JBRA Assist. Reprod. 2008;12(4):34-39
ARTIGO ORGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2008.12.4.07

A origem do espermatozóide e a qualidade seminal não influenciam a incidência de clivagem precoce em ciclos de ICSI

The source of the sperm and semen quality does not influence the incidence of early cleavage in ICSI cycles

Edson Borges Jr.1,2, Fabio Firmbach Pasqualotto3, Tatiana Carvalho de Souza Bonetti2, Daniela Paes Almeida Ferreira Braga1,2, Assumpto Iaconelli Jr.1,2

1Fertility - Centro de Fertilização Assistida Av. Brigadeiro Luis Antônio, 4545 - São Paulo - SP, Brasil. Cep: 01402-001
2Instituto Sapientiae- Centro de Educação e Pesquisa em Reprodução Assitida Rua. Vieira Maciel, 62 - São Paulo - SP, Brasil. Cep: 04503-040
3Instituto de Biotecnologia - Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul - RS Rua Francisco Getúlio Vargas, 1130 - Caxias do Sul - RS, Brasil. CEP 95070-560

Received December 09, 2008
Accepted December 23, 2008

Correspondências:
Edson Borges Jr.
Fertility - Centro de Fertilização Assistida
Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 4545, São Paulo, SP, Brasil
Tel: (11) 3885-9858 / email:edson@fertility.com.br

RESUMO
Objetivo: O objetivo deste estudo foi investigar o efeito da qualidade seminal e origem dos espermatozóides no desenvolvimento embrionário após a injeção intracitoplasmática de espermatozóides, levando-se em consideração a avaliação da clivagem precoce. Métodos: Foram avaliados 175 pacientes submetidos a 193 ciclos de ICSI. Os ciclos foram divididos de acordo com a origem do espermatozóide: (i) sêmen fresco recuperado de paciente normozoospérmico, (ii) sêmen fresco recuperado de paciente oligozoospérmico, (iii) sêmen fresco recuperado de paciente astenozoospérmico, (iv) espermatozóide recuperado do epidídimo de paciente com azoospermia obstrutiva e (v) espermatozóide recuperado do testículo de paciente com azoospermia não-obstrutiva. Os parâmetros avaliados foram: taxa de fertilização, incidência de clivagem precoce, taxa de gestação e taxa de abortamento. Resultados: A taxa de gestação foi significantemente mais alta, quando no mínimo um embrião com clivagem precoce foi transferido (36% versus 23%; com ou sem transferência de embriões com clivagem precoce, respectivamente, P = 0.05). Não foram observadas diferenças no número de embriões com clivagem precoce dentre os grupos avaliados. Além disso, a taxa de fertilização normal foi mais alta quando utilizado espermatozóide recuperado de amostra ejaculada quando comparado ao uso espermatozóide epididimário ou testicular. A taxa de abortamento foi mais alta quando espermatozóide testicular foi injetado quando comparado ao uso de espermatozóide recuperado de paciente astenozoospérmico. Conclusões: A incidência de clivagem precoce não foi influenciada pela origem do espermatozóide. A qualidade e origem do sêmen influenciam a fertilização, porém uma vez formados, embriões originados a partir da injeção de espermatozóides de diversas origens, têm a mesma capacidade de desenvolvimento, resultando em satisfatórias taxas de gestação.

Palavras-chave: infertilidade, fertilização in vitro, espermatozóide, desenvolvimento embrionário, injeção intracitoplasmática de espermatozóide,

ABSTRACT
Purpose: The goal in the present study was to investigate the effect of quality and origin of sperm on embryo development after intracytoplasmic sperm injection (ICSI), taking into account the early cleavage evaluation. Methods: It was evaluated 175 patients undergoing 193 ICSI cycles. Cycles/patients were divided according to the origin of sperm in: (i) fresh normal semen, (ii) fresh semen with oligospermia, (iii) fresh semen with asthenospermia, (iv) epididymal sperm from obstructive azoospermia and (v) testicular sperm from non-obstructive azoospermia. We evaluated oocyte fertilization, early-cleaved embryo, pregnancy and miscarriage rates. Results: The pregnancy rate was significantly higher when at least one early cleavaged embryo was transfer, (36% versus 23%; with or without early-cleaved embryos transferred, respectively, P = 0.05). No difference was detected in the number of early-cleaved embryos among the groups evaluated. Normal fertilization rate was higher using sperm from the ejaculate compared to epididymal or testicular sperm. Miscarriage rate was higher in the testicular sperm group compared to asthenospermic group. Conclusions: The incidence of early-cleaved embryos has not been influenced by origin of spermatozoa. The quality and origin of sperm seems to influence the fertilization rates, since non ejaculated spermatozoa provided lower normal fertilization rates as well as higher fertilization failure; however, once formed, embryos with satisfactory morphology result in satisfactory pregnancy rates.

