JBRA Assist. Reprod. 2011;15(4):24-26
ARTIGO ORIGINAL

doi: 10.5935/1518-0557.2011.15.4.04

Impacto da Infecção Viral por HIV-1 na Qualidade Oocitária, Embrionária e Taxa de Gravidez

Impact of Viral Infection by HIV-1 in Oocyte and Embryo Quality and Pregnancy Rate.

Lilian Okada, Virginia Lazzari, Ricardo Azambuja, João Michelon, Mariangela Badalotti, Alvaro Petracco

Clinica Fertilitat, Porto Alegre, RS, Brasil

Received April 20, 2011
Accepted April 20, 2011

Endereço para Correspondência:
Lilian Okada
Clinica Fertilitat, Av. Ipiranga 6690/801
Porto Alegre, RS, 90610-000
E-mail: lilian@fertilitat.com.br
Tel.: 55-51-33391142

Local do estudo: Fertilitat - Centro de Medicina Reprodutiva, Porto Alegre, RS

Resumo
Objetivo: O número total de pessoas infectadas com HIV é de 33.3 milhões, segundo dados de 2009 da Organização Mundial da Saúde. Destes, 15.9 milhões são mulheres que vivem com o vírus. Com a melhora na expectativa e qualidade de vida dos pacientes soropositivos e a diminuição no risco de contaminação vertical, casais HIV sorodiscordantes estão considerando a possibilidade de gravidez com o auxílio das técnicas de reprodução assistida. O objetivo do estudo foi analisar o impacto da infecção viral por HIV-1 na qualidade oocitária e embrionária, e na taxa de gravidez.
Material de métodos: A população deste estudo foi constituída de 8 casais sorodiscordantes nas quais as parceiras eram soropositivas para HIV-1, com idade média de 38,83 anos e que realizaram 18 ciclos de Reprodução Assistida, no período de 2002 a 2010. O grupo controle foi composto de 36 casais soronegativos pareados no que se refere à fator de infertilidade, idade, amostra seminal e estimulação ovariana, de forma a ter dois controles para cada casal sorodiscordante, que também se submeteram ao programa. Todos os pacientes seguiram o protocolo de inseminação, cultivo e transferência da clínica.
Resultados: Os resultados da aspiração folicular, da fertilização, bem como da taxa de gestação não tiveram diferenças estatísticas (p<0,05) entre os grupos sorodiscordante e controle.
Conclusões: O estudo revelou que a infecção viral por HIV-1 na mulher não impacta negativamente na qualidade oocitária ou embrionária, e na taxa de gravidez, concordando com estudos prévios.

Palavras chave: HIV, casal sorodiscordante, qualidade oocitária, qualidade embrionária, gravidez clínica

ABSTRACT
Objective: The total number of people infected with HIV is 33.3 million according to 2009 data from the World Health Organization. Of these, 15.9 million women are living with the virus. With the improvement in life expectancy and quality of seropositive patients and lower risk of contamination vertical, HIV serodiscordant couples are considering the possibility of pregnancy with the help of assisted reproduction techniques. The aim of this study was to analyze the impact of viral infection by HIV-1 in the oocyte and embryo quality and pregnancy rate.
Material and methods: The study population consisted of 8 serodiscordant couples in which partners were seropositive for HIV-1, with a mean age of 38.83 years, who underwent 18 cycles of assisted reproduction in the period 2002 to 2010. The control group consisted of 36 matched seronegative couples with regard to factor infertility, age, ovarian stimulation and semen sample in order to have two controls for each serodiscordant couple, who also underwent the program. All patients followed the clinic’s protocol for insemination, culture and embryo transfer.
Results: The results of oocyte retrieval, fertilization and pregnancy rate were not significantly different (p <0.05) between groups serodiscordant and control.
Conclusions: The study showed that viral infection by HIV-1 in women does not impact negatively on the oocyte or embryo quality and pregnancy rate, in agreement with previous studies.

