis semanas de gestação, no qual se visualizava feto com batimentos cardíacos. A manutenção dos hormônios foi até 12 semanas de gestação. A gestação foi interrompida por cesariana com 38 semanas de evolução. O recém-nascido pesou 2,880 gramas, comprimento de 48,5 cm, índice de Apgar de 9 no primeiro e quinto minuto de vida, respectivamente. Após 30 dias do nascimento, a criança pesou 3,570 gramas, com 54cm de comprimento. Ao exame físico realizado no nascimento e aos 30 dias de vida, a menina apresentou-se normal em todos os aspectos.Embora o número de nascimentos utilizando-se a técnica de criopreservação de oócitos ainda seja pequeno, as vantagens do seu uso são claras. Acreditamos que o protocolo usado neste caso proporcione melhores condições de sobrevivência embrionária do que outros descritos na literatura. Especialmente porque foi possível obtermos uma alta taxa de sobrevivência após o descongelamento, assim como alta taxa de fertilização.

Unitermos: Oócitos congelamento gravidez humana

ABSTRACTS
The cryopreservation of eggs allows the storage of genetic material, specially in situations here the ovarian function is compromised such as in radio and quimiotherapy, and, also avoids ethical dilemas about embryo storage and destiny, while semen and embryo freezing are very well known and establislied reporting excelent results worldwide, the oocyte cryopreservation remains to be cornpletely elucidated.A couple, she is 31 and him is 38 years old, with infertility by severe oligospermy, following ICSI, returned to the clinic in order to try a new gestation using then the frozen eggs. The endometium was prepared with 17b Estradiol (Estrofenâ - Medley - Brasil. Three days before the transfer, the patient started using oral progesterone 600mg/ day (Utrogestanâ - Enila- Brasil). Two days before the transfer the 8 oocytes were thawed. Six oocytes survived and 5 were inseminated by ICSI. Obtained 100% fertilization and cleavage. In the second day 4 embryos were transferred, 3 with 2 cells and 1 with 3 cells, all grade II. The hornonal support was maintained with 10mg/ day of 17b Estradiol and 600mg/day of progesterone orally. Six weeks of gestation, a uestational sac was observed with a fetus with fetal heart beat. The hormonal therapy were maintained until 12 weeks of gestation. A cesarean section occurred with 38 weeks of gestation. The baby - girl was born with 2880 grams, and measured 48,5 cm, with Apgar of 9 in the first and fifth minute of age. After 30 days of age the child weighted 3570 gr with 54 cm of length. At the physical examination realized 30 days after born the girl showed all and perfect signs.Although the number of children born using egg cryopreservation is still low, the advantages are clear. The protocol used here lias the best chances to the eggs to survive when compared to others in the literature. Specially, because it was possible to obtain high rates of survival following thawing, as such as high rates offertilization.

Key words: oocytes, freezing, pregnancy human

INTRODUÇÃO
As modernas técnicas de criopreservação têm permitido reformular algumas abordagens no manejo das técnicas de Reprodução Assistida. Enquanto a criopreservação de espermatozóides e embriões humanos está suficientemente estabelecida permitindo excelentes resultados em todo o mundo, a criopreservação de oócitos evolui a passos lentos e o seu domínio, permanece como um objetivo a ser alcançado. A criopreservação de oócitos permite o prolongamento da capacidade reprodutiva pelo armazenamento de material genético fertilizável, especialmente em situações com risco de comprometimento da função ovariana, tais como radio e quimioterapia, e também evita os dilemas éticos quanto ao destino dos embriões armazenados.
As primeiras gestações oriundas de oócitos congelados foram descritas há aproximadamente 16 anos por Chen (1986) e AlHasani et al. (1987). Novas publicações incluindo nascimentos se tornaram raras. Recentemente, novas descrições de técnicas de congelamento oocitário foram propostas com a intenção de torná-las mais efetivas e consistentes (Tucker et al., 1996, Porcu et al., 1997Stachecki et al, 1998).
Pensando na toxicidade de alguns componentes dos meios de congelamento, Stachecki et al. (1998) observaram que o uso de sais de sódio, um dos principais componentes das soluções criopreservantes durante o resfriamento e aquecimento dos embriões, pode ser incompatível com o funcionamento normal das células, quando altas concentrações de sódio resultarem deste processo. A toxicidade gerada por estes sais levou alguns autores a propor o uso da colina em seu lugar, pois a mesma não atravessa a membrana celular e consequentemente evita o aumento da concentração de cátions intracelulares, além de uma possível função de proteção da membrana (Toner et al., 1993; Stachecki et al., 1998). Desta forma, a partir dessas informações passamos a utilizar estes meios de congelamento e descongelamento nos procedimentos de criopreservação oocitária na clínica Fertilitat.
Apresentamos aqui o primeiro nascimento no Brasil de feto a termo após ICSI de óvulos previamente congelados, pois Martin et al. (2001) descreveram gravidez inédita no Brasil de feto oriundo de oócitos submetidos ao processo de vitrificação.