Keywords: infertility, in vitro fertilization, espermatozoa, embryo development, injeção intracytoplasmic sperm injection,

INTRODUÇÃO
A injeção intracitoplasmática de espermatozóides (ICSI) se tornou o método de escolha para o tratamento de infertilidade por causa masculina (Palermo, Joris et al. 1992). Um pré-requisito para o sucesso da ICSI é o uso de um espermatozóide viável, que suporte a embriogênese após a injeção (Pasqualotto, Rossi-Ferragut et al. 2002; Pasqualotto, Rossi et al. 2005). Motilidade espermática é, sem dúvida, um sinal de viabilidade, porém espermatozóides imóveis não necessariamente representam células mortas (Pasqualotto, Rossi-Ferragut et al. 2002; Pasqualotto, Rossi et al. 2005; Borges, Rossi et al. 2007).
O uso de um único espermatozóide para fertilizar o oocito, exclui a necessidade de alta concentração de espermatozóides no sêmen. De fato, pesquisadores não encontraram qualquer relação entre a concentração espermática e o sucesso da técnica de ICSI (Mansour, Aboulghar et al. 1995).
Após a primeira gestação obtida por ICSI, utilizando-se sêmen de paciente com oligoastenozoospermia grave, a conduta para esse tipo de paciente tem mudado (Palermo, Joris et al. 1992; Van Steirteghem, Nagy et al. 1993). A terapia envolvendo a recuperação cirúrgica de espermatozóides, associada à ICSI, trouxe uma nova esperança para tais pacientes previamente considerados inférteis. Anteriormente ao advento da ICSI, pacientes com azoospermia obstrutiva (AO) tinham mínimas chances de fertilizar um óvulo e gerar seus próprios filhos. Espermatozóides obtidos por aspiração microcirúrgica do epidídimo (MESA), têm sido utilizados para fertilização in vitro (FIV) há mais de 10 anos (Temple-Smith, Southwick et al. 1985). As taxas de fertilização e gestação, quando utilizados espermatozóides obtido por MESA e realizada FIV clássica, são baixas, por volta de 20% e 11%, respectivamente (Silber, Balmaceda et al. 1988; Silber, Nagy et al. 1994). Resultados como esse, enfatizam a importância da maturação espermática e passagem do espermatozóide pelo trato reprodutivo masculino para sua penetração natural no oócito.
Porém, a introdução da micromanipulação para reprodução humana assistida aumentou significantemente as taxas de fertilização quando utilizados espermatozóides epididimários ou testiculares (Schoysman, Vanderzwalmen et al. 1993; Van Steirteghem, Nagy et al. 1998; Pasqualotto, Rossi-Ferragut et al. 2002; Pasqualotto, Rossi et al. 2005). Além disso, a ICSI passou a ser considerada um tratamento efetivo para pacientes com azoospermia de origem não-obstrutiva (ANO). Neste caso os testículos são a única fonte de espermatozóides, de onde podem ser obtidos, quer seja por extração de espermatozóide testicular (TESE) ou aspiração de espermatozóide testicular (TESA) (Tournaye, Camus et al. 1997; Turek, Cha et al. 1997; Belker, Sherins et al. 1998).
Nos últimos anos, inúmeros estudos têm documentado taxas de gestação e fertilização após a ICSI com espermatozóide recuperado dos epidídimos e testículos de pacientes com AO e ANO (Tournaye, Clasen et al. 1998; De Croo, Van der Elst et al. 2000; Friedler, Raziel et al. 2002). Porém, em uma série retrospectiva, demonstramos que as taxas de gestação são significantemente mais baixas em pacientes com ANO quando comparadas a pacientes com AO (Pasqualotto, Rossi-Ferragut et al. 2002). Devido às contradições em artigos publicados, o que se deve em parte a fatores ligados aos espermatozóides, o impacto da fonte do espermatozóide (testicular vs epididimário) e da etiologia da azoospermia (obstrutiva vs não obstrutiva) na capacidade reprodutiva do espermatozóide ainda não está bem estabelecido.
O critério mais importante para se alcançar o sucesso da ICSI e FIV deve ser o número de tratamentos que resultem no nascimento de bebês saudáveis. Sabe-se que a chance de gestação é diretamente proporcional ao número de embriões transferidos, porém, com o aumento deste número, as chances de gestações múltiplas também aumentam.
A redução da incidência de gestações múltiplas pela transferência de um único embrião (SET) requer a seleção cuidadosa de embriões para a transferência (Salumets, Hyden-Granskog et al. 2003). Diferentes parâmetros de qualidade têm sido descritos na literatura e muitos desses têm se provado eficientes na discriminação de embriões com maior e menor capacidade de implantação (Lundin, Bergh et al. 2001). Um desses parâmetros é o ritmo de clivagem do embrião. De fato, tem sido descrito que a clivagem precoce (CP) tem uma importante correlação com a capacidade de implantação, o que foi recentemente confirmado em estudos onde apenas SET foram realizadas (Lundin, Bergh et al. 2001; Salumets, Suikkari et al. 2002; Salumets, Hyden-Granskog et al. 2003; Giorgetti, Hans et al. 2007).
Um recente estudo demonstrou uma maior taxa de gestação quando transferidos embriões que apresentaram CP quando comparado à transferência de embriões que não apresentaram CP, sugerindo que embriões que apresentam CP apresentam maior potencial de desenvolvimento que embriões de ritmo mais lento de clivagem. Uma importante questão nesse estudo é que o único sinal do efeito paterno precoce é o desenvolvimento do zigoto, morfologia embrionária e velocidade de clivagem (Tesarik 2005).
O objetivo do presente estudo foi investigar o efeito da qualidade do sêmen (normozoospermia, oligozoospermia e astenozoospermia) e a origem do espermatozóide (testicular ou epididimários) no desenvolvimento embrionário, levando-se em consideração a avaliação do CP.