Keywords: HIV, serodiscordant couple, oocyte quality, embryo quality, clinical pregnancy

INTRODUÇÃO
O número total de pessoas infectadas com HIV é de 33,3 milhões, segundo dados de 2009 da Organização Mundial da Saúde. Destes, 15,9 milhões são mulheres que vivem com o vírus (WHO, 2009).
Atualmente, a expectativa e qualidade de vida dos pacientes soropositivos, têm melhorado devido aos medicamentos retrovirais (Lohse et al., 2007; Schackman et al., 2006). O risco de contaminação vertical de mulheres HIV positivas tem diminuído para menos de 1%, com adequado cuidado durante a gestação e parto, e tratamento do recém-nascido (European Collaborative Study, 2005; Mandelbrot et al., 1998).
As técnicas de reprodução assistida minimizam os riscos de transmissão viral, permitindo que casais HIV sorodiscordantes considerem a possibilidade de ter uma gestação. Contudo os casais devem ser advertidos sobre os possíveis riscos de contaminação, mesmo que pequenos. O objetivo do estudo foi analisar o impacto da infecção viral por HIV-1 na qualidade oocitária, embrionária e taxa de gravidez.
Impacto da Infecção Viral por HIV-1 na Qualidade Oocitária, Embrionária e Taxa de Gravidez - Okada L., et all. 25

 

MATERIAIS E MÉTODOS

População e Amostra
A população deste estudo foi constituída de 8 casais sorodiscordantes nas quais as parceiras eram soropositivas para HIV-1, com idade média de 38,83 anos e que realizaram 18 ciclos de Reprodução Assistida, no período de 2002 a 2010. O grupo controle foi composto de 36 casais soronegativos pareados no que se refere à fator de infertilidade, idade, amostra seminal e estimulação ovariana, de forma a ter dois controles para cada casal sorodiscordante, que também se submeteram ao programa.

Estimulação ovariana e fase laboratorial
O bloqueio hipofisário (down regulation) foi feito pelo uso de análogos do hormônio liberador de gonadotrofinas (a-GnRH) e comprovado pela dosagem sérica de estradiol abaixo de 40pg/ml. Os protocolos aplicados para estimular o desenvolvimento folicular utilizaram gonadotrofina menopáusica humana (HMG); hormônio folículo estimulante recombinante (r-FSH) ou a associação entre ambos. As gonadotrofinas foram mantidas até o momento em que os folículos atingiram o tamanho de 18 a 20 mm, quando se administrou a gonadotrofina coriônica humana (hCG) para determinar o final do processo de maturação do oócito. Após 33 a 36 horas da aplicação do hCG realizou-se a aspiração folicular.Os oócitos recuperados no momento da aspiração folicular foram transferidos para meio Human Tubal Fluid (HTF; Irvine) com 7,5% de Serum Substitute Supplement (SSS; Irvine) ou meio Life Global (Global, IVF Online) com 7,5% de Human Serum Albumin (HSA; Global, IVF Online), a 37ºC e a 5% de CO2. Pelo menos 2 horas após a punção os oócitos foram colocados em solução de hialuronidase por 30 segundos e foram transferidos ao meio de HTF HEPES com 10% de SSS onde foi realizada a denudação dos mesmos por manipulação mecânica. Aqueles oócitos em estágio de Metáfase II foram inseminados com espermatozóides, previamente coletados pelo parceiro.

 

Table 1
Tabela 1. Resultados da aspiração folicular nos casais sorodiscordantes e controle.

 

Table 2
Tabela 2. Resultados da inseminação e evolução dos embriões nos casais sorodiscordantes e controle.

 

Table 3
Tabela 3. Resultados de gestação nos casais sorodiscordantes e controle, quando houve a transferência de embriões.

 

A ocorrência da fertilização foi verificada 18-20 horas após a inseminação, pela observação de dois pronúcleos e dois corpúsculos polares. Os embriões eram então mantidos em estufa durante dois ou três dias a 37ºC com 5% de CO2, de forma que o pH, independente do meio de cultivo, ficasse em torno de 7,3. Os meios de cultivo utilizados foram HTF ou Global + 7,5% de SSS ou HSA no dia 1, HTF ou Global + 15% SSS ou HSA nos dias dois e três.A transferência embrionária para o útero foi realizada no segundo ou terceiro dia após a aspiração folicular. Os embriões selecionados para transferência eram os que apresentavam o melhor aspecto morfológico dentro dos parâmetros sugeridos pela Red Latino Americana (Red Latino Americana, 1998 ). A transferência era realizada sob visão ultrassonográfica. A constatação da gestação foi feita por teste sanguíneo de bHCG, no 12º dia após a transferência embrionária. Foi considerada gravidez clínica a presença de saco gestacional intra-uterino com embrião apresentando batimentos cardíacos detectados pelo exame de ultrassonografia. A progesterona era mantida até a comprovação da gestação pelo bHCG, e em caso de gestação clínica foi mantido, até 12 semanas de evolução.