RELATO DE CASO
Casal com infertilidade devido a oligospermia severa, tendo engravidado previamente com ICSI com espermatozóides do ejaculado na clínica Fertilitat, busca nova gestação pelas mesmas vias. Ela, com 31 anos de idade, e ele, com 38. Após dessensibilização hipofisária com Acetato de Leuprolide (Reliserâ - Serono - Brasil) iniciada na metade da segunda fase do ciclo que antecede a FIV, a paciente foi estimulada com gonadotrofina menopáusica humana (Pergonal - Serono - Brasil). Realizou-se a folículo-aspiração após 34 horas da aplicação de 10.000UI de HCG (Profasi 10000- Serono - Brasil). Foram recuperados 24 oócitos, dos quais 16 estavam em estágio MII e oito em estágio MI. Os oócitos, em placa de Petri, foram mantidos em incubadora com 5% de CO2 em ar umidificado a 37°C.
Considerando que o casal não desejava congelar embriões, foi proposto, após extensa orientação e consentimento, a inseminação de oito oócitos MII pela técnica de ICSI (Palermo et al., 1992) e o congelamento dos oito restantes que também se encontravam em estágio MIl
Dos oito oócitos inseminados resultaram seis embriões com grau morfológico II, segundo Veeck et al. (1998). Foram transferidos quatro embriões no terceiro dia, utilizando-se cateter de Frydman sob visão ecográfica. Os embriões restantes não foram transferidos, devido ao alto grau de fragmentação. Doze dias após a transferência, o nível de βHCG foi de 52,1 mUI/dI, porém não houve evolução clínica da gestação. Os oitos oócitos MII restantes foram congelados aproximadamente seis horas após a punção, segundo técnica de Stachecki et al. (1998).
Três meses após, o casal procurou a clínica para tentar nova gestação através da utilização dos oócitos congelados. O endométrio foi preparado com o uso de 17β Estradiol (Estrofen - Medley- Brasil), com dose inicial de 2mg ao dia, a partir do terceiro dia do ciclo. A dose máxima usada foi de 8mg ao dia até o momento em que o endométrio atingiu 11 mm de espessura pela medida de ultra-som transvaginal. Três dias antes da transferência, a paciente iniciou o uso de progesterona oral micronizada na dose de 600mg ao dia (Utrogestan- Enila- Brasil). Dois dias antes da transferência, os oito oócitos foram descongelados, segundo Stachecki et al. (1998). Seis oócitos sobreviveram ao descongelamento, dos quais, cinco foram submetidos à ICSI. Obteve-se 100% de fertilização e clivagem. No segundo dia foram transferidos quatro embriões, três deles com duas células e um com três células, todos grau II (Veeck, 1998). O embrião restante não foi transferido, devido ao alto grau de fragmentação. O suporte hormonal foi mantido com 1 Omg ao dia de 17β Estradiol e 600mg ao dia de Utrogestan por via oral. Treze dias após a transferência o βBHCG foi de 231 UI. O saco gestacional foi observado com seis semanas de gestação, no qual se visualizava feto com batimentos cardíacos. A manutenção dos hormônios foi até 12 semanas de gestação. A gestação foi interrompida por cesariana com 38 semanas de evolução. O recém-nascido pesou 2880 gramas, comprimento de 48,5 cm, índice de Apgar de 9 no primeiro e quinto minuto de vida, respectivamente. Após 30 dias do nascimento, a criança pesou 3570 gramas, com 54 cm de comprimento. Ao exame físico realizado no nascimento e aos 30 dias de vida, a menina apresentou-se normal em todos os aspectos. Observamos uma taxa de sobrevivência de 75% similar aos 73,3% observados por Porcu et al. (1999) e aos 69% relatados por Fabri et al (2001) para oócitos congelados no estágio de MIl Já Martin et al. (2001) utilizando a técnica de vitrificação, observaram uma taxa de sobrevivência de 45,5%, com 80% de fertilização. Enquanto obtivemos 100% de fertilização, Porcu et al. (1999) e Fabri et al. (2001), observaram 45 e 58%, respectivamente. Esta diferença observada poderia ser devida aos diferentes meios de congelamento utilizados. Já a taxa de clivagem foi similar, enquanto obtivemos 100% de clivagem, Porcu et al. (1999) e Fabri et al. (2001) observaram 100% e 91 %, respectivamente, demonstrando que a clivagem não parece ser afetada pela criopreservação. Quanto ao exame físico, Porcu et al. (2000) não observaram más-formações em 13 crianças advindas de oócitos previamente congelados. Semelhante ao observado neste relato. Quintans et al. (2002), utilizando os mesmos meios de congelamento e descongelamento relatados neste trabalho, obtiveram o nascimento de duas crianças, incluindo 6 gravidezes clínicas em 13 pacientes.
Embora o número de nascimentos utilizando-se a técnica de criopreservação de oócitos ainda seja pequeno, as vantagens do seu uso são claras, conforme previamente descrito. Acreditamos que o protocolo usado neste caso proporcione melhores condições de sobrevivência embrionária do que outros descritos na literatura (Porcu et al., 1997, Fabri et al., 2001), especialmente porque foi possível obtermos uma alta taxa de sobrevivência após o descongelamento, assim como alta taxa de fertilização.
Ao submetermos este relato à publicação, contamos com outra paciente com gravidez clínica utilizando-se a mesma técnica descrita.

AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem aos Drs. Jacques Cohen e Steen Willadsen pelo fornecimento dos meios de congelamento e descongelamento.

REFERÊNCIAS
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