MÉTODOS

Pacientes
Este estudo foi realizado no período de Janeiro de 2003 à Janeiro de 2005, no Fertility - Centro de Fertilização Assistida, em São Paulo, Brasil. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética da Universidade de Caxias do Sul e todos os pacientes assinaram o termo de consentimento livre esclarecido, concordando com a utilização dos dados de seus tratamentos para publicação de trabalhos científicos. A fim de avaliar a contribuição da condição do espermatozóide na fertilização, implantação e gestação, foram excluídas pacientes apresentando infertilidade por fator oocitário. Para tal, pacientes com mais de 35 anos e aquelas que tiveram menos de quatro oocitos recuperados após a punção, não foram incluídas no estudo.Foram selecionadas 175 pacientes, submetidos a 193 ciclos de ICSI, com até 35 anos de idade e pelo menos 4 oocitos recuperados na punção folicular. Os ciclos foram divididos de acordo coma origem do espermatozóide: (A) normozoospermia (96 ciclos, 680 embriões); (B) oligozoospermia (35 ciclos, 337 embriões); (C) astenozoospermia (29 ciclos, 171 embriões); (D) espermatozóide epididimários - AO (11 ciclos, 58 embriões) e (E) espermatozóide testicular - ANO (22 ciclos, 122 embriões). As razões para a realização de ICSI em pacientes normozoospérmicos foram infertilidade por fator feminino (obstrução tubárea, síndrome do ovário policístico e endometriose) e infertilidade sem causa aparente.As taxas de fertilização, CP, gestação e abortamento foram comparadas entre os grupos.

Estimulação ovariana e recuperação oocitária
O bloqueio hipofisário foi atingido com análogo agonista do Hormônio Liberador de Gonadotrofinas (Gonadotrophin Releasing Hormone - GnRH, Lupron Kit™, Abbott S.A Societé Française des Laboratoires, Paris, França) seguido por estimulação ovariana controlada, com administração de Hormônio Folículo Estimulante recombinante (recombinant Follicular Stimulationg Hormone - r-FSH, Gonal-F®, Serono, Genebra, Suiça) em dose inicial de 225 - 300UI e ajustes de dose de acordo com a resposta de cada paciente.A indução da ovulação foi acompanhada por dosagens séricas de estradiol e ultra-sonografias seriadas; quando o folículo dominante atingiu diâmetro de 18mm ou, pelo menos, dois folículos alcançaram de 16 a 18mm em diâmetro, foram administrados 250μg de Gonadotrofina Coriônica humana recombinante (recombinant human Corionic Gonadotrophin - r-hCG, Ovidrel™, Serono, Genebra, Suiça) para maturação folicular final. A punção folicular foi realizada 34 a 36 horas após a administração do r-hCG. Os oocitos foram incubados em micro-gotas de Fluido de Tuba Uterina Humano (Human Tubal Fluid -HTF, Irvine, EUA), suplementado com 10% de Albumina Sérica Humana (Human Seric Albumin - HSA; Irvine, EUA) nãotamponado, cobertas com 15mL de óleo mineral (Ovoil; Vitrolife, Suíça) previamente equilibrado para temperatura e pH. Após 4 horas em cultivo, as células do cumulus foram extraídas. Para tal, os oócitos foram expostos a hialuronidase (gotas de 100µL de meio de cultura Hepes tamponado, contendo 80UI/mL de hialuronidase - Irvine, EUA) por 30 segundos e imediatamente lavados em meio de cultura embrionária. Em seguida, a retirada total das células do complexo cumulus-corana foi realizada mecanicamente através de repetidas pipetagens, utilizando-se pipetas Pasteur de diâmetros decrescentes.