Análise estatística
Os dados de folículos e oócitos aspirados, e qualidade oocitária foram comparados pelo teste de Mann-Whitney, pois não apresentaram distribuição normal. A taxa de fertilização e clivagem, qualidade embrionária, implantação, gravidez clínica e abortamento foram comparados e analisados através do teste exato de Fischer. Em ambos os testes o nível de significância foi de p<0,05.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos 18 ciclos de fertilização realizados entre os casais sorodiscordantes, em quatro não houve transferência devido os seguintes motivos: em um ciclo, o embrião formado foi congelado para uso posterior; em outro, não houve oócito maduro para inseminação; e em dois outros, não houve fertilização.
Dos 36 ciclos de fertilização realizados como grupo controle, em dois não houve transferência: em um ciclo não houve oócito maduro para inseminação e, no outro, os embriões foram congelados, pois o endométrio não estava adequado para transferência.
Os resultados encontrados no estudo apresentam-se nas tabelas abaixo.
Estudos com casais sorodiscordantes são mais freqüentes quando o homem é o portador do vírus. Mais de 4000 procedimentos de reprodução assistida em homens HIV positivos foram relatados e com uma eficiente proteção de transmissão horizontal (Bujan et al.; 2007; van Leeuwen et al., 2007; Sauer et al.; 2009; Savasi et al., 2007). Por sua vez, quando a mulher é a portadora do vírus, são poucos os casos relatados até então, com menos de 200 casais no total (Ohl et al., 2003; Terriou et al., 2005; Manigart et al., 2006; Martinet et al., 2006; Prisant et al, 2010). Estudos anteriores de reprodução assistida em pacientes HIV positivos mostravam baixas taxas de gestação, de 9,1% e 8,6% em homens e mulheres soropositivos respectivamente (Ohl et al., 2003). No entanto, mais recentemente, foi observado taxas de gestações em casais com mulheres-HIV positivas em torno de 23,9% (Ohl et al., 2005). Estudos pareados com grupos controles negativos, não demonstraram diferença significativa nas taxas de gestação quando comparados com mulheres HIV positivas (Terriou et al., 2005; Martinet et al., 2006; Prisant et al., 2010; Santulli et al., 2011). Contudo, quando ambos os parceiros são HIV positivos, encontraram uma taxa de cancelamento do ciclo maior e uma menor taxa de gestação, em relação ao grupo controle (HIV negativo) (Santulli et al., 2011).
Quanto aos resultados dos ciclos de reprodução assistida, o número de oócitos maduros aspirados não é diferente entre os grupos sorodiscordantes e controle (Terriou et al., 2005; Martinet et al., 2006; Prisant et al., 2010); assim como a porcentagem de bons embriões (Terriou et al., 2005; Martinet et al., 2006).
Neste estudo, os resultados da aspiração folicular, da fertilização, bem como da taxa de gestação não tiveram diferenças estatísticas entre o grupo sorodiscordante e controle. As taxas de gestações clínicas apresentaramse relativamente altas, em relação a estudos anteriores, com 35,7% de gestação clínica nos casais sorodiscordantes, mostrando que a reprodução assistida foi eficiente. Entre os 8 casais sorodiscordantes que buscaram as técnicas de reprodução assistida, 3 obtiveram sucesso, com nascimento de bebês saudáveis.

 

CONCLUSÕES
O presente estudo revelou que a infecção viral por HIV-1 na mulher não impacta negativamente na qualidade oocitária ou embrionária, e na taxa de gravidez, concordando com estudos prévios.
Com o constante progresso no tratamento para pacientes HIV positivos e mudanças sociais em relação ao problema, a reprodução assistida pode ser um efetivo e seguro método em busca da maternidade sem que haja transmissão viral ao parceiro.

 

REFERÊNCIAS
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