RECUPERAÇÃO CIRúRgICA DE ESPERMATOzóIDES

Aspiração de espermatozóides epididimário (PESA)
O procedimento de PESA foi realizado no mesmo dia da punção folicular, sob anestesia local (2mL de lidocaína 1% sem adrenalina no plexo pampiniforme). Resumidamente, a técnica foi realizada da seguinte forma: após a localização do epidídimo, uma agulha de 27 gauge, conectada à seringa de 1mL preenchida com meio de cultura (Hepes - Irvine, EUA), foi introduzida na região proximal do epidídimo e leves sucções foram efetuadas (Figura 2). A amostra recuperada foi colocada em placa de Petri para a busca de espermatozóides através de microscópio óptico em aumento de 400x.Após a verificação da presença de espermatozóides, a amostra foi lavada, através da adição de meio de cultura (Hepes - Irvine, EUA), e feita a centrifugação a 800g por 20 minutos. O precipitado foi então ressuspendido em 0,5mL de meio de cultura (Hepes - Irvine, EUA) e enviado ao laboratório de FIV para realização da técnica de ICSI-TESA.

Aspiração de espermatozóides testiculares (TESA)
Assim como no PESA, o TESA foi realizado no mesmo dia da punção folicular, sob anestesia local. Para a recuperação de espermatozóides testiculares, o testículo foi imobilizado e a bolsa testicular mantida sob tensão, para que a profundidade da incisão pudesse ser controlada e o epidídimo protegido de lesões.Com o auxílio de uma agulha de 21 gauge do tipo borboleta, conectada a uma seringa de 5mL, foram realizadas repetidas inserções perpendiculares no pólo superior do testículo, sob pressão negativa, até que um fluido amarelo opaco e/ou tecido fosse visualizado na cânula do sistema. Em seguida, a cânula foi clampeada, a fim de manter a pressão negativa e, com o auxílio de pinças, parte do túbulo seminífero foi retirada.A amostra recuperada foi colocada em placa de Petri e com auxílio de agulhas, o tecido foi dissecado, seguido da pesquisa de espermatozóides através de microscópio óptico, em aumento de 400x. Após a verificação da presença de espermatozóides, os mesmos foram coletados com pipeta Pasteur e a amostra, lavada, com adição de 2,0mL meio de cultura (Hepes - Irvine, EUA), seguida de centrifugação a 800g por 20 minutos. O precipitado foi então ressuspendido em 0,5mL de meio de cultura (Hepes - Irvine, EUA) e enviado ao laboratório de FIV para realização da técnica de ICSI.

Injeção intracitoplasmática de espermatozóide
A ICSI foi realizada em oocitos em metáfase II, de acordo com a técnica-padrão descrita por Palermo e cols. (1992). Todos os procedimentos de ICSI foram realizados pelo mesmo embriologista e após a injeção, cada oócito foi colocado em uma gota de 100μL de meio de cultura embrionária, cobertas com 5mL de óleo previamente equilibrado para temperatura e pH. Após 18-20 horas a fertilização foi verificada pela presença de dois pró-nucleos distintos e ainda no primeiro dia de desenvolvimento, de 26 a 30 horas após a ICSI, os embriões foram novamente analisados para checagem da CP. A presença de duas células determinou a ocorrência da CP.A transferência embrionária foi realizada 72 horas após a ICSI e classificações morfológicas em relação ao número de células, multinucleação, simetria dos blastômeros e porcentagem de fragmentação foram os principais parâmetros avaliados.

Análise estatística
Para a análise estatística, as médias e desvios padrões (DP) foram calculados a partir dos dados brutos. Devido aos dados não apresentarem distribuição normal, os mesmos foram submetidos à transformação logarítmica antes da aplicação dos testes estatísticos. Utilizou-se análise de variância (ANOVA), e significância estatistica foi considerada quando P < 0,05.

RESULTADOS
Não foi observada qualquer diferença entre os grupos em relação à idade paterna ou idade materna (Tabela I). A taxa de fertilização normal foi mais baixa no grupo em que espermatozóides testiculares foram usados (63,91%) quando comparado ao grupo de pacientes normozoospérmicos (78,85%; P=0,03) e astenozoospérmicos (80.67%; P=0.048) (Table II).

 

Table 1
Tabela I. Idade, e características laboratoriais nos diferentes grupos de estudo

 

A taxa de fertilização anormal foi mais alta no grupo epididimário (19,48%), quando comparado a qualquer dos três grupos de espermatozóides ejaculados, normozoospérmicos (9,98%; P=0,04), oligozoospérmicos (9,54%; P=0,04) e astenozoospérmicos (6,50%; P = 0003). Entretanto, a falha de fertilização foi mais alta quando espermatozóide testicular foi utilizado (24,39%), comparada ao grupo de normozoospérmicos (11,17; P=0,01). Em relação a CP, ainda que a porcentagem de embriões apresentando CP tenha sido mais alta no grupo de pacientes normozoospérmicos, não foi detectada diferença estatística entre os grupos. Além disso, o número de embriões transferidos, foi similar entre os grupos, assim como a taxa de implantação (Tabela II).

 

Table 2
Tabela II. Resultados clínicos de acordo com os diferentes grupos avaliados

 

Não foram detectadas diferenças estatísticas nas taxas de gestação dos grupos estudados, porém, as taxas de abortamento foram mais altas no grupo onde espermatozóide testicular foi utilizado quando comparado ao outros grupos, apesar da diferença estatisticamente significante ter sido observada apenas entre grupo testicular e astenozoospérmicos (83.3% vs 0%; P=0.020) (Tabela II).
A incidência de gestação múltipla também não diferiu entre os grupos.
Um total de 1368 embriões normalmente fertilizados foi avaliado, e CP foi observada em 29,5%. Destes, 76.7% foram selecionados para transferência. A taxa de gestação continuada no grupo total foi de 29,0%, entretanto, nos ciclos em que pelo menos um embrião com EC foi transferido, a taxa de gestação continuada foi significantemente maior (36%), do que nos ciclos onde não foram transferidos embriões com EC (23%; P=0,05).

DISCUSSÃO
As taxas de gestação obtidas após a ICSI são iguais, se não mais altas, que as taxas de fecundidade natural. Para a ICSI ocorrer, a única necessidade é a introdução do material genético masculino no ooplasma, que pode ser oriundo de espermatozóides móveis, pouco móveis e imóveis de amostras de sêmen ejaculadas, ou de pacientes azoospérmicos, quando é obtido por aspiração epididimária ou diretamente dos túbulos seminíferos (Pasqualotto, Rossi-Ferragut et al. 2002; Pasqualotto, Rossi et al. 2005).
Em 1985 a MESA associada à ICSI, para casos de AO por agenesia bilateral dos vasos deferentes foi introduzida (Temple-Smith, Southwick et al. 1985). Então, muitos pacientes com diversas patologias, que levam a deficiência na produção de espermatozóides, puderam ter a opção de realizar tratamento de reprodução assistida. Com as altas taxas de fertilização e gestação obtidas com a ICSI, essa tecnologia é agora utilizada rotineiramente com intuito de melhorar os resultados da FIV após a extração ou aspiração de espermatozóide epididimário (Van Peperstraten, Proctor et al. 2006).
A ICSI também permite que pacientes com determinadas patologias tenham seus próprios filhos, como no caso hipogonadismo-hipogonadotrófico, onde é possível recuperar apenas um pequeno número de espermatozóides dos testículos. Aparentemente esses pacientes apresentam pequenos focos de espermatogênese nos testículos, ainda que permaneçam azoospérmicos (Silber, Nagy et al. 1997).
Uma vez que, mesmo pacientes apresentando oligoastenozoospermia tenham um número adequado de espermatozóides no ejaculado que permitam a realização da ICSI, uma questão pertinente seria o quanto a origem do espermatozóide influenciaria nos resultados da ICSI.
Um estudo retrospectivo anterior mostrou que tanto espermatozóides recuperados do ejaculado de pacientes com fator masculino de infertilidade, quanto espermatozóides epididimários ou testiculares recuperados de pacientes com AO levam a taxas de fertilização e gestação similares. Além disso, esses autores mostraram que quando utilizados espermatozóides testiculares recuperados de pacientes com ANO, as taxas de fertilização e gestação foram inferiores. Por outro lado, quando utilizados espermatozóides recuperados do ejaculado de pacientes com análise seminal dentro dos parâmetros de normalidade, tais taxas foram significantemente mais altas (Aboulghar, Mansour et al. 1997).
Independentemente da origem do espermatozóide, sabese que para aumentar as chances de gestação durante tratamentos de reprodução humana assistida, é importante identificar embriões com maior potencial de implantação. Embriões que se dividem mais rapidamente após a inseminação têm maior potencial de implantação (Isiklar, Mercan et al. 2002; Wharf, Dimitrakopoulos et al. 2004). A avaliação da CP é rápida e objetiva, e traz informações que podem ser usadas para discriminar dentre embriões morfologicamente equivalente, aqueles com maior potencial de implantação.
Um estudo prévio demonstrou que transferência de embriões com CP resulta em maiores taxas de implantação do que transferência de embriões sem CP. Nesse estudo, em transferências onde 100% dos embriões transferidos apresentavam CP, um menor número de embriões transferidos resultou em maior implantação do que quando embriões sem CP também foram transferidos, indicando que a CP aumenta a chance de implantação após a ICSI (Ciray, Ulug et al. 2004)
Um outro estudo sugeriu que o desenvolvimento embrionário inicial é inversamente relacionado ao acometimento da espermatogênese (anomalias meióticas e/ou concentração seminal < ou = 1 x 106/mL) (Vendrell, Aran et al. 2003). Em um trabalho mais recente, foram analisados 1020 embriões produzidos a partir de 219 ciclos de ICSI e foi observada uma relação negativa entre a qualidade seminal e o desenvolvimento embrionário, mesmo anteriormente à ativação do genoma embrionário, sugerindo que o espermatozóide possa afetar a embriogênese a partir de estágios bem precoces (Loutradi, Tarlatzis et al. 2006).
Ainda que, no presente estudo, não tenha sido observada qualquer diferença no número de embriões normalmente fertilizados, a taxa de falha de fertilização foi mais alta quando utilizados espermatozóides testiculares quando comparado ao grupo de pacientes normozoospérmicos. Esse fato, pode ter acontecido devido ao grave acometimento da espermatogênese, e às vezes até falência testicular, em casos de ANO (Martin, Greene et al. 2000).
Pacientes com ANO, podem apresentar defeitos genéticos, e seria de se esperar que, apesar de serem recuperados espermatozóides viáveis de pacientes com ANO, as taxas de gestação fossem significantemente mais baixas que àquelas atingidas, quando recuperados espermatozóides de pacientes normozoospérmicos.
Por outro lado, a taxa de fertilização anormal foi mais alta quando utilizados espermatozóides epididimários do que quando utilizados espermatozóides recuperados do ejaculado. Porém não foi observada diferença quando comparada a utilização de espermatozóide epididimário vs testicular. Ainda que a porcentagem de embriões que apresentaram CP tenha sido mais alta no grupo de pacientes normozoospérmicos, não foram detectadas diferenças estatísticas no número de embriões com CP nos diferentes grupos de estudo. Além disso, não houve diferença na taxa de implantação entre os grupos.
Para demonstrar a importância da CP, os casos foram divididos em aqueles em que pelo menos um embrião com CP foi transferido e aqueles em que apenas embriões que não apresentaram CP foram transferidos, e observamos que na primeira situação a taxa de gestação continuada foi significantemente mais alta.
Ainda que não tenham sido detectadas diferenças nas taxas de gestação nos diferentes grupos de estudo, como seria de se esperar, a taxa de aborto foi mais alta no grupo do espermatozóide testicular.
Em conclusão, nossos achados sugerem que a incidência da CP não é influenciada pela origem do espermatozóide ou qualidade do sêmen, e que uma vez fertilizados os embriões se desenvolvem satisfatoriamente e resultam em gestação. Por outro lado, mesmo com um pequeno número de casos, pudemos concluir que a transferência de embriões com CP aumenta as taxas de gestação.

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